Ficha do Proponente
Proponente
- Isabella Loureiro Khaled Poppe (UFRJ)
Minicurrículo
- Doutoranda em História Social (PPGHIS/UFRJ), com doutorado sanduíche no Laboratorio Audiovisual de Investigación Social do Instituto Mora, na Cidade do México. Mestra em História Política e Bens Culturais (FGV-CPDOC). Graduada em História (UNIRIO). Atuou no projeto de extensão Cineclube Cinelatino: Imagens da América Latina a serem decifradas (UNILA) e colaborou na organização do livro Memória do cinema documentário brasileiro. É também roteirista e realizadora audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- “¡AQUÍ HAY UN CINE!” A REVOLUÇÃO PELAS LENTES DAS CINEASTAS NICARAGUENSES
Resumo
- Nos anos 1970-1980, o cinema social na América Central floresceu na esteira dos conflitos políticos, utilizando documentários como arma de denúncia e instrumento de conscientização. Na Nicarágua, a criação do INCINE em 1979, logo após a vitória da revolução, impulsionou a produção local e a formação de cineastas, com destaque para a pioneira María José Álvarez e Rossana Lacayo. O trabalho analisa o aspecto autoral de suas produções, que trazem uma perspectiva de gênero e uma linguagem poética.
Resumo expandido
- Nas décadas de 1970 e 1980, houve um florescimento de um cinema de tendência social na América Central, impulsionado por conflitos sociopolíticos. Paralelamente às lutas insurrecionais, surgiu o interesse em desenvolver uma cinematografia própria, com linguagem condizente com as possibilidades do meio. Diante disso, a insurreição centro-americana passou a utilizar o cinema como arma de denúncia e instrumento de conscientização, fazendo com que documentários e noticieros se tornassem gêneros predominantes.
No caso da Nicarágua, a maior parte da filmografia passou a ser produzida a partir do triunfo da Revolução Sandinista, em 19 de julho de 1979, com a criação do Instituto Nicaraguense de Cine (INCINE), em setembro do mesmo ano. A entidade se dedicou à produção de noticieros, documentários e ficções, com cada vez mais atuação de cineastas locais. O INCINE adotou uma política que privilegiava diretores nicaraguenses, mesmo sem experiência prévia, apostando na aprendizagem prática e funcionando como uma escola de cinema. Um de seus objetivos era produzir uma memória gráfica e histórica do país, registrando o processo que estava em curso.
Foi nesse contexto que a nicaraguense María José Álvarez passou a integrar o instituto, dirigindo o Noticiero 3 e tornando-se a primeira mulher cineasta na Nicarágua. Esses filmes não eram simples reportagens, pois possuíam um estilo de documentário, envolvendo pesquisa, roteiro e uma pré-filmagem, que duravam semanas para serem produzidos. Durante sua atuação no INCINE, Álvarez dirigiu sete noticieros, nos quais se observa uma evolução de linguagem e uma busca por autoralidade à medida que eram produzidos. Embora não centrados nas questões de gênero, já revelavam um interesse da diretora por imagens e testemunhos de mulheres. Essa perspectiva se torna mais evidente em seu documentário Pan y dignidad: carta abierta de Nicaragua (1982, 30 min.), que aborda diretamente a participação feminina na revolução e se diferencia formalmente dos noticieros, adotando um estilo mais ensaístico. Nele, a diretora faz uso da narração em primeira pessoa, um gesto raro no cinema latino-americano da época, o que causou um estranhamento do INCINE.
Outra cineasta nicaraguense que se destacou durante o período da revolução foi Rossana Lacayo, que começou sua atuação junto ao INCINE como fotógrafa still nos bastidores das produções audiovisuais. Durante esse período, ela começou a aprender a fazer cinema ao observar cineastas mais experientes, conseguindo realizar seu primeiro filme em 1985, intitulado Estos sí pasarán. Apesar de ter sido feito com apoio logístico do INCINE, não recebeu nenhum financiamento do mesmo, pois havia uma desconfiança dos dirigentes a respeito de sua capacidade como diretora. Com a boa repercussão que o filme teve, ela conseguiu o status de realizadora no INCINE e maior apoio para realizar outros filmes, entre eles, Un secreto para mí sola (1987) e Escuchemos a las mujeres (1988). Em todos, é possível observar uma linguagem mais poética, que se distingue de produções de viés mais panfletário associadas diretamente ao INCINE.
Diante disso, o trabalho se debruça na análise dos filmes das cineastas nicaraguenses María José Álvarez e Rossana Lacayo, que se caracterizam por um viés mais autoral do que aquele proposto pelo cinema revolucionário oficial, tanto em termos de temática, como de linguagem. Para o desenvolvimento da análise que leve em conta este aspecto, se realiza uma decupagem minuciosa dos filmes, buscando compreender o discurso audiovisual por meio do processo de montagem e a construção dos planos, encarados como sujeitos históricos. Além disso, o trabalho incorpora entrevistas recentes realizadas com as cineastas, nas quais relembram a realização dessas produções.
Bibliografia
- BUCHSBAUM, Jonathan. Cinema and the Sandinistas: filmmaking in revolutionary Nicaragua. Austin: University of Texas Press, 2003.
BIRRI, Fernando. Para seguir resistiendo. In: LEDUC, Paul; LÓPEZ, José; SÁNCHEZ, Jorge (orgs.). Hojas de cine: testimonios y documentos del nuevo cine latinoamericano. Cidade do México: Ed. Universidad Autónoma Metropolitana, 1988.
CORTÉS María Lourdes. La pantalla rota. Cien años de cine en Centroamérica. La Habana: Fondo Editorial Casa de las Américas, 2005.
LEANDRO, Anita. Montagem e história: uma arqueologia das imagens da repressão. In: Alessandra Brandão & Ramayanna Lira. A sobrevivência das imagens. Campinas: Papirus, 2015, pp. 103-120.
PIEDRAS, Pablo. El cine documental en primera persona. Buenos Aires: Paidós, 2014.