Ficha do Proponente
Proponente
- Fábio José Paz da Rosa (UFRRJ)
Minicurrículo
- Professor do Departamento de Formação Docente da UFRRJ e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Demandas Populares e Contextos Contemporâneos (PPGEDUC). É líder do Grupo de Estudos Didáticas Audiovisuais para a Docência e a Infância (DAUDI). É membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cinema (SOCINE) e da Rede Latino-Americana de Educação, Cinema e Audiovisual. Desenvolve pesquisas na interface do Cinema Negro, Didática e Currículo.
Ficha do Trabalho
Título
- O que eu aprendi com Viviane? Imagens decoloniais em filmes sobre docentes negras universitárias
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- Esta pesquisa visa compreender os conhecimentos construídos no curta-metragem “O que eu aprendi com Viviane? que narra a trajetória de uma professora negra universitária. A partir da teoria decolonial e da metodologia da Análise Criativa, os integrantes dessa produção foram mobilizados a conduzirem o fazer fílmico pela corporeidade e a oralidade. Essa experiência tem mobilizado outras produções com a mesma temática para ampliar imageticamente os saberes produzidos por intelectuais negras.
Resumo expandido
- Este trabalho, desenvolvido por estudiosas (os) do cinema negro na formação docente e na Educação Básica, analisa a produção, a montagem e as exibições do curta-metragem “O que eu aprendi com Viviane?” (2025) que narra a trajetória de uma professora negra de uma universidade pública federal. As fundamentações teóricas dessa pesquisa são a teoria decolonial, que nos propicia questionar os conhecimentos unívocos eurocêntricos e paralelamente apresentar novas epistemologias à academia, como proposto por Catherine Walsh (2009), e também a perspectiva da função pedagógica do cinema em bell hooks (2023). A abordagem metodológica é a Análise Criativa de Alain Bergala (2008) que nos suscitou a trabalhar a construção desse curta-metragem a partir das três operações mentais de eleição, disposição e ataque (Bergala, 2008). Dessa forma, pensamos a construção das imagens no momento de gravar, fazer os enquadramentos, posicionar a câmera e determinar o tempo de cada cena, mobilizadas (os) pelos conceitos de racionalidade, intenção comunicativa, intuição, instinto e reflexo. (Bergala, 2008).
Ao produzirmos esse curta-metragem, compreendemos a potencialidade entre a proposta do roteirista e diretor, a estética da protagonista através de vestimentas e adereços da cultura africana e afro-brasileira juntamente com sua sensibilidade literária que culminou no exercício do olhar da montadora. Nesse afã, entendemos que o fato de a roteirização, a interpretação e a montagem serem conduzidas por duas acadêmicas negras e um acadêmico negro reitera o que as teóricas e os teóricos do cinema negro, em suas mais diferentes abordagens, problematizam e defendem. Edileuza Penha dos Santos (2018) afirma sobre a produção de novos olhares quando mulheres negras assumem e conduzem a cinematografia. Em nossa experiência cinematográfica, termos uma protagonista e uma montadora, ambas negras, também foram aspectos primordiais para a reescrita do roteiro no momento da gravação e das escolhas para a montagem. Outrossim, concordamos com os estudos de Celso Prudente (2011), Júlio César Santos (2013), Noel dos Santos Carvalho e Petrônio Domingues (2018) em que o cinema negro tem necessidade de se constituir por artistas afro-brasileiros capazes de elaborar e produzir novas estéticas que garantam o pertencimento étnico, mas que traga implicações em uma perspectiva afirmativa.
Dessa forma, compreendemos que a produção do curta-metragem “O que eu aprendi com Viviane? ” se constitui em decolonialidade ao evidenciar a corporeidade e a oralidade da protagonista enquanto imagéticas que narram sua trajetória de vida em que afetividade, profissionalidade e ancestralidade se apresentam enquanto conhecimentos indissociáveis.
Para além da produção fílmica, analisamos nesse trabalho as reverberações das exibições do curta-metragem na universidade onde esse grupo de pesquisa desenvolve suas atividades, e em outros espaços acadêmicos. Nesse sentido, percebemos que estudantes negras e servidoras negras estabeleceram diálogos com a trajetória da protagonista em que as imagens provocaram enunciações sobre os desafios da vida acadêmica em diferentes contextos geracionais, estabelecendo o que bell hooks (2019) conceituou por contramemória para conhecer o presente e inventar o futuro quando mulheres negras fazem suas próprias análises fílmicas fundamentadas em suas vivências, experiências e conhecimentos.
Por último, as epistemologias evidenciadas na produção, montagem e na exibição desse curta-metragem suscitam novas aprendizagens nos contextos da formação docente em que intelectuais negras universitárias reelaboram a maneira de produzir conhecimento onde suas corporeidades e oralidades não são dissociadas do fazer científico. Essa constatação mobilizou esse grupo de pesquisa na produção do segundo curta-metragem, que está na fase de montagem, com o intuito de compreender as referências intelectuais e formativas de professoras negras universitárias.
Bibliografia
- BERGALA, Alain. A hipótese cinema. Pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink, 2008.
CARVALHO, Noel dos Santos; DOMINGUES, Petrônio. Dogma Feijoada: A invenção do cinema negro brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v.33, n º 96, p. 1- 18, 2018.
HOOKS, bell. Cinema vivido: raça, classe e sexo nas telas. Tradução de Nathália Engler. São Paulo, SP: Elefante, 2023
HOOKS, bell. Olhares negros: raça e representação. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Elefante, 2019
SANTOS, Júlio César. A quem interessa um cinema negro? Revista da ABPN, v. 5, n. 9, p. 98-106, 2013.
SOUZA, Edileuza Penha . Mulheres negras na construção de um cinema negro feminino. Aniki, 7(1), p. 171-188, 2020. Disponível em: https://aim.org.pt/ojs/index.php/revista/article/view/586
PRUDENTE, Celso. Cinema Negro: Pontos reflexivos para a compreensão da importância da II Conferência de intelectuais da África e da Diáspora (Ensaios). Brasília, 2011, p. 48-50.