Ficha do Proponente
Proponente
- Hayane Luiz Telles Leotte (UFRGS)
Minicurrículo
- Hayane Leotte é mestranda em Comunicação pelo PPGCOM – UFRGS, pesquisando representações de território no audiovisual brasileiro e no streaming, a partir das relações entre espaço, poder e marcadores sociais. Integra o grupo ARTIS e é bolsista Capes.
Marília Dalmagro é atriz e mestranda em Comunicação pelo PPGCOM – UFRGS, com pesquisa sobre adaptação entre teatro e cinema, interpretação audiovisual e dramaturgia brasileira. Integra o grupo ARTIS e é bolsista CNPq.
Coautor
- Marília Cauz Dalmagro (UFRGS)
Ficha do Trabalho
Título
- Território e violência em Manas (2024): espaço, poder e resistência no cinema brasileiro
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O trabalho analisa Manas (2024), de Marianna Brennand, a partir do território como agente dramático e político. Ambientado na Ilha do Marajó, o filme mobiliza a geografia ribeirinha como elemento estruturante das relações de poder e da violência de gênero. Argumenta-se que o isolamento geográfico opera como instrumento de silenciamento das experiências femininas, ao mesmo tempo em que abre brechas de resistência, evidenciando o caráter político do cinema contemporâneo.
Resumo expandido
- Esse trabalho analisa o filme Manas (2024), de Marianna Brennand,a partir da noção de território como agente dramático e político, compreendendo o espaço não como um mero cenário, mas como agente ativo na produção de sentido. A obra acompanha Marcielle (Jamilli Correa), conhecida como Tielle, uma jovem de treze anos, que vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó, no Pará. Marcada pela memória da irmã Claudia, que deixou a comunidade, Tielle passa a perceber as estruturas de violência, abuso e silêncio que aprisionam as mulheres ao seu redor. A partir disso, a protagonista decide enfrentar as dinâmicas de violência que atravessam seu território. A Ilha do Marajó é o maior arquipélago fluviomarinho do mundo, desta forma, o filme mobiliza a geografia ribeirinha como elemento estruturante da narrativa. Os rios, as balsas, a densidade da mata e a distância dos centros urbanos são interpretados como elementos configurantes de um regime de isolamento que condiciona formas de existência, limita deslocamentos e produz invisibilidades, especialmente no que diz respeito às experiências das mulheres. Nesse contexto, o território é além de representado, construído como instância ativa na produção de sentidos, articulando espaço, poder e violência. Este trabalho contribui para o debate sobre como o audiovisual brasileiro contemporâneo elabora representações de territórios historicamente marginalizados, especialmente na Amazônia, e como essas imagens participam da produção de imaginários sobre gênero, violência e desigualdade. A fundamentação teórica organiza-se em dois eixos complementares. O primeiro apresenta um diálogo entre Milton Santos (1996) e Lélia Gonzalez (1982) para compreender o território como espaço usado e atravessado por relações de poder estruturais. Essa base possibilita uma leitura interseccional que situa as vivências de mulheres na Amazônia como processos de resistência diante de persistentes estruturas coloniais. O segundo eixo articula as contribuições de Miriam Rossini (2004), Márcio Seligmann-Silva (2020) e Esther Hamburger (2022) para discutir as tensões entre estética, identidade, violência e desigualdade no audiovisual. Em diálogo, as pesquisas de Raissa Sousa e Luciana Costa (2020) evidenciam como a construção estética e a linguagem cinematográfica produzem territorialidades ribeirinhas a partir da representação de corpos femininos historicamente silenciados. Assim, o trabalho investiga como os gestos de enfrentamento das personagens desestabilizam o controle exercido pelo território, redefinindo o papel feminino no imaginário sobre a Amazônia contemporânea. Metodologicamente, a pesquisa concentra-se em cenas-chave do filme, utilizando ferramentas de análise fílmica propostas por Jullier e Marie (2012). Enquadramento, escala de planos e movimentos de câmera são examinados como elementos que materializam o regime de isolamento e evidenciam as tensões entre opressão e resistência, permitindo compreender como o cinema produz sentidos sobre território e poder no Brasil contemporâneo. Ao identificar gestos de ruptura e resistência nesse espaço marcado pela opressão, o trabalho tensiona uma leitura determinista do território, evidenciando como as personagens desestabilizam o controle que ele exerce sobre suas existências. Nesse sentido, Manas (2024) aponta para novas formas de imaginar a Amazônia paraense, onde as mulheres ribeirinhas rompem com a condição de vítimas de um território que as silencia para se tornarem sujeitas ativas na disputa por sentido, visibilidade e existência.
Bibliografia
- GONZALEZ, L.; HASENBALG, C.. Lugar de negro. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1982.
HAMBURGER, E… Desigualdades sociais, a crise da democracia e o audiovisual. Ñawi: arte diseño comunicación, v. 6, n. 2, 2022.
JULLIER, L; MARIE, M.. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2012 .
SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Edusp, 2002.
SELIGMANN-SILVA, M.. A estética do político. Cadernos IHU ideias, São Leopoldo, v. 22, n. 24, p. 1-22, 2004.
ROSSINI, M. de S.. Cinema, cultura e identidade. Revista Comunicação e Cultura, [S. l.], n. 2, p. 55-68, 2004.
SOUSA, R. L. N.; COSTA, L. M.. O corpo da mulher no cinema amazônico: a dicotomia entre a disciplina e a liberdade. Cinemas amazônicos em tempos de luta, [S. l.], v. 1, n. 38-39, 2020. Disponível em: Acesso em: 16 abr. 2026.