Ficha do Proponente
Proponente
- Alice Andrade Drummond (PPGMPA/USP)
Minicurrículo
- Alice Andrade Drummond é pesquisadora, realizadora e diretora de fotografia. Doutoranda em Meios e processos audiovisuais pela ECA/USP com bolsa CAPES, pesquisa as imaginações das trabalhadoras figuradas pelo cinema brasileiro. No mestrado pesquisou sobre as representações audiovisuais de catástrofes contemporâneas. É também sócia da produtora audiovisual A flor e a náusea e membra do DAFB (Coletivo de mulheres e dissidentes de gênero do departamento de fotografia do audiovisual brasileiro).
Ficha do Trabalho
Título
- Recomposição fabular: uma prática comparativa intrafílmica para a imagem da catástrofe
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- A partir da noção de “recomposição fabular” como método comparativo imagético intrafílmico, proponho expor experimentos práticos e analíticos sobre imagens das catástrofes de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Em diálogo com Aqui e alhures (Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 1976), Em busca da vida (Jia Zhang-ke, 2006) e Branco sai, preto fica (Adirley Queirós, 2015), discuto este método que resulta na construção de um filme que expressa a investigação imagética em ato sua fatura.
Resumo expandido
- Esta exposição apresenta experimentos que aproximam práxis e teoria no campo dos estudos comparados do cinema, propondo um método prático de análise que transpõe a relação entre filmes para uma relação intrafílmica. O procedimento é aplicado a materiais audiovisuais sobre a mineração e as catástrofes dos rompimentos das barragens de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), em Minas Gerais.
Quando tudo parece já ter sido filmado e visto por múltiplos ângulos e telas, a exposição busca discutir o que ainda resta ao cinema frente à catástrofe. Nesse contexto, torna-se profícuo experimentar uma recomposição de imagens, uma vez que a “representação visual na pesquisa exige do pesquisador uma certa capacidade de tradução imagética de suas ideias” (SOUTO, 2020, p. 161). A recomposição proposta envolve marcar, revelar, remontar, fundir e fabular sobre diferentes imagens, relacionando arquivos audiovisuais da mineração, registros midiáticos dos rompimentos, produções realizadas pelos próprios atingidos e imagens de minha autoria, em busca da “imagem que salta, carregada de tensões, com potencial explosivo” (SOUTO, 2020, p. 156).
Como ponto de partida, estabeleço uma relação entre Aqui e alhures (Jean-Luc Godard e Anne-Marie Miéville, 1976), Em busca da vida (Jia Zhang-ke, 2006) e Branco sai, preto fica (Adirley Queirós, 2015). Apesar de distintos em contexto e temporalidade, esses filmes convergem na elaboração de distintos dispositivos fílmicos que interrogam imagens de dor e memória, produzindo novas imagens possíveis e discutindo, no próprio corpo do filme, formas de mediação. Interessa compreender como essas obras evidenciam o pensamento em ato na fatura fílmica ao incorporarem imagens pré-existentes e articulá-las às produzidas pelos cineastas, tensionando passado, presente e futuro.
A partir dessas aproximações, proponho o conceito de “recomposição fabular”. Como desdobramento de minha pesquisa de mestrado e do processo de realização de um filme, apresento um gesto de intervenção direta que perscruta, marca, justapõe, mescla e interroga as imagens, buscando ressignificá-las. Ao evidenciar padrões, recorrências e rupturas, busca-se não apenas compreender a historicidade dos eventos, mas também produzir novas possibilidades de leitura e imaginação.
Tomo como inspiração o gesto do pesquisador que utiliza seu marca-texto para destacar pontos chaves em uma leitura e dali surge uma colagem de pensamentos. Ou ainda, como um fotógrafo em seu laboratório analógico que por meio das “tiras teste” experimenta com os processos químicos e o tempo para dar ver uma imagem em revelação. No meu trabalho, destaco com cores e tons que remetem aos próprios elementos constitutivos destas catástrofes — o ferro, a lama e o sangue, bem como ao brilho do mineral associado à extração. Aqui, a “revelação” se dá como gesto crítico: ao marcar determinadas zonas da imagem, sobrepô-las e testá-las, busca-se fazer emergir relações para lidar com a opacidade da catástrofe (RAMOS MONTEIRO, 2014; 2015) mesmo diante de uma visualidade aparentemente transparente.
Se diante da transparência imagética, “nosso fracasso é de imaginação, de empatia: não conseguimos reter na mente essa realidade” (SONTAG, 2003, p. 13), atenho-me ao pensamento de Serge Daney, que pensa o cinema como “o lugar vazio, a tela preta na qual imagens, sons, viriam coexistir, se neutralizar, se reconhecer, se designar, em suma: lutar”. Frente às imagens de dor, a verdadeira questão seria: “o que poderíamos opor a isso?” (DANEY, 2005, s/p).
Na intenção de pensar e criar filmes que não se prendam apenas ao temor apocalíptico (KRENAK, 2019), a premissa é investigar os materiais, imprimindo neles este método de articulação como análise crítica. Contribuindo para a reflexão metodológica no campo dos estudos comparados de cinema, o ensejo é o de iluminar o pensamento pelas imagens do passado em busca das imagens que nos faltam e de horizontes futuros que já não podemos ignorar e que ainda nos cause desejo
Bibliografia
- DANEY, Serge. O terrorizado: pedagogia godardiana. In: Contracampo: revista de cinema, n. 75-76, s/p., 2005. Disponível em: http://www.contracampo.com.br/75/terrorizado.htm. Acesso em: 23 abr/2026.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
RAMOS MONTEIRO, Lúcia. L’imminence de la catastrophe au cinéma: films de barrage et films sismiques. Tese (Doutorado). Paris: Université Sorbonne Nouvelle Paris 3; Universidade de São Paulo, 2014.
RAMOS MONTEIRO, Lúcia. “Remaking a European, Post-catastrophic Atmosphere in 2000s China: Jia Zhangke’s Still Life, Iconology and Ruins”. In: CinémaS, v. 25, n. 2-3, 2015, p. 97-117.
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia, n. 45, 2020.