Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Feliphe Almeida Pedreira Alencar (UFBA)

Minicurrículo

    Mestrando em Culturas da Imagem e do Som pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas (UFBA). Possui graduação em Direito pelo Centro Universitário Jorge Amado (2019). Foi pesquisador de iniciação científica no Projeto ‘Memória e história em documentários de migração’, sob orientação de José Francisco Serafim (2024-2025). Atualmente é membro do grupo de pesquisa Laboratório de Análise Fílmica (LAF/UFBA).

Ficha do Trabalho

Título

    A necessidade da evidência histórica através do falso arquivo em “Oh, Canadá” (2024)

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O discurso dialético sobre imagens de arquivo enfrenta desafios constantes para abarcar um campo teórico em constante evolução. Em “Oh, Canada” (2024), Paul Schrader usa falsas imagens de arquivo para criar evidências que nos ajudam a compreender sua importância histórica, estética e política. Busca-se entender como ao alcançar a dimensão da memória através do meio cinematográfico, a falsa imagem de arquivo pode oferecer uma maior aproximação do espírito da história a ser documentada.

Resumo expandido

    No drama dirigido por Paul Schrader, “Oh, Canadá” (2024), o personagem Leonard Fife, um proeminente documentarista que sofre de um câncer terminal, decide conceder uma última entrevista na qual pretende revelar sua vida secreta na pretensão de destruir o mito atribuído a ele e sua carreira. Fife, que no filme tem sua carreira descrita como um emblema do Cinema Político, serve como um tropo, constituído de uma amálgama de vários realizadores do Cinema documental e experimental independente norte-americano das décadas de 1960, 70 e 80. Visualmente, Schrader cria a identidade fílmica de seu personagem, em muito, baseada em trabalhos de realizadores como Stan Brakhage, Frederick Wiseman, James Benning, Barbara Kopple, entre outros. Schrader faz o interessante uso de falsas imagens de arquivo, ao criar os filmes que Fife havia feito. Mais do que um mero artifício narrativo, o que se pretende propor nesta pesquisa é reconhecer tal uso como uma experimentação da fantasmagoria do arquivo e suas implicações em sua ficcionalização. Em sua leitura sobre Walter Benjamin, a teórica Catherine Russell afirma que a fantasmagoria depende precisamente da capacidade ilusória das tecnologias midiáticas para efeitos miméticos que podem e devem ser então invertidos em ruínas da imaginação utópica, que é sempre historicamente circunscrita por seus próprios meios (RUSSEL, 2017, p. 117).
    Todos os falsos arquivos no filme, através dessa fantasmagoria, documentam crimes. Na maioria das vezes nenhum texto, dito ou escrito, explica essas imagens, porém, por retratar eventos de significância ímpar, podem ser reconhecidos. A necessidade da existência de uma evidência para esses acontecimentos pode ser remediada através desse dispositivo. O primeiro arquivo falso mostrado é intitulado In the Mist (1970), um documentário sobre a Dow Chemical testando Agente Laranja em New Brunswick, para uso na Guerra do Vietnã. O acontecimento, que é real, ganha uma prova de sua existência no filme de Fife. Em sequência, numa montagem rápida, Schrader nos mostra outros filmes de Fife: The Shame of Canada (1978), fotodocumentário sobre internatos onde morreram mais de 6 mil crianças indígenas no Canadá; Slaughter on the ice (1985), documentando a caça comercial predatória e crime ecológico na matança de focas. Em um momento posterior do filme, é apresentado o documentário Suffer the innocents, que consiste em filmagens do julgamento que absolve o fictício Bispo McCann, acusado de abuso sexual contra crianças. Esse trecho apresenta algo ausente nos falsos arquivos mostrados anteriormente. Aqui, Schrader aproveita as possibilidades do falso arquivo para executar uma ressignificação. No voice over de um personagem, aponta-se uma escolha na mise en scène de Fife: a câmera, inicialmente no juiz, move-se para uma das vítimas presentes que confronta seu abusador. Em seguida, um close é fechado no Bispo e assim permanece até o fim do filme. É justamente nessa construção dialética que reside o papel do falso arquivo aqui proposto, documentar da forma mais precisa (e necessária), através da fantasmagoria desses eventos, corrigir e suprir o registro que os arquivos reais por vezes podem não dar conta, nesse caso, mantendo o julgado nesta posição, atribuindo e permanecendo com sua culpa pelo seu crime.
    Essa investigação busca reconhecer a experimentação com o imaginário cinematográfico proposta por Schrader, através do uso e da exploração dos falsos arquivos a fim de criar as evidências necessárias para a consciência histórica, manifestando-se como o confronto ante ao esquecimento através do meio visual. Como é posto pela teórica Nicole Brenez (2020), ainda não há palavras suficientes para descrever os fenômenos do Cinema, e nomes devem ser inventados para seus diferentes estados plásticos, estatutos figurativos, modalidades de presença. Tais considerações incitam a pensar que, no que concerne ao Cinema, tudo ainda está por ser elaborado.

Bibliografia

    BARON , J. O Efeito Arquivo: Imagens de Arquivo como uma Experiência de Recepção.
    Lumina, v. 14, n. 2, p. 134–157, 2020. DOI: 10.34019/1981-4070.2020.v14.31518.
    Disponível em: .

    BARON, J; CHODOROV, P. Cartografia do Found Footage. Laika, v. 3 n. 5 : Dossiê Found
    Footage I, 2014. DOI: 10.11606/issn.2316-4077.v3i5p1-11. Disponível em:

    BRENEZ, Nicole. O estado do Cinema 2021. Incinerrante. Tradução:
    Marcelo R. S. Ribeiro. Disponível em:

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens apesar de tudo. Tradução de Vanessa Brito e João
    Pedro Cachopo. São Paulo: Editora 34, 2020.

    RUSSELL, Catherine. Archiveology: Walter Benjamin and Archival Film Practices. Durham: Duke University Press, 2018.