Ficha do Proponente
Proponente
- Matheus Vianna Matos (UFBA)
Minicurrículo
- Doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas/PósCom/UFBA. Formado em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (2017) e Mestre pelo PósCom/UFBA. Atualmente é pesquisador do Centro de Pesquisa em Estudos Culturais e Transformações na Comunicação/TRACC e atua principalmente nos seguintes temas: estudos culturais, narrativas audiovisuais, cinema brasileiro, fluxos audiovisuais, territorialidades, cinema baiano, música.
Ficha do Trabalho
Título
- Sertão e Cangaço: memória, resistência e outros nordestes possíveis em Bacurau (2019)
Resumo
- A partir da proposição de Durval Albuquerque Jr. sobre o sertão como imagem-força, este trabalho busca analisar as articulações entre sertão e cangaço em Bacurau (2019), de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Dialogando com Rogerio Haesbaert e Lawrence Grossberg, investigamos como territorialidades e engajamentos afetivos em torno do Nordeste atravessam o filme, evidenciando conflitos de poder, violência e formas coletivas de resistência que configuram outras nordestinidades possíveis.
Resumo expandido
- Território que marca as distintas possibilidades de se compreender o Nordeste, o sertão engloba várias características geográficas, linguísticas, culturais e modos de vida, que acabam por povoar e ambientar obras artísticas que convocam distintas temporalidades. Já o cangaço passou a ser abordado pela imprensa em um mesmo processo que passou a diferenciar o Nordeste enquanto região no início do século XX. Muito presente na literatura de cordel, “os cangaceiros se tornaram personagens mitificados, ora bandidos, ora santos” (Varjão; Oliveira, 2023, pg. 5). Este trabalho busca investigar as instabilizações presentes na articulação sertão e cangaço em Bacurau (2019) para pensar formas de resistência e outras nordestinidades possíveis, abordando as territorialidades (Haesbaert, 2014) e engajamentos afetivos (Grossberg, 2010) que atravessam a obra.
A partir da compreensão do sertão como uma imagem-força (Albuquerque Jr, 2011), destacamos que nas mais distintas obras artísticas, sejam livros, pinturas, cordéis, poemas, filmes e telenovelas, esse espaço é constantemente colocado em contraposição com um ideário moderno dos grandes centros urbanos, em especial em torno da questão da seca. No filme dirigido por Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles é marcante que logo nas cenas iniciais somos apresentados a um caminhão-pipa e a uma disputa entre a comunidade e fazendeiros poderosos sobre a barragem de um rio que é essencial para a sobrevivência da cidade. A obra deixa ver outros aspectos da seca que não são marcados exclusivamente por um evento climático específico, mas sim conflitos econômicos que se relacionam com o controle da terra pelas elites locais.
Enquanto o filme se estabelece em um futuro próximo, indefinido, e propondo uma instabilização espaço-temporal, nos aproximamos aqui da ideia de catástrofe enquanto um acontecer e que não está limitada a acontecimentos-limite. Ao destacar a catástrofe enquanto um processo de disputa, buscamos chamar atenção “precisamente para os deslocamentos epistêmicos, temporais e agora de poder/resistência que estão, ao menos em potência, nos nossos tráfegos pelos mundos do nosso mundo compartilhado” (Gomes e Leal, 2020, pg. 45).
Uma ‘invasão’ estrangeira e as diversas formas de resistir são os elementos centrais para todo o desenvolvimento do enredo do filme. O plano de extermínio em Bacurau acaba por colocar em cena violências com a participação do Estado brasileiro, na figura do prefeito da cidade, e que remontam ao período de extermínio de negros e populações indígenas durante a colonização moderna. Nessa resistência comunitária, defendendo o território e seu modo de vida, é importante destacar o personagem Lunga enquanto elemento disruptivo. Em termos de reiterações e transformações nas configurações simbólicas do Nordeste, vemos uma aproximação do personagem com a figura do cangaceiro e um banditismo social.
A obra apresenta, portanto, uma articulação de territorialidades nordestinas e engajamentos afetivos em torno da violência como uma ferramenta de resistência, tanto territorial quanto simbólica. Além de destacar um sertão que escapa da visibilidade exclusiva da terra seca e rachada, Bacurau reforça a relação entre esses anti-heróis e a comunidade. Momento que marca essa aliança está na chegada de Lunga, sendo aplaudido por parte das pessoas, ainda que com certo respeito e estranhamento. Destacamos ainda outro momento em que a articulação cangaço e resistência violenta daqueles que tem poucas condições é apresentada. Durante o filme, o museu da cidade é citado ou tem sua fachada mostrada, sem entrar em detalhes dos elementos presentes ali. Já no confronto final entre a comunidade e os estrangeiros, temos uma cena em que Lunga e outros parceiros montam uma armadilha dentro do museu, já que lá estão presentes armas e outros apetrechos dos cangaceiros de um tempo passado. São com essas armas que Lunga e a cidade resiste, sendo o cangaço o principal elemento do Museu de Bacurau.
Bibliografia
- ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 4a. Ed. rev. São Paulo: Cortez, 2011.
GROSSBERG, Lawrence. Cultural Studies in the Future Tense, Durhan and London: Duke University Press, 2010.
HAESBAERT, Rogério. Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand, 2014.
GOMES, Itania; LEAL, Bruno. Catástrofe como figura de historicidade: um gesto conceitual, metodológico e político de instabilização do tempo. In: Jussara Maia; Rachel Bertol; Flávio Valle; Nuno Manna. (Org.). Catástrofes e crises do tempo: historicidades dos processos comunicacionais. 1ed.Belo Horizonte: Fafich/Selo PPGCOM/UFMG, 2020, v. 1, p. 31-52.
VARJÃO, Thiago de Brito; OLIVEIRA, Kate Constantino. Literatura e Cinema: O Cordel e o Cinema como inventores do mito do Cangaço. Revista de Estudos de Cultura, São Cristóvão, v. 9, n. 22, p. 165–176, 2023.