Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Rosa de Paiva Cardoso (UFJF)

Minicurrículo

    Mestranda na linha de Cinema e Audiovisual no Programa de Pós-graduação em Artes, Cultura e Linguagens (PPGACL) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (2025). Bolsista CAPES. Graduada em Artes Visuais (Bacharelado e Licenciatura) pela Universidade Federal de Uberlândia (2021) e artista multimídia. Durante a graduação, foi bolsista do Pibid e da Residência Pedagógica no subprojeto de Artes. Atualmente integra a equipe editorial da Revista Nava como parte da comissão de comunicação.

Ficha do Trabalho

Título

    O horror corporificado: a fase gimmick (1958-1961) de William Castle

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Neste trabalho analiso a fase gimmick de William Castle (1958–1961), caracterizada pela incorporação de dispositivos que alteram a experiência cinematográfica. Dado que seus truques foram utilizados apenas no gênero do horror, investigo as afinidades deste gênero com as gimmicks, partindo da hipótese de que ele oferece condições privilegiadas para a mobilização corporal do espectador. Para tanto, uso a noção de gênero do corpo de Williams e Clover, além da fenomenologia do cinema de Hanich.

Resumo expandido

    William Castle (1914–1977) foi um prolífico diretor estadunidense de filmes B. Inicialmente ligado ao teatro, transitou para o cinema na década de 1940, dirigindo seu primeiro longa-metragem pela Columbia Pictures em 1943. Até 1958, realizou 39 obras percorrendo diferentes gêneros, como o noir, o western e a comédia. No entanto, Castle é sobretudo lembrado pelos filmes que dirigiu na sua chamada fase gimmick (1958–1961): seis obras de horror que incorporavam truques comercializáveis que alteravam a experiência cinematográfica. Em Força Diabólica (1959), por exemplo, um dispositivo vibratório era instalado em algumas cadeiras da sala de cinema e acionado quando o monstro do filme se arrastava sob os assentos. Já em A Máscara do Horror (1961), o espectador podia votar no desfecho da narrativa, decidindo se o vilão seria ou não punido.
    Considerando a extensão de sua filmografia, é notável que, antes da fase gimmick, ele nunca havia dirigido um filme de horror. Diante disso, neste artigo busco responder à seguinte questão: por que William Castle utilizou suas gimmicks exclusivamente no gênero do horror? De início, parto da hipótese de que existem certas características intrínsecas ao horror, nomeadamente sua relação estreita com o corpo do espectador, que o tornaram um terreno particularmente propício para a incorporação desses truques. Para tanto, analiso os truques presentes nos seis filmes de sua fase gimmick: Macabro (1958), A Casa dos Maus Espíritos (1959), Força Diabólica (1959), 13 Fantasmas (1960), Trama Diabólica (1961) e A Máscara do Horror (1961).
    Acredito que as gimmicks de Castle promoviam uma experiência espectatorial corporificada, isto é, ultrapassavam o âmbito puramente cognitivo e mobilizavam diretamente o corpo do público. Essa dinâmica pode ser vista tanto no gesto de esquivar-se do esqueleto de plástico que sobrevoava a plateia em A Casa dos Maus Espíritos (1959) quanto no uso do ILLUSION-O em 13 Fantasmas (1960), dispositivo em papel com um retângulo de celofane vermelho e outro azul, que o espectador erguia diante dos olhos em momentos específicos do filme, podendo optar por revelar os fantasmas na imagem (olhar pelo vermelho) ou ocultá-los (olhar pelo azul). Nos termos de Hanich, esses filmes não se limitam ao regime de atenção passiva, no qual a sala escura e silenciosa, organizada em fileiras, orienta a percepção estritamente visual para a tela. Ao contrário, vejo que a fase gimmick de Castle tensiona essa perspectiva hegemônica, propondo o cinema como uma experiência sensorial e corporalmente engajada.
    Do ponto de vista teórico, inspiro-me em duas matrizes principais: as reflexões de Carol Clover e Linda Williams sobre o horror como um gênero do corpo e os estudos de Julian Hanich acerca da fenomenologia da experiência cinematográfica. Para Clover (1987), o horror é um gênero voltado à produção de sensações físicas, cujo êxito se mede por sua capacidade de provocar reações como suor e calafrios. Williams (1991), por sua vez, amplia essa perspectiva ao propor a existência de três gêneros corporais: pornografia, melodrama e horror, caracterizados pelo excesso e cuja finalidade central reside na excitação do espectador. Já Hanich (2010) investiga a dimensão vivida da experiência cinematográfica de horror, enfatizando a sensação corporal do público na sala de exibição.
    Assim, em vez de compreender suas gimmicks como meras estratégias publicitárias ou artifícios extracinematográficos, argumento que elas operam em continuidade com as próprias lógicas do horror, intensificando sua vocação para afetar o espectador corporalmente. Nesse sentido, argumento que não é o horror que depende da gimmick, mas a gimmick que encontra no horror sua condição de possibilidade. Esse deslocamento interpretativo permite reinscrever os filmes de Castle em uma tradição estética mais ampla, na qual o corpo do espectador não é um efeito colateral da experiência cinematográfica, mas seu principal campo de atuação.

Bibliografia

    CARROLL, Noël. A filosofia do horror: ou paradoxos do coração. São Paulo: Papirus, 1999.
    CLOVER, Carol. Her Body, Himself: Gender in the Slasher Film. Representations, v. 20, p. 187-228. 1987. Disponível em: https://doi.org/10.2307/2928507. Acesso em: 24 abr. 2026.
    HANICH, Julian. Cinematic emotion in horror films and thrillers: the aesthetic paradox of pleasurable fear. New York: Routledge, 2010.
    HEFFERNAN, Kevin. Ghouls, Gimmicks and Gold: horror films and the American movie business (1953-1968). Durham: Duke University, 2004.
    LEEDER, Murray. Collective screams: William Castle and the Gimmick Film. The Journal of Popular Culture, v. 44, n. 4, p. 773-795. 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1540-5931.2011.00862.x. Acesso em: 16 mar. 2026.
    WILLIAMS, Linda. Film Bodies: Gender, Genre, and Excess. Film Quarterly, v. 44, n. 4, p. 2-13. 1991. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/1212758?origin=JSTOR-pdf. Acesso em: 24 abr. 2026.