Ficha do Proponente
Proponente
- Lisandro Nogueira (Ufg)
Minicurrículo
- Professor de cinema na Universidade Federal de Goiás, desde 1989. Ex-Diretor da Cinemateca Brasileira. Mestre e Doutor em Cinema pela USP. Autor do livro “O autor na TV” (Edusp/UFG). Membro do programa de pós Midia-Lab em artes, cultura e tecnologia da UFG. Curador de Mostras de Cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- Emoções e engano: a permanencia do melodrama e suas narrativas consoladoras no cinema
Resumo
- A proposta analisa a permanência do melodrama no cinema como forma de organização das emoções. De D. W. Griffith a Pedro Almodóvar, passando por Douglas Sirk, discute-se a “imaginação melodramática” (Peter Brooks) como modo de perceber o mundo moderno. Argumenta-se que o melodrama emociona ao estruturar conflitos de forma clara, mas frequentemente simplifica a realidade, produzindo narrativas que consolam o espectador e, ao mesmo tempo, o enganam. Por que essa forma narrativa persiste influente.
Resumo expandido
- Venho estudando o melodrama como forma narrativa, presente em todos os gêneros, desde o mestrado, quando estudei telenovela – que virou livro: “O autor na TV – o autor na telenovela”.
O melodrama é uma forma narrativa presente em quase todos os gêneros. Portanto, não é um gênero como é costume afirmar.
Essa forma narrativa tem como núcleo central articular emoções que criam empatias e sensibilizam demasiadamente o espectador. São emoções que geralmente enganam e nao criam pensamento ou sofisticam a narrativa.
Alguns cineastas conseguem “ir além”, como Sirk, Fassbinder ou mesmo Almodóvar, em alguns filmes, mas mesmo assim a forma narrativa está sempre no limite entre mobilizar emocionalmente o espectador e enganá-lo levando-o para sentimentos superficiais.
Este trabalho investiga a permanência do melodrama no cinema, compreendendo-o não apenas como gênero, mas como uma forma de organização histórica das emoções. Desde os filmes de D. W. Griffith, o melodrama estabelece uma pedagogia dos afetos baseada na polarização moral e na intensificação emocional, estruturando a experiência em termos de oposições claras entre bem e mal.
Ao longo do século XX, essa forma se sofisticou sem perder sua função consoladora. Nos filmes de Douglas Sirk, Vincente Minnelli e Kenji Mizoguchi, observa-se a construção de narrativas que organizam o sofrimento e oferecem ao espectador formas de reconciliação simbólica. Já na modernidade, cineastas como Rainer Werner Fassbinder e Pedro Almodóvar radicalizam o melodrama ao torná-lo mais autoconsciente, sem abdicar de sua potência afetiva.
A partir do conceito de imaginação melodramática, formulado por Peter Brooks, o artigo argumenta que o melodrama constitui um modo de percepção do mundo moderno, especialmente em contextos marcados pela instabilidade e pela perda de referenciais morais. Em diálogo com a história das emoções, em especial com Alain Corbin, sustenta-se que o melodrama participa da construção das formas de sentir, oferecendo esquemas narrativos que tornam experiências afetivas complexas em formas simplificadoras.
No entanto, essa capacidade de emocionar frequentemente se articula a mecanismos de simplificação. Ao organizar conflitos em termos binários e ao propor resoluções simbólicas, o melodrama tende a produzir uma sensação de compreensão que pode ocultar a complexidade do real. Assim, argumenta-se que o melodrama não apenas mobiliza emoções, mas orienta essas emoções em direção a formas de apaziguamento e Consolação simplória.
Conclui-se que, ao longo de sua história, o melodrama desenvolveu estratégias eficazes de mobilização afetiva que, na maioria das vezes, emocionam, mas também enganam — sendo essa tensão a chave de sua permanência no cinema contemporâneo. A vitalidade do melodrama, forma narrativa, surpreende, em pleno século 21, ao sofisticar as emoções, ao mesmo tempo que mantém “o pé no século 19“
Bibliografia
- BROOKS, Peter. The Melodramatic Imagination. New Haven: Yale University Press, 1976.
CORBIN, Alain (org.). História das Emoções. Petrópolis: Vozes, 2013.
XAVIER, Ismail. O olhar e a cena. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
NOGUEIRA, Lisandro. O autor na TV. São Paulo: Edusp, 1995.