Ficha do Proponente
Proponente
- JOSE CLAUDIO SIQUEIRA CASTANHEIRA (UFF)
Minicurrículo
- Professor do Departamento de Comunicação e do PPGCOM da Universidade Federal Fluminense e do PPGCOM da Universidade Federal do Ceará. Professor visitante na Faculdade de Informação da Universidade de Toronto. Líder do grupo de pesquisa GEIST (Grupo de Estudos de Imagens, Sonoridades e Tecnologias). Membro do Conselho Internacional e Embaixador para o Brasil da IAMCR. Participante do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberanias Informacionais (INCT-DSI).
Ficha do Trabalho
Título
- Arquivos imperfeitos: IA e a memória das imagens
Resumo
- Sistemas de IA ressignificam memórias ao recriar trailers com estéticas retrô. A mediação algorítmica reforça padrões existentes, limitando novas imagens. Singularidades estéticas dependem da multiplicidade de contextos e intérpretes. O uso de mecanismos generativos pode resultar em descontextualização e esquecimento. A partir das noções de tecnocolonialidade e tecnodiversidade, questiona-se quem pode impor modelos tecnológicos universais e seus impactos sobre produções imagéticas locais.
Resumo expandido
- A mediação algorítmica de imagens e seus efeitos sobre a memória audiovisual coletiva constituem o problema central deste trabalho. Nos últimos anos, uma tendência crescente de “personalização” de produtos culturais mainstream tem se consolidado em plataformas digitais: trata-se da produção, majoritariamente amadora, de trailers alternativos para filmes e franquias de grande sucesso — como Os Vingadores, O Exterminador do Futuro, Batman e O Quinto Elemento — recriados com estéticas de décadas passadas por meio de ferramentas de inteligência artificial. Nesses vídeos, referências visuais aos filmes de ficção científica e de outros gêneros cinematográficos dos anos 1950 são mobilizadas algoritmicamente para reconfigurar narrativas audiovisuais contemporâneas, produzindo objetos híbridos que desafiam categorias estabelecidas de autoria, memória e arquivo.
O objetivo deste trabalho é analisar os diferentes tipos de mediação utilizados por sistemas autônomos orientados por IA para recuperar, classificar e gerar imagens, tomando esses trailers como corpus privilegiado. A análise será conduzida sob perspectivas estética, tecnológica e discursiva, articulando as seguintes hipóteses:
A) A noção de repositório infinito de informação é desafiada pelos próprios mecanismos que exploram esse conjunto ampliado de imagens. Como evidenciam os trailers analisados, a geração algorítmica parte, inevitavelmente, da repetição de padrões visuais sedimentados — grãos de película, paletas cromáticas, tipografias de época —, o que limita o surgimento de leituras efetivamente novas das mesmas imagens.
B) A singularidade da imagem — qualidade cara a diversos campos do conhecimento, como as artes visuais (entre elas, o cinema) — representa um obstáculo estrutural à raspagem algorítmica. O que escapa à padronização estatística é precisamente o que define o valor estético e histórico de uma imagem.
C) Para além da dificuldade de operar com a singularidade, os mecanismos de IA promovem uma desresponsabilização progressiva: ao distribuir as decisões sobre as imagens entre designers, corporações e sistemas opacos, diluem a localização da responsabilidade ética, tornando difícil identificar quem responde pelas escolhas de representação realizadas (Coeckelbergh, 2023).
D) Qualquer exegese de arquivos de imagens é necessariamente imperfeita e segue as determinações da história particular de cada arconte (Derrida, 2001). O desejo de abarcar a totalidade das imagens automatizando seu processamento pode levar à descontextualização, à simplificação e ao esquecimento — riscos que os trailers retrofuturistas tornam visíveis ao recortar e remontar repertórios visuais fora de seus contextos de origem.
E) É preciso pensar criticamente sobre a adoção de tecnologias de informação exógenas e generalistas no que diz respeito ao destino que elas conferem às imagens, removendo-as de tempos e espaços específicos e reconstruindo narrativas de acordo com os interesses daqueles que as desenvolvem e impõem. Para tanto, mobilizaremos as noções de tecnocolonialidade (Castanheira, 2024) e tecnodiversidade (Hui, 2020) como operadores críticos.
Esses conceitos nos permitirão mapear os diferentes atores envolvidos no ecossistema digital contemporâneo e propor uma análise crítica sobre as assimetrias de poder que estruturam a relação entre produtores de tecnologia e produtores de imagens. As questões que orientam este trabalho são: De que forma os modelos tecnológicos redimensionam nossa memória imagética coletiva? Que tipo de relação é construída entre os diferentes atores na cadeia de produção de imagens? Quem detém o poder de propor modelos tecnológicos universais — e quais os impactos da adoção indiscriminada de tais modelos sobre modos locais de produção?
Bibliografia
- CASTANHEIRA, José Cláudio Siqueira. A ciência e o ethos informacional: tecnologias, colonialidade e soberania digital. In: ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, 33., 2024, Niterói. Anais […]. Campinas: Galoá, 2024. Disponível em: https://proceedings.science/compos/compos-2024/trabalhos/a-ciencia-e-o-ethos-informacional-tecnologias-colonialidade-e-soberania-digital?lang=pt-br. Acesso em: 27 fev. 2026.
COECKELBERGH, Mark. Ética na inteligência artificial. São Paulo; Rio de Janeiro: Ubu; PUC-Rio, 2023.
DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Tradução: Cláudia de Moraes Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
HUI, Yuk. Tecnodiversidade. Tradução: Humberto do Amaral. São Paulo: Ubu Editora, 2020.