Ficha do Proponente
Proponente
- Rosana Cordeiro Parede (UAM)
Minicurrículo
- Doutora (2025) e Mestra (2018) em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi (SP), com pesquisas sobre horror e nostalgia no audiovisual contemporâneo. Docente na mesma instituição desde 2019, leciona disciplinas de fotografia, imagem e linguagem audiovisual nos cursos de graduação em Comunicação. Desde 2025, atua na logística e produção da Mostra Universitária de Cinema e Audiovisual (MUCA), entre outros eventos da área.
Coautor
- Rogério Ferraraz (UAM)
Ficha do Trabalho
Título
- It, a coisa que habita em nós: traumas e fobias no horror contemporâneo
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- O estudo examina o cinema de horror contemporâneo a partir dos filmes It: A Coisa (2017) e It: Capítulo Dois (2019), destacando como o gênero estrutura o medo por meio de traumas e fobias individuais. À luz do conceito de unheimlich, observa-se como o palhaço-monstro Pennywise materializa conflitos psíquicos dos personagens do Clube dos Perdedores. Como contraponto, a série It: Bem-vindos a Derry (2025-) prioriza a mitologia e a expansão narrativa em detrimento da profundidade psicológica.
Resumo expandido
- Uma das tendências do cinema de horror contemporâneo caracteriza-se pela crescente incorporação de temas ligados à saúde mental, utilizando traumas e fobias não como mero pano de fundo, mas como dispositivos narrativos centrais para amplificar o medo e a conexão com o espectador. Essa perspectiva emerge, aqui, da análise dos filmes It: A Coisa (It, 2017) e It: Capítulo Dois (It: Chapter Two, 2019), adaptados do romance homônimo de Stephen King (1986/2014) e dirigidos por Andy Muschietti. A análise também busca traçar comparações com a minissérie televisiva It: Uma Obra-Prima do Medo (It, 1990) e estabelecer tensionamentos com a série produzida pelo serviço de streaming HBO Max, It: Bem-vindos a Derry (It: Welcome to Derry, 2025-), como contraponto crítico.
Fundamentado no conceito freudiano do unheimlich (“estranho”, “inquietante” ou “infamiliar”), formulado por Sigmund Freud (2019) em 1919, este estudo busca demonstrar como os filmes de Muschietti personificam os medos íntimos dos personagens do chamado Clube dos Perdedores. A materialização da violência doméstica no sangue que inunda o banheiro de Beverly Marsh, a hipocondria de Eddie Kaspbrak transformada na figura do “leproso” e a culpa de Bill Denbrough personificada no irmão morto evidenciam que, em cada caso, o palhaço-monstro Pennywise opera como catalisador de traumas recalcados. Conforme afirma King, a boa história de terror encontra “a porta secreta para a sala que você acreditava que ninguém além de você conhecia” (KING, 2012, p. 39). Os dois filmes localizam essa “porta” na psique do espectador, utilizando fobias individuais como “gatilhos” para uma experiência de medo identificável e reflexiva.
A nostalgia, um dos recursos centrais da narrativa (ambientada em 1989, no caso do primeiro filme, em contraste com os anos 50 da minissérie de 1990), opera como ponte entre o familiar e o perturbador. A estética do palhaço também se transforma: o Pennywise colorido e ambíguo de Tim Curry (1990) cede lugar à figura visceralmente grotesca de Bill Skarsgård (2017/19), eliminando qualquer ilusão de inocência e refletindo a ressignificação cultural do palhaço como símbolo de terror, impulsionada por casos reais, como o do serial killer John Wayne Gacy (1942–1994), e pelo fenômeno dos avistamentos de “palhaços assustadores” em 2016.
Em contraponto, a série It: Bem-vindos a Derry apresenta um deslocamento significativo. Concebida no mesmo universo ficcional dos filmes, a obra explora a origem de Pennywise e os eventos cíclicos da cidade, operando sob a lógica do “universo expandido” e priorizando a mitologia em detrimento da profundidade psicológica. Explicar excessivamente o monstro, já apontava Noël Carroll (1999), tende a naturalizá-lo e a enfraquecer sua potência de estranhamento. O horror desloca-se, assim, dos traumas individuais para o espetáculo histórico, marcado por incêndios e massacres coletivos.
A análise comparativa entre a minissérie de 1990, os filmes de 2017 e 2019 e a série de 2025 permite iluminar uma tensão fundamental no horror audiovisual contemporâneo. De um lado, há uma tendência consolidada de aprofundamento psicológico, na qual monstros como Pennywise funcionam como catalisadores de traumas individuais, mobilizando fobias e ansiedades como gatilhos para uma experiência de medo baseada na projeção e no reconhecimento. De outro, observa-se um movimento impulsionado pela lógica dos “universos expandidos” do streaming, que privilegia a expansão mitológica e o conteúdo serializado em vez da densidade psicológica de personagens.
A hipótese que orientou este trabalho sustenta, portanto, que tal tendência observada especialmente no cinema de horror modifica a experiência do medo ao explorar tais traumas e fobias. O verdadeiro terror, como demonstram os filmes de 2017 e 2019, não reside no monstro externo assustador, mas nas feridas internas que ele revela: nas cicatrizes que nos constituem muito antes de qualquer palhaço surgir em um bueiro.
Bibliografia
- CARROLL, Noël. A filosofia do horror ou Paradoxos do coração. Campinas, SP: Papirus, 1999.
FREUD, Sigmund. Freud – O infamiliar [Das Unheimliche] – Edição comemorativa bilíngue (1919-2019): Seguido de O homem da areia de E. T. A. Hoffmann. Belo Horizonte/São Paulo: Autêntica, 2019.
KING, Stephen. It: A Coisa. São Paulo: Suma, 2014.
KING, Stephen. Sobre a escrita: a arte em memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
PAREDE, Rosana C. It, a coisa que habita em nós: fobia e saúde mental no cinema de horror contemporâneo. Tese (Doutorado em Comunicação). São Paulo: Universidade Anhembi Morumbi, 2025.