Ficha do Proponente
Proponente
- Julia Barbara (UFMT)
Minicurrículo
- Graduada em Cinema e Audiovisual (UFMT). Participou do Programa de Iniciação Científica sob orientação do Professor Doutor Leonardo Gomes Esteves, com as pesquisas ”O erotismo e a figura feminina no cinema de Neville D’Almeida” (ciclo 2022 – 2023); ”O erótico e o feminino em Nelson Rodrigues adaptado para o cinema por Neville D’Almeida” (ciclo 2023 – 2024); e ”O encontro entre o trágico e o cômico em Nelson Rodrigues para o cinema” (ciclo 2024 – 2025).
Ficha do Trabalho
Título
- TODA ADAPTAÇÃO SERÁ CENSURADA: A CENSURA E O CASAMENTO (1976), DE ARNALDO JABOR
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Aficionado por Nelson Rodrigues, Arnaldo Jabor viria a adaptar dois de seus originais durante a década de 1970, intercalando a tragédia rodrigueana a uma irreverência e volúpia próprias às pornochancadas. Segunda associação entre dramaturgo e cineasta, O casamento (1976) seria analisado pelo órgão responsável pela censura, a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Neste trabalho, buscaremos meditar sobre a recepção de censores quanto à adaptação de O casamento.
Resumo expandido
- Com Paulo Porto no papel de Sabino, a adaptação de O casamento marcou o segundo trabalho entre Arnaldo Jabor e Nelson Rodrigues. Extasiado com a recepção e sucesso de Toda nudez será castigada, o cineasta retornou ao universo rodrigueano em uma abordagem ainda mais radical, em um mergulho ao grotesco e abjeto (NÚÑEZ, 2007) às voltas do colapso patriarcal e matrimonial. Realizado em condições adversas a seu antecessor – O casamento não dispôs de tanto investimento de produção -, o longa-metragem seria situado pelo próprio cineasta como uma obra operística e exagerada a fim de desagradar o público (JABOR, 2012). Esta reflexão busca prospectar sobre a recepção da adaptação fílmica de Arnaldo Jabor pelos censores — às voltas com o teor erótico presente no filme, elemento circunstancial no que dizia respeito à interdição de obras audiovisuais lançadas em meio à ditadura militar no Brasil. Parte-se da hipótese de que aqueles que advogaram a favor do filme o situavam enquanto típico drama rodrigueano, popular por permear uma “psicologia abismal que vem a ser essa tentação para o mal, para o pecado, para as aberrações morais, que existe no interior de todas as criaturas” (LINS, 1993, p. 191 apud FACINA, 2004, p. 46). Já aqueles contrários à distribuição da obra a compreendiam enquanto um ataque direto à instituição matrimonial e à moral vigente, veículo de controle social (ABREU, 2012).
Os pareceres favoráveis defendiam a divulgação do longa-metragem, mediante cortes. O primeiro, assinado por Maria Arlete L. Gama, datado de 17 de outubro de 1975, pontua a obra como veículo das mazelas da vida – foco narrativo central. Segundo ela, a adaptação de Arnaldo Jabor é uma “tragédia total sem qualquer aspecto educativo”, porém, da qual o público adulto poderia usufruir, sem maiores influências (GAMA, 1975).
Outro exemplo de parecer benéfico referente a O casamento teria sido o de Carlos Rodrigues, no dia 15 de outubro de 1975. Sem maiores comentários, Rodrigues ateve-se à classificação do longa enquanto drama suburbano, onde tragédias naturais se agregam a flagelos individuais.
Já o terceiro parecer, de 16 de outubro de 1975, fora assinado por Paulo Leite de Lacerda. Distinto dos anteriores, o parecer de Lacerda descreveria a adaptação como uma “tentativa válida, que procura fugir ao convencional do filme brasileiro, trilhando o caminho dramático” (LACERDA, 1975). Para ele, o longa-metragem iria fundo no realismo psicológico e nas paixões mórbidas tão recorrentes no universo rodrigueano.
Os pareceres, em suma, não apresentavam grandes discrepâncias. Todos reiteram a torpeza interior, presente em cada indivíduo, tão natural ao universo do dramaturgo e às suas consequentes adaptações.
Em contrapartida, houve aqueles que advogaram contra a liberação do longa-metragem, como Maria Aurineide Pinheiro e L. Antonio S. Pedroso. A primeira, em sua argumentação, afirmou que a obra induziria o espectador a crer no matrimônio enquanto farsa, tratando o enlace de maneira amoral (PINHEIRO, 1975). Já Pedroso, por sua vez, situou o longa-metragem como responsável por reduzir a instituição do casamento meio a sordidez e incessantes degenerações. Com aspectos chocantes e amorais, não haveria razão para a liberação do mesmo (PEDROSO, 1957). De modo similar ao que fora pontuado ainda no lançamento do romance, em 1966, para os censores, o trabalho de Jabor era, senão, um atentado à instituição matrimonial, ao núcleo familiar e ao sistema de vida cristão e democrático.
Mesmo entre pareceres destoantes entre os censores, o filme é liberado, com a urgência de que cortassem cenas íntimas entre personagens, assim como cenas que houvessem nudez, vistas como prejudicais à índole e à sociedade. Feitas as seguintes alterações, o filme teria passado para circulação, em sessões noturnas.
Bibliografia
- ABREU, Nuno Cesar. O olhar pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo, 2. ed. São Paulo: Alameda, 2012.
Arnaldo Jabor – O Casamento. Youtube, 21 de junho de 2012. Disponível em: . Acesso em 24 abril. 2026, às 14h40.
BRASIL. Ministério da Justiça. Departamento de Polícia Federal. Parecer nº 8.759/1975. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 1975.
______. Parecer nº 8.160/1975. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 1975.
______. Parecer nº 8.161/1975. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 1975.
______. Parecer nº 9.982/1975. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 1975.
______. Parecer nº 9.983/1975. Brasília, DF: Ministério da Justiça, 1975.
FACINA, Adriana. Santos e canalhas: uma análise antropológica da obra de Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.
NÚÑEZ, Fabían. In: ADES, Eduardo; KAUFMAN, Mariana (orgs.). Arnaldo Jabor: 40 anos de opinião pública. Centro Cultural Banco do Bras