Ficha do Proponente
Proponente
- Fernanda Bocchi Santos (Unespar)
Minicurrículo
- Graduada em Tecnologia em Design Gráfico pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Possui curso de extensão Apple Developer Academy para desenvolvimento de aplicativos com tecnologias Apple pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo da Universidade Estadual do Paraná. Membro do grupo de pesquisa CineCriare Cinema: criação e reflexão. Digitalizadora e editora de fotografia no Lab:Lab Analógico em Curitiba.
Coautor
- Gláucio Henrique Matsushita Moro (PPG-CINEAV/UNESPAR)
Ficha do Trabalho
Título
- INTERFACE E CÂMERA NO DOCUMENTÁRIO DE DESKTOP: UMA ANÁLISE DO PROCESSO EM TRANSFORMERS: THE PREMAKE
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- O trabalho investiga o documentário de desktop como linguagem audiovisual, tomando interações e interfaces como forma de aparato de criação. Mostra como um programa de captura de vídeo substitui a câmera, com sua imagem refletida sendo a tela com a interface do dispositivo. A partir da análise de materiais audiovisuais produzidos do filme ‘Transformers: The Premake’ (Kevin B. Lee), operações específicas deste meio são identificadas e destacadas por seu potencial artístico e expressivo.
Resumo expandido
- Documentários de desktop são filmes que se apresentam através da tela de um computador e possuem sua estética particular. Seus componentes de interface como programas, cursores, janelas, abas, ícones de carregamento, etc. existem como elementos-chave para a construção de uma narrativa audiovisual. Para tal realização, um programa de captura de vídeo executa a gravação dos elementos da tela do computador, tomando o lugar da câmera. O computador age como meio de criação e exibição audiovisual, simultaneamente.
O desktop aqui atua como espaço de trabalho que permite a organização e o rearranjo de partes para essa construção narrativa. Não uma tela em branco, mas um suporte para dar sentido a um volume grande de informações com naturezas, aspectos e formas diferentes. A interface reúne grupos de componentes: os próprios elementos iconográficos de interface, desenvolvidos e mostrados pelo programa nativo do computador, e os “adicionados” pelo próprio usuário ao utilizar o desktop subjetivamente. Ele produz seus próprios efeitos audiovisuais, intrínsecos a esta interface nativa ao computador, e estes são manipulados pelo usuário a fim de obter determinados resultados. Essa dinâmica deve ser considerada ao pensar a comunicação e a interação existente na vivência digital.
A partir dessa noção interativa, estrutura-se o conceito elaborado por Flusser (1985) onde o ser humano estabelece uma relação particular entre aparato e autoria com as máquinas programadas. O dispositivo e suas funções são geralmente, desconhecidos pelos usuários, e por essa razão, Flusser os nomeia de caixa preta. Os inputs (entradas) são aquilo que o dispositivo recebe: comandos, interações, intenções. Os outputs (saídas) são o que o dispositivo “cospe” de volta, os resultados produzidos pelas máquinas programadas. Tais procedimentos, as interações humano-computador, abrem espaço para o desenvolvimento de novas linguagens, pautadas em uma relação direta com a tela do computador e com a interface. Nesse deslocamento, a interface não atua apenas como suporte técnico, mas como aparato que reorganiza a produção e a leitura da imagem.
São através de processos de transcodificação, como afirma Manovich (2001), que novas mídias – como o computador – ganham corpo o suficiente para que sejam sua própria estrutura de linguagem. O autor ainda aponta que a maneira como o computador modela o mundo abre espaço para intervenções subjetivas.
Kevin B. Lee, cineasta e crítico, é tido como um dos precursores de documentários de desktop com “Transformers: The Premake” (2014). No curta, Lee aborda questões sobre a ocupação de cidades pela indústria hollywoodiana, cultura de fãs e utilização de sua força de trabalho gratuita e dinâmicas sociopolíticas em parcerias entre Estados Unidos e China para grandes bilheterias.
Somado a essa produção, há uma fala introdutória de 26 minutos do cineasta sobre documentários de desktop na Universidade de Sussex, em 2015, e um making of autorreflexivo de 2020. A partir da observação e análise desses documentos do processo, Salles (2017), articula pela observação de operações particulares a essas formas de criação. Percebemos a substituição da câmera pela captura de uma tela e sua interface como centro criativo; a utilização de múltiplas janelas, que fragmenta o plano e produz novas associações; e a construção de um ponto de vista organizado pela articulação de múltiplas perspectivas.
“Transformers: The Premake” evidencia a potencialidade do documentário de desktop como aparato de linguagem ao mobilizar a própria interface como operador da imagem. Suas inventividades formais não apenas exploram o meio, mas o utilizam criticamente para expor tensões do digital. Os documentos produzidos pelo cineasta ampliam a análise ao permitir compreender o processo como parte constitutiva da obra, indicando que essa forma audiovisual se estrutura menos como registro e mais como operação da interface sobre a imagem.
Bibliografia
- KISS, Miklós. Desktop documentary: From artefact to artist(ic) emotions. NECSUS, mai. 2021. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. de 2026.
FLUSSER, Vilém. Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. São Paulo: Hucitec, 1985.
MANOVICH, Lev. The language of new media. Cambridge: MIT Press, 2001.
LEE, Kevin B. TRANSFORMERS: THE PREMAKE (a desktop documentary). Vimeo, 2014. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. de 2026.
SALLES, Cecilia Almeida. Da crítica genética à crítica de processo: uma linha de pesquisa em expansão. Signum: Estudos da Linguagem, [S.l.], v. 20, n. 2, p. 41-52, 2017. ISSN 2237-4876. Disponível em: . Acesso em: 25 abr. de 2026.