Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Gabriel Kitofi Tonelo (Pesq. Independente)

Minicurrículo

    Gabriel Kitofi Tonelo é professor na Academia Internacional de Cinema (AIC-SP), técnico e editor de som para cinema. Concluiu em 2023 pós-doutorado na ECA-USP. Foi pesquisador visitante da Universidade de Chicago (2020-21) e da Universidade Harvard (2015-16), com pesquisas fomentadas pela FAPESP. Seus escritos figuraram em periódicos como: Studies in Documentary Film, New Review of Film and Television Studies, Quarterly Review of Film and Video, Aniki e Doc-Online.

Ficha do Trabalho

Título

    Sutura e descontinuidade: o paradoxo sonoro na estética do plano-sequência contemporâneo

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    Investigaremos como, em obras contemporâneas, a unidade do plano-sequência é confrontada pela fragmentação da captação e edição sonora. A partir de “A Batalha da Rua Maria Antonia” (Vera Egito, 2023), discute-se a tensão entre a imagem una e o trabalho polifônico do som, onde a performance técnica e colagens de múltiplos microfones suturam a percepção do real. Pretende-se investigar como a fluidez da duração depende de um tecido conectivo sonoro que esconde sua própria descontinuidade.

Resumo expandido

    Historicamente, parte da teoria do cinema consagra o plano-sequência e a profundidade de campo como estratégias fundamentais para a manutenção da circunstância fenomenológica e do espaço-tempo contínuo (BAZIN, 2018). A recusa da decupagem via montagem flerta com a ontologia do realismo, preservando a mise-en-scène sem descontinuidades evidentes de atuação ou prosódia. No entanto, enquanto a imagem frui dessa perspectiva de manutenção do bloco de realidade, a construção sonora subjacente pode operar por uma via diametralmente oposta. A presente comunicação tem como objetivo investigar esse paradoxo: como obras contemporâneas, estruturadas a partir de longos planos-sequências, ocultam um fragmentado trabalho de captação e pós-produção sonora, essencial para a viabilidade dessa própria sensação de realidade.

    O argumento central é que o plano-sequência é delimitado pelo quadro, mas a dimensão sonora não obedece à mesma integridade espacial em sua feitura técnica. Para sustentar a ilusão da unidade, o trabalho de captação e edição de som promovem sutura ao homogeneizar inúmeras tomadas de som paralelas. A busca pela invisibilidade técnica do aparato sonoro visa garantir que os diálogos mantenham o fluxo narrativo ininterrupto; A exigência técnica da câmera em movimento pelo espaço frequentemente fere a possibilidade de uma captação unifocal naturalista. Se a imagem está delimitada ao quadro e à duração, o departamento de som recorre a captações polifônicas — frequentemente de mais de uma dezenas de microfones e tomadas sonoras simultâneas. E, ainda, quando a captação de som direto cede diante da complexidade espacial ou de ruídos espúrios inevitáveis, recorre-se a processos de ADR. Este último processo visa recuperar uma mise-en-scène vocal que não pôde ser registrada in loco, paradoxalmente reinserindo no filme a fragmentação temporal e performática (como trabalhado por OPOLSKI, 2021) que o plano-sequência visual tentou abolir.

    Para tensionar essas questões, o trabalho traz como estudo de caso o longa-metragem “A Batalha da Rua Maria Antonia” (Vera Egito, 2023), obra construída sob planos-sequências para narrar o confronto histórico entre estudantes em 1968. A análise demonstrará como essa escolha diretorial flexionou de maneira significativa o workflow do departamento de som em todas as suas etapas. No set de filmagem, as estratégias de captação exigiram o gerenciamento rigoroso de inúmeros canais simultâneos e um trabalho delicado de coordenação de radiofrequências. A “mise-en-scène técnica” revela como a fluidez sonora do plano sequência não é um dado, mas uma construção iniciada ainda no set.

    A comunicação investiga, ainda, as implicações estéticas dessa metodologia na pós-produção. O trabalho gera questionamentos sobre a fruição espectatorial criada a partir da estratégia polifônica de captação e edição de diálogos. Ao contrário da imagem, cujo ponto de vista permanece contínuo e localizável em sua trajetória pelo espaço, o ponto de escuta torna-se frequentemente amorfo. Ele se descola da perspectiva física e acústica da lente para assumir uma ubiquidade que atende à clareza dramática, subvertendo a pretensa manutenção da percepção do continuum espaço-temporal. O realismo do plano-sequência contemporâneo seria, em perspectiva sonora, uma construção psicoacústica que fabrica a coerência necessária para uma unidade espacial que, tecnicamente, jamais existiu.

    Metodologicamente, a pesquisa articula a análise imanente da obra com o levantamento de informações a partir de fontes primárias. Serão mobilizados relatos e dados oriundos de profissionais integrantes do filme, cruzando as perspectivas do departamento de direção com as dinâmicas do departamento de som (som direto, edição de som e mixagem). Espera-se, com esta comunicação, entender o som como o tecido conectivo invisível e estruturante que viabiliza a própria eficácia do plano-sequência no cinema contemporâneo.

Bibliografia

    BAZIN, André. A evolução da linguagem cinematográfica. In: ________. O que é o cinema? Tradução de Eloisa de Araújo Ribeiro. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

    CHION, Michel. A audiovisão: som e imagem no cinema. Tradução de Luiza Lyra e Marina Lyra. Lisboa: Texto & Grafia, 2011.

    GORBMAN, Claudia. Unheard Melodies: Narrative Film Music. London: BFI Publishing, 1987.

    OPOLSKI, Débora. Edição de diálogos no cinema: a fala cinematográfica como um elemento sonoro. Curitiba: Editora UFPR, 2021.

    OUDART, Jean-Pierre. Cinema and Suture. Screen, v. 18, n. 4, p. 35–47, dez. 1977.