Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Samuel Baptista Mariani (ECA – USP)

Minicurrículo

    Samuel Mariani é formado em Midialogia pela Unicamp e é mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela USP. Membro do MidiAto: Grupo de Estudos de Linguagem: Práticas Midiáticas e do Núcleo de Cinema de Animação de Campinas, trabalha como animador e montador no Estúdio Celestina e para o Dia Internacional da Animação do Brasil. Destaca-se também seu trabalho como editor para os projetos audiovisuais das produtoras paulistanas de cinema de animação Coala Filmes e Planta Filmes.

Ficha do Trabalho

Título

    Safo, de Rosana Urbes: montagem em animação de uma cinebiografia impossível.

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    O curta “Safo” (2025), de Rosana Urbes, premiado por sua inovação técnica em Annecy, tensiona a categoria ao valorizar a artesania, na contramão da produção de imagens sintetizadas que proliferam na cultura digital. Este trabalho analisa o filme como um documentário do fazer, no qual a montagem, como operador central, articula acúmulos materiais e biográficos, evidenciando o caráter metalinguístico da animação e propondo uma reflexão sobre técnica, criação e memória sáfica na cultura digital.

Resumo expandido

    O mais recente curta-metragem de Rosana Urbes, “Safo”, lançado em 2025, foi premiado no Festival Internacional de Cinema de Animação de Annecy na categoria Alexeïeff – Parker. O festival, o maior do mundo dedicado ao cinema de animação, criou a categoria em 2024, homenageando Alexandre Alexeïeff e Claire Parker, criadores da tela de alfinetes, uma ferramenta histórica baseada em alfinetes móveis iluminados por luz rasante (DENIS, 2010). “Safo”, premiado na categoria que celebra a técnica, foi celebrado pela sua realização multi-processos e inventividade artesanal em uma época de grande proliferação de imagens sintetizadas por computador autonomamente.
    Diante da vertigem provocada pela proliferação de imagens geradas por Inteligência Artificial (MARIANI e PAGANOTTI, 2026), habitando de modo pervasivo as telas em rede, outrora pertencentes à animação, como teorizou Buchan (2013), o filme atua na contramão da mudança de volume e velocidade trazida por uma nova acumulação de artefatos da cultura digital. Essa acumulação, processo natural a obras artísticas inseridas na cultura, como outrora fez citações diretas do vasto universo da mídia visual na contemporaneidade de Rodchenko, Picasso e Warhol, atinge grande escala na sociedade em rede, exigindo uma inteligência qualitativamente semelhante à humana, mas que opera em escala quantitativamente diferente (MANOVICH, 2018).
    Nesse cenário, “Safo” arrisca um anacronismo como forma de resistência no que tange a artesania do seu processo de produção, criando imagens cuja concepção atravessa a coleta de elementos naturais — folhas, sementes, galhos — em contraposição a elementos sintéticos, como látex e silicone, comuns ao stop motion, que visam maior controle de movimento (PLANTA FILMES, s. d.). Ainda assim, o filme não descarta o acúmulo de artefatos culturais, algo necessário em um trabalho de proposições biográficas, como defende a cineasta. Mesmo sendo necessário debruçar-se sobre abordagens e traduções dos fragmentos da poesia arcaica presentes na bibliografia de importantes historiadores brasileiros da poesia de Safo de Mitilene, como Joaquim Brasil, Guilherme Gontijo e Giuliana Ragusa, o trabalho dirigido por Urbes aprofunda-se na mesma medida sobre a vasta coleta de elementos naturais do seu processo, configurando um documentário do próprio trabalho, ao revés da tendência à sintetização artificial da cultura digital. O tema do documentário de si, por mais relacionado a qualquer produção que tematiza o registro temporal, articula-se na animação como parte de seu aspecto metalinguístico intrínseco, definido pela teoria especializada por “animatedness”, parte do efeito de enunciação típico da animação (WARD, 2005; WELLS, 2006; SERRA, 2017).
    Nesse sentido, este trabalho propõe que esse outro acúmulo de artefatos culturais no filme de Urbes é trabalhado extensivamente por meio da sua montagem, em uma compilação de materiais acumulados pela autora durante cinco anos de produção em conjunto com a escrita de Safo, esta encontrada apenas em fragmentos, interpretados a partir da recuperação de palimpsestos gregos encontrados no começo do século XIX. O texto integral de Safo, apagado no decorrer da história, encontra pontes na proposta de Urbes em uma montagem cinematográfica que valoriza a busca da cineasta pela poeta, incluindo materiais processuais, rascunhos, esboços e tentativas de representação.
    A análise proposta, baseada juntamente na experiência prática do autor desta comunicação com a montagem do referido filme, busca destacar os elementos intrínsecos a essa animação histórica brasileira, diante da busca da cineasta por um resgate, mesmo que incontornavelmente fragmentado, do feminino na história do pensamento através da poesia de Safo. Uma busca que procurou traçar uma corrente de mulheres que preserva essa história, provando pelo retalho fracionado, sobrante e enviesadamente apagado, que é possível torná-lo marca de sobrevivência, mesmo diante de uma cultura digital vertiginosa.

Bibliografia

    BUCHAN, Suzanne. Pervasive animation. New York: Routledge, 2013.
    DENIS, Sébastien. O cinema de animação. Lisboa: Texto & Grafia, 2010.
    KINDER, Bill; O’STEEN, Bobbie. Making the cut at Pixar: the art of editing animation. New York: Routledge, 2022.
    PLANTA FILMES. Safo. [s. d.]. Disponível em: https://plantafilmes.com/safo
    . Acesso em: 25 abr. 2026.
    MANOVICH, Lev. AI aesthetics. Strelka Press, 2018.
    MARIANI, Samuel B.; PAGANOTTI, Ivan. A vertigem da IA: impactos da geração de imagens com Inteligência Artificial no campo da cultura visual. RuMoRes, [S. l.], v. 19, n. 38, p. 111–130, 2026. DOI: 10.11606/issn.1982-677X.rum.2025.244426.
    SERRA, Jennifer J. A vida animada: (re)construções do mundo histórico através do documentário animado. Tese (Doutorado) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2017.
    WARD, Paul. Documentary: the margins of reality. Wallflower, 2005.
    WELLS, Paul. The fundamentals of animation. AVA, 2006.