Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Karine Joulie Martins (UFRJ)

Minicurrículo

    Doutora e Mestre em Educação e Bacharel em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em iniciativas que articulam arte, cinema e educação junto às universidades, produtoras culturais e redes de ensino, desenvolvendo cursos livres, oficinas, cineclubes, mostras e exposições. Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com financiamento do CNPq.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema na escola: a imaginação utópica como horizonte político

Mesa

    Curadoria e criação audiovisual: cinema para reinventar mundos na escola

Resumo

    O realismo capitalista tem operado como um horizonte hegemônico invisível, balizando a imaginação e nossa relação com o mundo, fazendo recair sobre os jovens o peso de uma realidade em erosão. Questionamos se é possível reconstruir a coletividade e a esperança no futuro a partir do exercício crítico e criativo com a imagem. Retomando pedagogias que surgem em projetos de cinema na escola, buscamos gestos que inspirem o “delírio” necessário para a construção da utopia.

Resumo expandido

    Em 2016, desenvolvemos oficinas de cinema em uma escola da periferia de Florianópolis. Naquele momento, uma das demandas mais pulsantes da juventude era pelo reconhecimento de sua imagem e de seu potencial para além de estereótipos difundidos na mídia e em contextos educativos. Algumas situações evidenciam a dimensão política da experiência: o olhar de cumplicidade entre um jovem e um close de si mesmo projetado na tela grande, a assertividade no questionamento de um gestor durante a produção de um documentário sobre a escola, a criação de espaços de participação para os colegas e a afirmação da autoria como prova da seriedade de seu envolvimento no processo. O cinema foi um dispositivo de reivindicação não apenas da imagem dos jovens participantes, mas também do espaço físico da escola como território em que seus corpos, sua história, sua cultura e sua voz também deveriam ser protagonistas.
    Nesse período, ocorria a Primavera Secundarista, ocupações de escolas por todo o país contra projetos de lei que limitavam investimentos e ampliavam a desigualdade na educação. Fotografias e vídeos documentaram as ações, compartilhando a metodologia de organização e inspirando novas mobilizações. Documentários como Lute como uma menina! (Beatriz Alonso e Flávio Colombini, 2016) mostram a habilidade dos jovens em gerir conjuntamente as demandas do cotidiano, da educação e da luta política: as tarefas divididas igualmente entre meninas e meninos, aulas abertas na rua mesclando currículo e cultura, e o uso das redes para organização política e difusão dessa versão utópica da escola.
    A promessa de transformação da Primavera Secundarista não impediu o avanço neoliberal sobre a educação. A reforma do Ensino Médio reduziu a carga horária de disciplinas com potencial para desenvolvimento do pensamento crítico, como história, geografia e artes. Nesse contexto, “realismo capitalista” (Fisher, 2019) opera como um horizonte hegemônico invisível, balizando a imaginação e nossa relação com o mundo. As redes sociais tornaram-se um lugar de confinamento para jovens, com a timeline infinita, hiperfragmentada e desintermediada, impedindo qualquer construção de sentido ou reflexão mais complexa, ao mesmo tempo em que propiciam uma grande exposição a discursos de ódio a minorias (Cesarino, 2022; Hissa, 2023). A vida offline evidencia a precariedade das condições trabalhistas, o aprofundamento das desigualdades, as crises ambientais e o recrudescimento de conflitos internacionais. Como resultado, muitos jovens se sentem entristecidos, ansiosos e apresentam comportamento de risco (IBGE, 2026).
    Questionamos se é possível reconstruir a coletividade e a esperança no futuro quando esse quadro suprime o poder do espaço público e impede o ócio que faz surgir o “delírio” necessário para a construção da utopia, como defende Galeano (1998). Esta comunicação propõe retomar e discutir pedagogias que surgem em projetos de cinema na escola, buscando gestos que promovam a autonomia, a coletividade e a igualdade. Para tanto, desenvolvemos uma pesquisa exploratória a partir do levantamento da Rede Kino (2025) e de projetos/relatos apresentados ao final do curso de extensão Cinemas e Educações, ofertado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2024 e 2026).
    Algumas questões-chave que emergem desse corpus são o tempo, a presença e a atenção dedicados a construção de alternativas ao caos e à pressão do presente nas oficinas de cinema. Tomar decisões coletivamente, construir uma narrativa simbólica e olhar a si mesmo diante de todos instaura um antigo “novo” poder da imagem que questiona a naturalização da desigualdade, da opressão e da violência. O exercício crítico e criativo com a imagem permite pensar diferentes fins e começos. Ainda que pontualmente, tais projetos trabalham pela restauração da utopia como ferramenta sociológica e política capaz de organizar o pensamento entre a realização e o desejável para conduzir a ação diante de problemas concretos (Andrade, 2015).

Bibliografia

    ANDRADE, M. A. A. Reivindicar la utopía. Una apuesta pragmatista del concepto desde el neozapatismo. Sociológica, ano 30, n. 85, mai./ago. 2015, pp. 101-129. Disponível em: https://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0187-01732015000200004. Acesso em: 23 abr. 2026.
    CESARINO, L. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu, 2022.
    FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia literária, 2020.
    GALEANO, E. Patas arriba: la escuela del mundo al revés. Madri: ONCE, 1998.
    HISSA, D. A leitura plataformizada na mídia digital: da sobrecarga informacional à perda do pensamento crítico. ABRALIN, n. 23, v. 2, p. 304–331, jun. 11, 2024. Disponível em: https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/2208. Acesso em 13 mar. 2025.
    INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE); MINISTÉRIO DA SAÚDE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024. Rio de Janeiro: 2026.