Ficha do Proponente
Proponente
- Myllena Matos Souza de Jesus (UFPE)
Minicurrículo
- Graduada em Artes Visuais pela UFPE e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFPE na linha Estética e Culturas da Imagem e do Som, onde pesquisa as intersecções entre cinema e artes-visuais.
Ficha do Trabalho
Título
- Tempo fantasma: A encenação do corpo-paisagem como estratégia de espectralidade no cinema contemporâ
Mesa
- Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções I
Resumo
- O resumo analisa o cinema contemporâneo a partir do fantástico, onde a imagem articula memória e espectro. Filmes como Then Came Dark (2021) , Curupira e a Máquina do Destino (2021) e Atlas Tentacular (2025) trabalham na chave da paisagem como assembleia, o corpo-paisagem propõe visões pós-antropocêntricas. Por meio de recursos como desfoque e montagem, criam imagens “informes” que misturam matéria, corpo e ambiente, afirmando a alteridade como projeto estético.
Resumo expandido
- Pensar o cinema contemporâneo a partir da chave do fantástico, exige o reconhecimento de ramificações de espectros no mesmo. A imagem depende de um regime de crença enigmática, ela está posicionada entre um dispositivo de memória ao mesmo tempo que na produção de espectro. Sua dualidade, ou multiplicidade agenciadora, promove uma modalidade de crença que vai para além da percepção ou da alucinação. O espectador projeta-se na imagem projetada, e a imagem, com suas qualidades e estratégias técnicas, produzem no corpo do espectador um desconcertamento que conjuga a memória e o corpo.
Os Filmes aqui convocados: Then Came Dark (2021) da cineasta Libanesa Marie-Rose Osta, Curupira e a Máquina do Destino (2021) de Janaína Wagner e Atlas Tentacular (2025) de Dea Ferraz trabalham com a capacidade que o cinema tem de criar novas topografias da percepção, que são trabalhadas a partir de efeitos formais, como a durabilidade e espacialidade como elementos e personagens dentro das narrativas.
Em Then Came Dark (2021) a floresta toma o protagonismo e se pode observar o ponto de vista e as reações da mesma como um corpo no filme, os sinais da floresta são corporificados como sensações e sentimentos da mesma. O farfalhar de um galho, o som do vento ou a neblina que cobre com porosidade a vegetação, tudo é uma tentativa de desintegração da ordem do local em direção a um corpo-paisagem, suas reações são vetores da ordem da representação da alteridade.
No mesmo rastro, ainda que a partir de outras estratégias, o corpo como elemento e personagem é inscrito nos filmes das cineastas Janaína Wagner e Dea Ferraz. Respectivamente, a Curupira que em encontro com a personagem homônima do filme de Jorge Bodanzky e Orlando Senna (1975) se confunde com a mata, como um ser que a ela pertence e dela é formado, opera um trabalho de fragmentação, que é plástica, visto os expedientes técnicos do filme, mas também da ordem da própria história humano-natureza, além da própria noção de representação enquanto transparência. Confundindo ainda mais os pontos de vista partilhados, “Atlas Tentacular” uma videoinstalação em múltiplas telas, é pensada, assim como os filmes aqui apresentados, como uma ficção especulativa que fabula paisagens-personagens anti-antropocêntricos ou localizados no que se poderia chamar de pós-antropoceno. Não cedendo a imagem apocalíptica do fim como resposta às crises e questões emergenciais do contemporâneo, os filmes tentam traçar caminhos.
Paisagens e não exatamente locais onde se dão as narrativas, são vistas como assembléias (Tsing, 2019) onde se protagonizam a vida, exercitando modos de ver que tensionam os limites do olhar antropocêntrico, da perspectiva linear, chamando as forma de representar para uma queda livre (Steyerl, 2017), onde o chão suspenso seja a potencialidade que anima a própria noção de ficção aqui espalhada que engendra um projeto de utopia, onde o mundo imaginário não se opõe necessariamente ao mundo “real” em sua essência, mas está em reagência com o real acerca de como são compreendidos seus elementos sensíveis, como podem ser traduzidos (Alencar, 2024). As agências dessas personagens-espectros-paisagens são tecidas a partir da sua animação mórfica perante e com as paisagens que as guardam, admitindo alguma sobrevivência fantástica na materialidade daquilo que se constrói como “real”.
Sendo assim a agência desses personagens aqui cotejados podem ser compreendidos através do trabalho do informe ( Didi-Huberman, 2015) como método e estratégia de representação a partir da dessemelhança. Trabalhando a partir desse operador conceitual, sobreposições, desfoques, montagens e outros recursos são utilizados como desclassificador da imagem. Enfim, a montagem de semelhanças informes, aqui vistas também como espectros, entende que as coisas, criaturas e paisagens estão profundamente entranhadas e são iluminadas como imagens. Como um exercício prático de alteridade com as “coisas do mundo”.
Bibliografia
- BMM de Alencar, C de Siqueira Castanha. Imaginações geográficas e a descentralização da figura humana nas paisagens do cinema contemporâneo – Significação: Revista de Cultura Audiovisual, 2024
Didi-Huberman, George. A semelhança informe ou o gaio saber visual segundo Georges Bataille. São Paulo: Contraponto, 2015.
Steyerl. Hito. Em queda livre: um thought experiment sobre perspectiva vertical. e-flux journal, n. 24, abr. 2011
Haraway, D., Ishikawa, N., Gilbert, S. F., Olwig, K., Tsing, A. L., & Bubandt, N. (2016). Anthropologists are talking – About the Anthropocene. Ethnos, 81(3), 535–564. https://doi.org/10.1080/00141844.2015.1105838
Ingawanij, M. A. (2015). O animismo realista performativo de Apichatpong Weerasethakul. In C. Mello et al. (Orgs.), Realismo fantasmagórico. Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária – USP.
Lim, Bliss Cua. Translating Time: Cinema, the Fantastic, and Temporal Critique. Durham; London: Duke University Press, 2009.