Ficha do Proponente
Proponente
- Karine Joulie Martins (UFRJ)
Minicurrículo
- Doutora e Mestre em Educação e Bacharel em Cinema pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua em iniciativas que articulam arte, cinema e educação junto às universidades, produtoras culturais e redes de ensino, desenvolvendo cursos livres, oficinas, cineclubes, mostras e exposições. Atualmente realiza pesquisa de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com financiamento do CNPq.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema na escola: a imaginação utópica como horizonte político
Mesa
- Curadoria e criação audiovisual: cinema para reinventar mundos na escola
Resumo
- O realismo capitalista tem operado como um horizonte hegemônico invisível, balizando a imaginação e nossa relação com o mundo, fazendo recair sobre os jovens o peso de uma realidade em erosão. Questionamos se é possível reconstruir a coletividade e a esperança no futuro a partir do exercício crítico e criativo com a imagem. Retomando pedagogias que surgem em projetos de cinema na escola, buscamos gestos que inspirem o “delírio” necessário para a construção da utopia.
Resumo expandido
- Em 2016, desenvolvemos oficinas de cinema em uma escola da periferia de Florianópolis. Naquele momento, uma das demandas mais pulsantes da juventude era pelo reconhecimento de sua imagem e de seu potencial para além de estereótipos difundidos na mídia e em contextos educativos. Algumas situações evidenciam a dimensão política da experiência: o olhar de cumplicidade entre um jovem e um close de si mesmo projetado na tela grande, a assertividade no questionamento de um gestor durante a produção de um documentário sobre a escola, a criação de espaços de participação para os colegas e a afirmação da autoria como prova da seriedade de seu envolvimento no processo. O cinema foi um dispositivo de reivindicação não apenas da imagem dos jovens participantes, mas também do espaço físico da escola como território em que seus corpos, sua história, sua cultura e sua voz também deveriam ser protagonistas.
Nesse período, ocorria a Primavera Secundarista, ocupações de escolas por todo o país contra projetos de lei que limitavam investimentos e ampliavam a desigualdade na educação. Fotografias e vídeos documentaram as ações, compartilhando a metodologia de organização e inspirando novas mobilizações. Documentários como Lute como uma menina! (Beatriz Alonso e Flávio Colombini, 2016) mostram a habilidade dos jovens em gerir conjuntamente as demandas do cotidiano, da educação e da luta política: as tarefas divididas igualmente entre meninas e meninos, aulas abertas na rua mesclando currículo e cultura, e o uso das redes para organização política e difusão dessa versão utópica da escola.
A promessa de transformação da Primavera Secundarista não impediu o avanço neoliberal sobre a educação. A reforma do Ensino Médio reduziu a carga horária de disciplinas com potencial para desenvolvimento do pensamento crítico, como história, geografia e artes. Nesse contexto, “realismo capitalista” (Fisher, 2019) opera como um horizonte hegemônico invisível, balizando a imaginação e nossa relação com o mundo. As redes sociais tornaram-se um lugar de confinamento para jovens, com a timeline infinita, hiperfragmentada e desintermediada, impedindo qualquer construção de sentido ou reflexão mais complexa, ao mesmo tempo em que propiciam uma grande exposição a discursos de ódio a minorias (Cesarino, 2022; Hissa, 2023). A vida offline evidencia a precariedade das condições trabalhistas, o aprofundamento das desigualdades, as crises ambientais e o recrudescimento de conflitos internacionais. Como resultado, muitos jovens se sentem entristecidos, ansiosos e apresentam comportamento de risco (IBGE, 2026).
Questionamos se é possível reconstruir a coletividade e a esperança no futuro quando esse quadro suprime o poder do espaço público e impede o ócio que faz surgir o “delírio” necessário para a construção da utopia, como defende Galeano (1998). Esta comunicação propõe retomar e discutir pedagogias que surgem em projetos de cinema na escola, buscando gestos que promovam a autonomia, a coletividade e a igualdade. Para tanto, desenvolvemos uma pesquisa exploratória a partir do levantamento da Rede Kino (2025) e de projetos/relatos apresentados ao final do curso de extensão Cinemas e Educações, ofertado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2024 e 2026).
Algumas questões-chave que emergem desse corpus são o tempo, a presença e a atenção dedicados a construção de alternativas ao caos e à pressão do presente nas oficinas de cinema. Tomar decisões coletivamente, construir uma narrativa simbólica e olhar a si mesmo diante de todos instaura um antigo “novo” poder da imagem que questiona a naturalização da desigualdade, da opressão e da violência. O exercício crítico e criativo com a imagem permite pensar diferentes fins e começos. Ainda que pontualmente, tais projetos trabalham pela restauração da utopia como ferramenta sociológica e política capaz de organizar o pensamento entre a realização e o desejável para conduzir a ação diante de problemas concretos (Andrade, 2015).
Bibliografia
- ANDRADE, M. A. A. Reivindicar la utopía. Una apuesta pragmatista del concepto desde el neozapatismo. Sociológica, ano 30, n. 85, mai./ago. 2015, pp. 101-129. Disponível em: https://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0187-01732015000200004. Acesso em: 23 abr. 2026.
CESARINO, L. O mundo do avesso: verdade e política na era digital. São Paulo: Ubu, 2022.
FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? São Paulo: Autonomia literária, 2020.
GALEANO, E. Patas arriba: la escuela del mundo al revés. Madri: ONCE, 1998.
HISSA, D. A leitura plataformizada na mídia digital: da sobrecarga informacional à perda do pensamento crítico. ABRALIN, n. 23, v. 2, p. 304–331, jun. 11, 2024. Disponível em: https://revista.abralin.org/index.php/abralin/article/view/2208. Acesso em 13 mar. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE); MINISTÉRIO DA SAÚDE. Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024. Rio de Janeiro: 2026.