Ficha do Proponente
Proponente
- Hadrian Ezekiel Rodrigues Bonfim (UFMT)
Minicurrículo
- Hadrian E. R. Bonfim é discente de graduação em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Mato Grosso. Sua pesquisa de Iniciação Científica, orientada pelo prof. Dr. Leonardo Gomes Esteves, investiga o Absurdo na obra da cineasta Carolina Markowicz.
Ficha do Trabalho
Título
- Sobre o absurdo em Carvão (2022), de Carolina Markowicz
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Originado em um contexto de transformações sociais e impactos bélicos, o Absurdo faz o ser humano confrontar a falta de sentido da sua existência. Iniciado na primeira metade do século XX, seus efeitos nas artes perduram até a contemporaneidade. Nesse contexto, este trabalho busca analisar a presença de elementos do Absurdo em Carvão (2022), de Carolina Markowicz, investigando como acontecimentos do período de desenvolvimento do longa-metragem impactaram a narrativa, o conduzindo ao Absurdo.
Resumo expandido
- Em uma entrevista à época do lançamento de seu segundo longa-metragem, Pedágio (2023), Carolina Markowicz afirmou gostar de fazer um “cinema do absurdo, mas que poderia ser real” (Moniz, 2023). O termo foi utilizado mais de uma vez nesta entrevista, em que, adiante, Markowicz questiona “quais são os nossos parâmetros para os absurdos?”. O uso da palavra “absurdo” se repete, também, em críticas sobre os seus longa-metragens, em referência às situações presentes nas narrativas o que, para a diretora, é uma forma de “mostrar para o mundo o nível de absurdo que vivemos aqui [no Brasil]” (Maruchel, 2023).
Buscando no dicionário, o absurdo, entre outros significados, abrange o que é sem lógica ou sentido. Enquanto movimento artístico, seus elementos aparecem em obras da primeira metade do século XX, sendo fortemente influenciado pelas turbulências sociopolíticas do período. Por exemplo, as duas guerras mundiais e a ascensão de ideologias autoritárias, como o fascismo na Itália e o nazismo na Alemanha. Suas características se refletem em obras no decorrer do século XX, com vestígios presentes em produções para além desse período. No cinema, essas particularidades aparecem com maior nitidez em adaptações de obras do teatro e da literatura, como classifica Tubali (2024), aparecendo de maneiras diferentes, também, em produções que não fazem uma ligação direta com a filosofia, mas que ainda assim refletem certos traços.
Em O mito de Sísifo, Albert Camus (2019 [1942]) apresenta reflexões acerca do que é e do que gera o absurdo enquanto sentimento e filosofia, a partir de uma discussão iniciada em O estrangeiro (2025 [1942]). O título, conforme explica Camus em um capítulo dedicado a isto, alude ao mito grego, em que Sísifo foi condenado a empurrar eternamente uma rocha montanha acima em um trabalho desesperançoso e inútil, porque sempre que está próximo do topo, a rocha rola de volta à base. O mito serve, então, de metáfora à condição humana. Para Esslin (2018), dramaturgo e pesquisador que estudou esse movimento no teatro, o absurdo é a incompreensão do homem diante do confronto entre seus ideais e a realidade do mundo.
Fundamentando-se nesta linha de reflexão, este trabalho pretende desenvolver uma análise de Carvão (2022), longa-metragem de Carolina Markowicz cuja produção foi marcada por transformações importantes no cenário nacional e global do século XXI. A narrativa foi concebida durante os anos da pandemia de COVID-19, influenciado pela polarização da política e pelo aumento e normalização da violência e desigualdades.
Na narrativa, a protagonista, Irene (Maeve Jinkings), comanda uma carvoaria no interior do Brasil. Sua família é formada por um marido desinteressado, seu pai idoso e um filho pequeno. Eles são afetados pela pobreza e pelo abandono estatal, evidente na situação crítica de saúde do pai de Irene. A proposta de abrigar um traficante argentino e, em troca, matar o próprio pai sem criar suspeitas interessa a personagem, afinal, tanto os problemas financeiros, quanto o sofrimento de seu pai, seriam resolvidos. Esta proposta, no entanto, a desconcerta em um sentido moral e religioso — e, buscando respostas na igreja, as dúvidas continuam em aberto. Irene, no entanto, aceita e é a partir disso que se desenrolam os acontecimentos do filme, centrados na relação entre a família de Irene, o traficante e os problemas gerados por ele, expondo as contradições morais e violências daquele contexto.
Portanto, a partir da análise do longa-metragem, o trabalho visa relacionar pontos da narrativa de Carvão com características do Absurdo, verificando se esses traços podem — ou não — classificar a obra enquanto parte de uma vertente brasileira e hodierna do movimento ou, ainda, com vestígios do Absurdo. E, por conseguinte, identificar quais situações das últimas décadas contribuíram para o surgimento desses indícios, investigando se estas aparições se configuram como sintomas da condição política e social do Brasil na contemporaneidade.
Bibliografia
- ABSURDO. In: Michaelis, Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa. Brasil: Melhoramentos, 2026.
Camus, Albert. O mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2019.
Carvão. Direção: Carolina Markowicz. Produção: Zita Carvalhosa et al. Brasil: Pandora Filmes. 2022. 107 min.
Esslin, Martin. O teatro do absurdo. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
Maruchel, Humberto. O ano de Carolina Markowicz. Bravo, 11 out. 2023. Disponível em: https://encurtador.com.br/LmIN.
Moniz, Renata. Conheça Carolina Markowicz, diretora que fez de Pedágio um hit dos festivais. Omelete, 27 nov. 2023. Disponível em: https://encurtador.com.br/SNOf.
Stabile, Arthur. Com 214 casos em 2022, violência política cresceu 335% no Brasil em três anos. G1, 13 jul. 2022.
Tavares, Gil Vicente. A herança do absurdo. 1 ed. Salvador: Editora da Universidade Federal da Bahia, 2015.
Tubali, Shai. Absurdist cinema, television, and adaptations around the world. In: The Routledge Companion to Absurdist Literature. Routledge, 2024. p. 484-494.