Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luiz Gustavo Melo de Oliveira (PPGcine – UFS)

Minicurrículo

    Luiz Gustavo Melo de Oliveira é mestrando em Cinema e Narrativas Sociais (PPGcine) pela Universidade Federal de Sergipe. Sua pesquisa investiga processos estéticos de subjetivação multiespécie a partir de imagens do cinema contemporâneo. Além disso, atua como crítico de cinema e integrou o júri crítico do VI MOV – Festival Internacional de Cinema Universitário de Pernambuco.

Coautor

    Fernando de Mendonça (UFS)

Ficha do Trabalho

Título

    Semear visões com mundos multiespécie em April (2024), de Dea Kulumbegashvili.

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    No filme April (2024), de Dea Kulumbegashvili, poderiam os encontros entre uma médica e formas de vida mais que humanas engendrar mundos perceptivos multiespécie? Diante disso, busca-se pensar como esses contatos formam as imagens através de um realismo imanente, no qual as relações não preexistem, mas são criadas pelas conexões plurais. Assim, as imagens operam entre registro e fabulação, semeando visualidades imprevistas e configurando um processo de terraformação (Haraway, 2023) com o cinema.

Resumo expandido

    Campos e florestas georgianas são atravessados cotidianamente por Nina, uma médica obstetra que realiza abortos clandestinos na zona rural da Geórgia. Ao longo desses trajetos, porém, seu corpo, que sai em visita, também se depara com formas de vida mais que humanas, como cachorros errantes; flores em polinização com abelhas e vacas apreendidas pela pecuária, espelhando os gestos de uma criatura que também vagueia pelo mundo. Nesse sentido, a visitação entre esses seres em April (2024, dir. Dea Kulumbegashvili) aproxima-se da perspectiva de Donna Haraway (2023), acerca do gesto de sair em visita, em diálogo com Hanna Arendt (1993). Para a filósofa estadunidense, visitar implica não apenas expandir a imaginação no pensamento, mas também transitar por mundos multiespécie. Contudo, mais do que tematizar encontros entre viventes, interessa aqui investigar de que modo essas visitações fecundam e semeiam mundos visuais agenciados com seres plurais.
    É diante dessas relações imagéticas que o pensamento é convidado a também sair em visita com elas, percorrendo caminhos epistemológicos que cruzam o cinema e os vínculos multiespécie, num gesto cosmopolítico (Stengers, 2018) atento à liberdade arriscada e à rastreabilidade dos conceitos. Pensa-se, assim, com imagens que ressoam potências perceptivas entre humanos, animais e plantas (Derrida, 2011), nas quais as fronteiras entre os modos de ver e de estar das espécies se modulam no próprio contato. Nesse jogo, a coabitação entre Nina e as flores vermelhas do campo gera aproximações e distanciamentos, com a câmera que oscila entre hesitar e se inscrever no encontro.
    Nesse caminho, André Bazin (2018) reflete sobre imagens concebidas a partir da relação entre espécies em cena, ao tratar da montagem proibida. A evitação do corte quando dois ou mais elementos distintos coexistem no quadro gera uma preservação do acontecimento da relação, guiando a decupagem pelos modos de aparição e pelos campos cegos dos encontros que formam a realidade. Desse percurso de partilha composta, o realismo baziniano desperta a possibilidade de experimentar passagens com o realismo agencial e a noção de intra-ação, formuladas pela física e filósofa Karen Barad (2012). Assim, no realismo agencial, os fenômenos não preexistem às relações, mas se formam na própria associação entre agências que atuam em conjunto. O testemunho ontológico faz do acontecimento uma relação em ação, e os agenciamentos devem ser pensados como capacidades relacionais de produzir efeitos no mundo.
    É nesse contexto que surgem os cortes agenciais: conexões entre os seres que configuram separações e diferenças que não antecedem as relações, mas aparecem como efeitos situados delas. Com Bazin, podemos refletir que tal corte não estaria disposto na montagem, mas no contato fugaz entre os viventes em quadro. A ruptura e a descontinuidade se inscrevem no discurso do crítico francês por meio da sua presença nos instantes gestuais (Daney, 2003). Nesse sentido, as intra-ações (Barad, 2012) permitem nomear uma interdependência que cria sujeitos, tempos e espaços como efeitos das intra-relações emaranhadas, ao invés de interações com seres pré-definidos.
    Dessa forma, Donna Haraway (2022; 2023) pensa, em diálogo com a intra-ação, o vir a ser dos entes multiespécie que se constituem por via do parentesco, entendido como ligações parciais entre seres humanos e seres não humanos que tensionam a continuidade biológica reprodutiva do corpo humano e semeiam mundos por meio de práticas de coleta, inspiradas na teoria da bolsa de ficção de Ursula K. Le Guin. Nesse sentido, este trabalho propõe, a partir de uma análise fílmica poética (Gomes, 2004), traçar reflexões acerca de um processo de terraformação (Haraway, 2023) com o cinema. A aposta é que em April (2024) as imagens operam um gesto de coleta no qual o realismo imagético pode se constituir como um receptáculo de alteridades multiespécie, semeando ficções materiais com os entrelaçamentos visuais imprevistos.

Bibliografia

    ARENDT, H. Lições sobre a filosofia política de Kant. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993.
    BARAD, K. “Intra-actions” [interview to Adam Kleinman].Mousse magazine, n.34, p.76-81,2012.
    BAZIN, A. O que é o cinema?. São Paulo: Ubu Editora, 2018.
    DANEY, S. “The Screen of fantasy (Bazin and Animals)”. In: MARGULIES, I (orgs). Rites of realism: essays on corporeal cinema. Durhein: Duke University Press, p. 32-41, 2003.
    DERRIDA, J. O animal que logo sou. São Paulo: Editora UNESP, 2011.
    GOMES, W. S. “La poética del cine y la cuestión del método en el análisis fílmico”. Significação, Curitiba, v. 21, n. 1, p. 85-106. 2004. Disponível em: https://revistas.usp.br/significacao/article. Acesso em 22 abr. 2026.
    HARAWAY, D. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthluceno. São Paulo: N-1 Edições, 2023.
    _____________. Quando as espécies se encontram. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
    STENGERS, I. “A proposição cosmopolítica”. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 69, p. 442-464, 2018.