Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lisandro Nogueira (Ufg)

Minicurrículo

    Professor de cinema na Universidade Federal de Goiás, desde 1989. Ex-Diretor da Cinemateca Brasileira. Mestre e Doutor em Cinema pela USP. Autor do livro “O autor na TV” (Edusp/UFG). Membro do programa de pós Midia-Lab em artes, cultura e tecnologia da UFG. Curador de Mostras de Cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Emoções e engano: a permanencia do melodrama e suas narrativas consoladoras no cinema

Resumo

    A proposta analisa a permanência do melodrama no cinema como forma de organização das emoções. De D. W. Griffith a Pedro Almodóvar, passando por Douglas Sirk, discute-se a “imaginação melodramática” (Peter Brooks) como modo de perceber o mundo moderno. Argumenta-se que o melodrama emociona ao estruturar conflitos de forma clara, mas frequentemente simplifica a realidade, produzindo narrativas que consolam o espectador e, ao mesmo tempo, o enganam. Por que essa forma narrativa persiste influente.

Resumo expandido

    Venho estudando o melodrama como forma narrativa, presente em todos os gêneros, desde o mestrado, quando estudei telenovela – que virou livro: “O autor na TV – o autor na telenovela”.

    O melodrama é uma forma narrativa presente em quase todos os gêneros. Portanto, não é um gênero como é costume afirmar.

    Essa forma narrativa tem como núcleo central articular emoções que criam empatias e sensibilizam demasiadamente o espectador. São emoções que geralmente enganam e nao criam pensamento ou sofisticam a narrativa.

    Alguns cineastas conseguem “ir além”, como Sirk, Fassbinder ou mesmo Almodóvar, em alguns filmes, mas mesmo assim a forma narrativa está sempre no limite entre mobilizar emocionalmente o espectador e enganá-lo levando-o para sentimentos superficiais.

    Este trabalho investiga a permanência do melodrama no cinema, compreendendo-o não apenas como gênero, mas como uma forma de organização histórica das emoções. Desde os filmes de D. W. Griffith, o melodrama estabelece uma pedagogia dos afetos baseada na polarização moral e na intensificação emocional, estruturando a experiência em termos de oposições claras entre bem e mal.

    Ao longo do século XX, essa forma se sofisticou sem perder sua função consoladora. Nos filmes de Douglas Sirk, Vincente Minnelli e Kenji Mizoguchi, observa-se a construção de narrativas que organizam o sofrimento e oferecem ao espectador formas de reconciliação simbólica. Já na modernidade, cineastas como Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar radicalizam o melodrama ao torná-lo mais autoconsciente, sem abdicar de sua potência afetiva.

    A partir do conceito de imaginação melodramática, formulado por Peter Brooks, o artigo argumenta que o melodrama constitui um modo de percepção do mundo moderno, especialmente em contextos marcados pela instabilidade e pela perda de referenciais morais. Em diálogo com a história das emoções, em especial com Alain Corbin, sustenta-se que o melodrama participa da construção das formas de sentir, oferecendo esquemas narrativos que tornam experiências afetivas complexas em formas simplificadoras.

    No entanto, essa capacidade de emocionar frequentemente se articula a mecanismos de simplificação. Ao organizar conflitos em termos binários e ao propor resoluções simbólicas, o melodrama tende a produzir uma sensação de compreensão que pode ocultar a complexidade do real. Assim, argumenta-se que o melodrama não apenas mobiliza emoções, mas orienta essas emoções em direção a formas de apaziguamento e Consolação simplória.

    Conclui-se que, ao longo de sua história, o melodrama desenvolveu estratégias eficazes de mobilização afetiva que, na maioria das vezes, emocionam, mas também enganam — sendo essa tensão a chave de sua permanência no cinema contemporâneo. A vitalidade do melodrama, forma narrativa, surpreende, em pleno século 21, ao sofisticar as emoções, ao mesmo tempo que mantém “o pé no século 19“

Bibliografia

    BROOKS, Peter. The Melodramatic Imagination. New Haven: Yale University Press, 1976.

    CORBIN, Alain (org.). História das Emoções. Petrópolis: Vozes, 2013.

    XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

    BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.

    NOGUEIRA, Lisandro. O autor na TV. São Paulo: Edusp, 1995.