Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Priscila Lima Freitas (UFMT)

Minicurrículo

    Priscila Lima Freitas é doutora em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e bolsista de pós-doutorado Jr pelo INCT PreRes. Mestre pelo ECCO/UFMT, é graduada em Letras/Espanhol (UNIC), Comunicação Social/Radialismo (UFMT) e tecnóloga em Teatro (UNEMAT). Integra o GECAS/UFMT e o projeto Speculum (LABCOM). Atua como formadora em Iluminação Cênica e como iluminadora em teatro, cinema e audiovisual. Suas principais áreas de interesse são: iluminação, comunicação, cinema, teatro e audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    ILUMINAÇÃO COMO CULTURA E LUZ COMO NATUREZA

Resumo

    O trabalho investiga a passagem da luz enquanto fenômeno natural à iluminação como construção cultural no cinema, compreendendo-a como mediadora simbólica e estética. A partir de autores como John Dewey, Georg Simmel, Charles Peirce e Etienne Samain, discute-se a luz como condição natural e cultural. Analisa-se o cinema realizado em Mato Grosso, destacando a luz solar como elemento expressivo e propondo uma abordagem situada de seu uso como elemento estruturante da imagem cinematográfica.

Resumo expandido

    O presente trabalho investiga a passagem da luz enquanto fenômeno natural à iluminação como construção cultural no cinema, tomando como eixo uma relação de continuidade entre natureza e cultura. Parte-se da compreensão de que a luz solar, para além de sua dimensão física e biológica, atua como mediadora simbólica e estética, sendo capaz de produzir significados que atravessam diferentes contextos históricos e culturais. No cinema, essa condição se intensifica: a luz não apenas torna visível o mundo, mas inscreve sua duração na imagem, constituindo-se como fundamento ontológico do próprio dispositivo cinematográfico, conforme propõe André Bazin. A partir dessa base, a pesquisa articula um conjunto teórico que compreende a experiência perceptiva como dimensão fundamental da construção de sentido. Em Maurice Merleau-Ponty, a luz é condição da experiência sensível, sendo sempre já vivida; em John Dewey, ela integra o processo estético como interação entre sujeito e ambiente; em Georg Simmel, a luz exemplifica a transformação do fenômeno natural em cultura objetiva; e, em Charles Sanders Peirce, constitui-se como signo, adquirindo significado nas relações que estabelece com o observador e o contexto. Por sua vez, Etienne Samain contribui ao compreender a imagem como forma de pensamento, na qual a luz participa de uma dinâmica de revelação e ocultamento. Nesse horizonte, a iluminação cinematográfica é entendida como o gesto cultural que organiza a luz sem eliminar sua potência indicial. A luz solar, ao ser capturada pela câmera, não se reduz a dado neutro, mas se torna matéria expressiva, mediada por escolhas técnicas e estéticas. Tal perspectiva pode ser observada no cinema brasileiro, em que algumas cenas externas, gravadas primordialmente com luz solar, operam como elemento constitutivo de identidade, articulando paisagem, atmosfera e narrativa. Filmes como Vidas Secas (1963) é exemplo, mostra como a luz é organizada em chave expressiva, configurando uma interpretação visual do território. O estudo se volta ao contexto mato-grossense, a presença dos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal oferece regimes luminosos distintos, que influenciam diretamente a construção da imagem cinematográfica. Nessas paisagens, a luz atua como índice do mundo e, simultaneamente, como elemento de elaboração estética, permitindo pensar a cinematografia como um encontro entre condições naturais e decisões culturais. Experiências do cinema gravado em Mato Grosso indicam caminhos nos quais a luz solar é mobilizada como matriz expressiva, aproximando práticas do cinema documental e experimental. Nesse sentido, argumenta-se que a distinção entre luz natural e iluminação não deve ser compreendida em termos de oposição, mas em relação contínua. A luz funda o vínculo com o real, enquanto a iluminação organiza sua legibilidade, sem esvaziar sua ambiguidade. Dessa forma, a cinematografia se configura como um campo em que natureza e cultura não se separam, mas se relacionam continuadamente, fazendo da luz um elemento central na construção de formas sensíveis e de pensamento no cinema.

Bibliografia

    BAZIN, André. Ontologia da imagem fotográfica. In: XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal; Embrafilme, 1983.

    DEWEY, J.. Arte como experiência/ John Dewey; organização Jo Ann Boydston; editora de texto Harriet Furt Simon. Introdução Abrahan; tradução Vera Ribeiro. – São Paulo: Martins Fontes, 2010. – (Coleção Todas as Artes).

    MERLEAU-PONTY, M.. Fenomenologia da percepção/ Maurice Merleau-Ponty; [tradução Carlos Alberto de Moura]. – 2. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

    PEIRCE, C. S., 1839-1914. Semiótica/ Charles Sanders Peirce; [tradução: José Teixeira Coelho Neto]. – São Paulo: Perspectiva, 2005.

    SAMAIN, E.. Como pensam as imagens. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012.

    SIMMEL, G.. De la esencia de la cultura/ Georg Simmel; com prólogo de: Daniel Mundo – 1ª ed. – Buenos Aires: PrometeoLibros, 2008.