Ficha do Proponente
Proponente
- Daniela Martins Nigri (UFRJ)
Minicurrículo
- Doutoranda e mestra em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com estágio doutoral na New York University. Graduada em Ciências Sociais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, onde foi pesquisadora no grupo Inarra – Imagens, Narrativas e Práticas Culturais. Cursou Direção Cinematográfica na Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Trabalhou como editora do Porta Curtas e como jornalista e curadora do Canal Curta!. Integra o grupo Diaspotics da UFRJ.
Ficha do Trabalho
Título
- O deslocamento e a paisagem como palimpsesto em Ziyara
Resumo
- A paisagem como palimpsesto é uma das formas pelas quais Ziyara (2021) se inscreve. No filme, o deslocamento da câmera e a estética relacional reescrevem espaços judaico-muçulmanos e desafiam a lógica da partição do século XX. Ao filmar rituais, guardiões e figuras anticoloniais, a diretora subverte a estética do vazio e recusa isolar espacialidades e temporalidades. O filme tensiona o que seria desaparecimento e afirma o rastro enquanto gesto político de presença.
Resumo expandido
- Mobilizado pela experiência do deslocamento, o cinema pode atuar na mediação entre os sujeitos e os espaços cuja dinâmica de ocupação se transformou. Tomo como mote para essa discussão o filme Ziyara (2021), de Simone Bitton, cuja câmera se estrutura pela viagem da própria diretora pelas estradas do Marrocos. O título, termo árabe que significa visita, remete à peregrinação a lugares sagrados. A partir dessa premissa, uma estética relacional se constrói ao encontrar antigos cemitérios e os bairros chamados mellah. Como parte de uma peregrinação cinematográfica, a diretora conversa com os atuais cuidadores desses espaços, como ocorre com os guardiães muçulmanos dos cemitérios judaicos. Ao longo do percurso, escutamos a voz de Bitton e suas interações com quem encontra no caminho.
A visita aos lugares sagrados ocorre onde a tradição é compartilhada entre muçulmanos e judeus-árabes – judeus de espaços árabes e muçulmanos. Estes, após a partição da Palestina e a modernidade colonial, viveram deslocamentos e a radicalização do processo de desarabização, o que fez com que suas memórias se tornassem “tabus”, como elabora Shohat (2006). É diante desse contexto pós-partição, de fragmentação e de espaços supostamente vazios, que a diretora viaja e se relaciona com seus rastros. Trata-se de um processo que remonta a tempos em que, na falta de recursos médicos modernos, judeus e muçulmanos frequentavam esses lugares em busca de cura. Embora pessoas ainda viajem de Marrakech, do Canadá ou da França para esses destinos, muitos dos espaços não são mais habitados. Enquanto a câmera se desloca, há momentos na montagem em que ocorre a mobilização da fotografia como um contra-arquivo, que nos leva a perguntar sobre o seu significado ao atentar aos sons e silêncios das imagens. Isso provoca um exercício próximo ao processo de Campt (2017) de “escutar as imagens”.
Diante desse contexto de fragmentação, as discussões de Lefebvre (2006) sobre a paisagem cinematográfica tornam-se pertinentes. Soma-se a elas a noção de uma experiência transnacional, marcada pelas línguas árabe e francesa e pelo retorno da diretora ao seu país de nascimento – uma viagem impossível de ser limitada pelas fronteiras do Estado-nação. Há ressonância disso em trajetórias diaspóricas que também foram afetadas pela partição. Assim, o filme inscreve alegorias de um terceiro espaço que desafia a narrativa teleológica sionista e, como discute Hochberg (2007), os limites da lógica da separabilidade, na qual “arabidade” e “judaicidade” não são mutuamente excludentes. É assim que a estética de uma reterritorialização não opera como um movimento de retorno a raízes, mas como um gesto de recusa ao desaparecimento.
As ressonâncias afetivas não se encerram nos túmulos sagrados antigos, como o de Amram ben Dayyan, visitado desde o século XVIII na cidade de Ouezzane e ainda frequentado por judeus e muçulmanos como um local de curas milagrosas. O filme propõe a reelaboração de outros espaços do “comum” ao incluir na viagem as visitas aos túmulos de figuras políticas, como Abraham Serfaty – prisioneiro político, membro do Partido Comunista e ativista pela questão palestina – e o escritor Edmond Amran El Maleh. Este último, ex-líder comunista e ativista pela independência do Marrocos, é também revisitado em outro filme da diretora, The Thousand and One Days of Hajj Edmond (2024). É nesse encadeamento de imagens que temporalidades e espacialidades não podem mais ser isoladas em Ziyara. Vemos, enfim, cenas como a quebra de cadeados de portas fechadas há gerações, e a ruína passa a ser compreendida como um palimpsesto de fragmentos a serem lidos e novamente relacionados.
Bibliografia
- CAMPT, Tina. Listening to images. Durham: Duke University Press, 2017.
GUABLI, Brahim El; HUSSEIN, Mostafa (orgs.). Refiguring Loss: Jews in Maghrebi and Middle Eastern Cultural Production. University Park: Pennsylvania State University Press, 2024.
HOCHBERG, Gil Z. In Spite of Partition: Jews, Arabs, and the Limits of Separatist Imagination. Princeton: Princeton University Press, 2007.
LEFEBVRE, Martin (org.). Landscape and Film. London: Routledge, 2006.
PRYSTHON, Angela Freire. Recortes do mundo: espaço e paisagem no cinema. 1. ed. Campinas: Pontes Editores, 2023.
SAID, Edward. Reflexões sobre o exílio e outros ensaios. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SHAFIK, Viola. Arab Cinema: History and Cultural Identity. Cairo: The American University in Cairo Press; Oxford: Oxford University Press, 1998.
SHOHAT, Ella. Taboo Memories, Diasporic Voices. Durham: Duke University Press, 2006.