Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Victor de Sousa Cavalcante (UFPE)

Minicurrículo

    Cientista social e jornalista. Doutor em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com pesquisa sobre as políticas da monstruosidade no cinema e na literatura. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC). E-mail: joaosc88@gmail.com

Ficha do Trabalho

Título

    O monstruoso sexo dos trolls: corpo, gênero e natureza em Border (2018)

Resumo

    O trabalho analisa o filme Border (Ali Abbasi, 2018), a partir de uma leitura que articula a linguagem do horror a debates contemporâneos sobre pessoalidades dissidentes e sobre a monstruosidade como dispositivo político. Tomando a noção de monstro como operador conceitual, interessa pensar como o longa-metragem desloca predicativos ligados ao corpo e à identidade, notadamente sexo, gênero, espécie e família.

Resumo expandido

    O trabalho analisa o filme Border (Ali Abbasi, 2018), a partir de uma leitura que articula a linguagem do horror a debates contemporâneos sobre pessoalidades dissidentes e sobre a monstruosidade como dispositivo político. Tomamos como eixo central de investigação a personagem principal Tina (Eva Melander), que apresenta uma rara habilidade olfativa e uma aparência física que destoa do normativo, o que a distingue dos demais sujeitos humanos na narrativa.

    Como operador conceitual, investimos no termo monstro a partir de um esforço duplo e não separável: monstro é, ao mesmo tempo, dispositivo teórico e objeto de investigação. O monstruoso tem uma extensa genealogia (Cohen, 1996; Gil, 2006), e é compreendido aqui não como um sintoma de crises culturais, como apontado por Cohen, em um texto seminal sobre os estudos da monstruosidade, mas como forma de vida que tensiona os modelos culturais de reconhecimento dos sujeitos. Interessa-nos pensar, sobretudo, qual política é possível ao monstro. Ou ainda: qual política é criada pelo monstro no cinema de horror?

    A partir de um conjunto de afetos suscitados pelo insólito e pelo horror (Carroll, 1999), buscamos entender o monstruoso a partir de sua potência política e ontológica. Nesse sentido, apresentamos uma noção biopolítica de monstro, atrelado à ideia de vidas precárias (Butler, 2019) e da produção discursiva de dissidências sociais (Foucault, 2010; 2021). Partimos da hipótese de que o monstro propõe modos de vida e vivencia experiências de sociabilidade e de comunidade a partir de outros pontos de referência.

    A figura monstruosa, historicamente situada no limiar do humano, é empurrada para o campo do não inteligível, reforçando oposições que sustentam hierarquias e exclusões. Border, entretanto, tensiona essas antinomias ao posicionar Tina como uma figura fronteiriça, um significante flutuante cuja existência desafia territórios estáveis, como indicado pelo título do filme.

    O filme de Abbasi organiza um conjunto heterogêneo de oposições (floresta e cidade, animal selvagem e domesticado, sexo e gênero, corpo e moralidade) que funciona como pano de fundo estrutural para a experiência dos personagens. Ao mesmo tempo, o ponto de vista de Tina introduz uma forma distinta de apreensão do mundo, que não se orienta por categorias antropocêntricas e binárias, herdeiras de uma cisão histórica e metafísica entre natureza e cultura. O longa-metragem organiza elementos do folclore escandinavo, especialmente a figura monstruosa do troll, não como elemento sobrenatural, mas, pelo contrário, como uma natureza outra que não a codificada e cindida pela cultura.

    Analisamos como o filme desloca predicativos ligados ao corpo e à identidade, como sexo e gênero, família e espécie, a partir de fissuras abertas pelo insólito e pelo erotismo. Ao prescindir de uma identidade socialmente inteligível como humana, Tina aciona a relação recíproca entre monstruosidade e fronteira e propõe modos outros de habitar o mundo.

    Interessa-nos, portanto, analisar Border e compreender qual configuração de vida e de comunidade, ou seja, de política, é imaginada a partir da perspectiva da personagem Tina. Ponto de vista, ou perspectiva, é entendido a partir das discussões sobre a “qualidade perspectiva” do pensamento ameríndio (Viveiros de Castro, 2018). A ideia indica que todos os existentes são potencialmente capazes de intencionalidade e que compreendem os demais viventes e o ambiente segundo suas próprias características ou potências. Ao perceber perspectivamente o mundo, diferentes formas de vida não apenas multiplicam as possibilidades de interpretação do mundo, mas o conceito de mundo ele mesmo é multiplicado em mundos diversos possíveis. O conceito de perspectiva, neste trabalho, é posto em diálogo com a noção de cosmopolítica (Stengers, 2018) e com o conceito de unwelt (Agamben, 2017; Uexküll, 2004).

Bibliografia

    AGAMBEN, Giorgio. O Aberto. O homem e o animal. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.
    BUTLER, Judith. Vida Precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Editora Autêntica, 2019.
    COHEN, Jeffrey Jerome. Monster Theory: reading culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.
    FOUCAULT, Michel. Os Anormais. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2010.
    FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
    GIL, José. Monstros. Lisboa: Editora Relógio d’Água: 2006.
    VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas Canibais: elementos para uma antropologia pós-estruturalista. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
    STENGERS, Isabelle. A proposição cosmopolítica. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 442-464, abr. 2018.
    UEXKÜLL, Thrure. A teoria da Umwelt de Jakob von Uexküll. Galáxia. São Paulo, v.1, nº7, 2004.