Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Raphael Mendes de Souza (UFPA)

Minicurrículo

    Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Pará e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará. Foi bolsista PIBIC do projeto de pesquisa Laboratório de Análise Neoformalista do Cinema e do Audiovisual – LabNeoCine, coordenado pelo prof. Dr. Alex Damasceno, do qual ainda é integrante. Atuou nos curtas-metragens O Fim da Festa, Inferno de R.H. e Sem Nome, Sem Endereço e no longa-metragem Noite Azul na chefia do departamento de produção.

Ficha do Trabalho

Título

    Os Princípios do Blockbuster Contemporâneo na Fase Pré-Blockbuster de Christopher Nolan

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    O estudo investiga como Christopher Nolan redefine o espetáculo cinematográfico ao misturar narrativas do blockbuster com os elementos do cinema de autor. A partir da abordagem da Poética Histórica, defendo que o diretor já desenvolvia, em sua fase pré-blockbuster, bases técnicas e marcas autorais que construíram o espetáculo do blockbuster contemporâneo. Para isso, analiso os filmes Seguinte, Amnésia e Insônia, identificando princípios que fundamentam a atuação do diretor em Hollywood.

Resumo expandido

    Esta pesquisa propõe uma segmentação original da filmografia de Christopher Nolan em quatro agrupamentos dos seus filmes: Seguinte, Amnésia e Insônia (com o dispositivo narrativo como o motor principal da obra); a trilogia O Cavaleiro das Trevas (onde Nolan adapta sua autoralidade a um gênero pré-estabelecido); O Grande Truque, A Origem, Interestelar e Tenet (que é a fusão do blockbuster e do “quebra-cabeça”); e Dunkirk e Oppenheimer (com um estilo consolidado que se impõe a qualquer material). Além de destrinchar essas fases, pretende-se estabelecer uma cadeia na qual a análise de cada uma permite o melhor entendimento sobre as outras.

    A partir da Poética Histórica de Bordwell (2007) e da investigação de como há uma engenharia deliberada e intencional na construção narrativa de uma obra, surge o interesse em investigar Nolan e a sua importância para o cinema contemporâneo. Observa-se que traços do seu modelo de cinema atual já estavam latentes em suas primeiras incursões como diretor, marcadas por serem mais moldadas sob a forma do cinema independente. Assim, surge a indagação sobre a autoria de Nolan já ter princípios de que se adaptaria à lógica industrial antes mesmo disso ser posto à prova. Por isso, neste trabalho, analiso os 3 filmes que têm essa característica: Seguinte (1998), Insônia (2000) e Amnésia (2002).

    No filme Seguinte, identifico um princípio essencial de Nolan para o seu modelo de blockbuster: a preferência pelos efeitos práticos. Mesmo que pudesse evitar imprevistos usando cenários em estúdios, Nolan prefere filmar em locações que façam o que está diante da lente soar palpável e real. Esse desejo pela aproximação do tangível, manifesto no gosto por cenas externas e luz natural, pode ser lido como uma rejeição ao artificial, sempre que possível. A técnica aplicada por Nolan em Seguinte é o nascimento de um método que vai posicionar todo e qualquer efeito prático como parte do espetáculo do cineasta, do qual ele não abrirá mão dali em diante.

    Em Amnésia, noto que há uma articulação entre a história lógica (fábula) e sua apresentação fragmentada (syuzhet). Sob as definições de Warren Buckland (2009), observa-se que o diretor usa o filme para jogar com a percepção do espectador em relação à narrativa. Essa estrutura converge para o conceito de “mind-game film” de Thomas Elsaesser (2009): em Amnésia, o desafio à inteligência do público é convertido em curiosidade pelo teor da trama e pelo seu desvendar. Aqui, já podemos ler a complexidade estrutural da trama como um princípio de um blockbuster tradicional, quando se trata de fascinar o espectador.

    Em Insônia, percebo o tensionamento das manipulações temporais de ordem e frequência com a lógica de um grande estúdio hollywoodiano. A paisagem se torna personagem da trama, colaborando na manipulação de sentidos que é proposta como essencial para o arco do protagonista Will Dormer. Esse princípio antecipa a utilização da ambientação como fenômeno ativo em produções vindouras da carreira de Nolan, como Interestelar e Dunkirk. Em Insônia, o modo de narração do Nolan está em sintonia com o modo de produção hollywoodiano (Bordwell, 1996), o que é algo que, mesmo que ainda estivesse bem experimental, aqui, viria a ser refinado ao longo do tempo.

    Conclui-se que, na fase pré-blockbuster de Nolan, podemos destacar princípios que o ajudariam a reconfigurar o blockbuster à sua maneira nas fases seguintes da sua carreira. A forma como puzzle film e blockbuster se encontram discretamente nestes primeiros filmes não se encerra em si, mas funciona como a base para que a pesquisa sobre os longas-metragens vindouros da filmografia do cineasta avance. Dessa maneira, decifrar os princípios construídos em sua fase de cinema influenciada por conceitos mais independentes nos permite entender o colosso cultural no qual Christopher Nolan se tornou, posteriormente.

Bibliografia

    AMNÉSIA. Direção: Christopher Nolan. Produção: Suzanne Todd e Jennifer Todd. Estados Unidos: Newmarket Capital Group; Summit Entertainment, 2000. 1 DVD (113 min).
    BORDWELL, David. La narración en el cine de ficción. Barcelona: Paidós, 1996.
    BORDWELL, David. Poetics of Cinema. Nova York: Routledge, 2007.
    BUCKLAND, Warren (Ed.). Puzzle Films: Complex Storytelling in Contemporary Cinema. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
    ELSAESSER, Thomas. The Mind-Game Film. In: BUCKLAND, Warren (Ed.). Puzzle Films. Oxford: Wiley-Blackwell, 2009.
    INSÔNIA. Direção: Christopher Nolan. Produção: Paul Junger Witt e Edward L. McDonnell. Estados Unidos: Warner Bros.; Alcon Entertainment, 2002. 1 DVD (118 min).
    SEGUINTE. Direção: Christopher Nolan. Produção: Christopher Nolan, Jeremy Theobald e Emma Thomas. Reino Unido: Syncopy; Next Click, 1998. 1 DVD (69 min).