Ficha do Proponente
Proponente
- Marcio Blanco (UFMS)
Minicurrículo
- Professor do Curso de Audiovisual e membro permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Curador e Diretor do Festival Visões Periféricas. Autor do livro “Imagens da Pedagogia. Uma genealogia das relações entre cinema e educação no Brasil”. Diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Fórum dos Festivais, associação que reúne e representa Festivais de Cinema e Audiovisual no Brasil e no exterior.
Ficha do Trabalho
Título
- A construção da identidade na curadoria e programação de filmes do Festival Visões Periféricas
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- A análise do Festival Visões Periféricas mostra como sua curadoria e programação de curtas constrói e problematiza o conceito de periferia. Ao mesmo tempo que a seleção dos filmes produz um forte efeito político ao dar visibilidade para realizadores periféricos no campo da produção cinematográfica nacional, a conexão desses filmes nas Mostras e Sessões procura manter um esforço permanente de produção de novos horizontes de tradução para a identidade periférica.
Resumo expandido
- Nos últimos 20 anos, vimos o surgimento e consolidação de um conjunto de obras fílmicas que se destacaram por trazerem aquilo que Ivana Bentes irá chamar de novos sujeitos do discurso sobre as periferias brasileiras (2010). É um período onde se postula que os discursos sobre esses territórios não são mais enunciados apenas por um olhar externo, mas por sujeitos que possuem uma intimidade com os temas e lugares onde esses filmes habitam. Concomitante a esse fenômeno, surgiram festivais de cinema e audiovisual que tem desempenhado um papel fundamental na reunião e visibilidade dessas obras, bem como na construção e problematização da identidade periférica que emerge de suas curadorias. O primeiro festival no Brasil a se dedicar exclusivamente à exibição desses filmes foi o Festival Visões Periféricas, projeto que idealizei e coordeno desde 2007 e que acontece, presencialmente, no Rio de Janeiro.
A identidade é uma categoria crucial para uma reflexão acerca do surgimento do Visões e ela encontra uma formulação seminal em Lacan para quem o processo de identificação do sujeito está imerso no mundo do simbólico, da imagem (BARROS, 2024). Uma vez que a circulação de imagens técnicas, ao longo da história, cumpre um papel fundamental na criação de identidades coletivas, torna-se indispensável fazer uma reflexão sobre o papel da curadoria e programação do Festival Visões Periféricas na performatização da identidade periférica.
O Visões Periféricas é um evento que, desde o seu surgimento, privilegiou o curta-metragem na seleção de filmes. Por se tratar de um formato que, historicamente, serve como “porta de entrada” para a trajetória de produtores audiovisuais, nesses 20 anos a sua curadoria e programação se tornou fundamental para a reflexão da identidade periférica. No festival, esse trabalho não acontece exclusivamente com base em uma avaliação acerca do valor artístico individual de cada obra inscrita, mas leva em consideração como a conexão dos filmes na programação de Mostras e Sessões do evento tem o potencial de produzir e problematizar o conceito acerca do termo periferia no cinema.
Essa forma de trabalhar torna-se central para evitar que o trabalho de curadoria parta de definições pré estabelecidas do conceito periferia que possam enrijecer a avaliação dos filmes. Se por um lado o recorte curatorial do Visões Periféricas procura corrigir uma distorção histórica sobre a ausência de realizadores periféricos em lugares de poder na construção do discurso fílmico sobre as periferias, por outro, esse mesmo recorte corre o risco de atribuir uma grande responsabilidade ao diretor e seu filme pela construção da identidade periférica. STAM e SHOHAT (1995) irão falar do “ônus da representação” ao se referir ao fardo que um filme teria para representar grupos socialmente sub-representados. A ocupação desigual de lugares de poder no cinema tornaria as representações de grupos marginalizados potencialmente alegóricas, ou seja, elas confeririam à cada obra o fardo de estar sempre representando o coletivo, o que não aconteceria em filmes feitos por grupos dominantes.
Por força da programação que o formato do curta-metragem enseja no Visões, ela se oferece como possibilidade de produção permanente de discursos sobre a periferia por meio de um avizinhamento entre os filmes, um esforço de “montagem”, entendida como forma de desenhar linhas de legibilidade entre os curtas, e de “imaginação”, entendendo a imaginação não como fantasia, mas como uma faculdade que percebe as correspondências e as analogias entre os filmes mas também os choques capazes de problematizar e atualizar as representações sobre o mundo (DIDI-HUBERMAN, 2015, p. 135). Ao mesmo tempo que a seleção curatorial do Visões Periféricas tem forte efeito político inclusivo no campo da produção cinematográfica nacional, ela também procura manter um esforço permanente de produção de novos horizontes de tradução para a identidade periférica por meio da programação de filmes.
Bibliografia
- BARROS, Douglas. O que é identitarismo? São Paulo: Boitempo, 2024.
BENTES, Ivana. Deslocamentos subjetivos e reservas de mundo. In: MIGLIORIN, Cezar (Org.). Ensaios no real: o documentário brasileiro hoje. [S.l.]: Azougue Editorial, 2010.
DIDI- HUBERMAN, Georges. “Diante do tempo: história da imagem e anacronismo das imagens”. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2015.
STAM, Robert; SHOHAT, Ella. “Estereótipo, realismo e representação racial. In: CARVALHO, Noel dos Santos (org.). Cinema negro brasileiro. Campinas, SP: Papirus Editora, 2022.