Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Renan Paiva Chaves (UNICAMP)

Minicurrículo

    Renan Chaves é professor da Graduação em Midialogia e do Programa de Pós-Graduação em Multimeios do Instituto de Artes da Unicamp. Dedica-se à pesquisa do som e música no cinema e audiovisual. Coordena o Grupo de Pesquisa CNPq Estudos do Som Fílmico. Atua como técnico de som direto e editor de som.

Ficha do Trabalho

Título

    O inconsciente acústico: imanência, a-encenação e sonoridades antropocênicas no cinema documentário

Seminário

    Histórias e tecnologias do som no audiovisual

Resumo

    A apresentação discute novas materialidades sonoras do documentário contemporâneo, destacando aspectos da agência não humana. A partir do “inconsciente óptico” (Benjamin) e da “a-encenação” (Ramos), propomos a noção de “inconsciente acústico”, que busca definir o momento em que a intencionalidade é deslocada e o maquinismo adere à imanência do mundo. Mobilizando a “escuta disruptiva” (Rogers), buscamos compreender como tais tipos de materialidade desestabilizam a fruição e a teleologia humana.

Resumo expandido

    A apresentação dá continuidade às reflexões iniciais conduzidas no âmbito do Grupo de Pesquisa “Estudos do Som Fílmico” sobre novas materialidades sonoras que têm aparecido no documentário contemporâneo.
    Em 2025, apresentamos os primeiros passos desta pesquisa, indicando nossos eixos de investigação a partir de um corpus fílmico das últimas duas décadas: (1) expansão da noção de morfologia sonora para novos aspectos qualitativos de captação e edição sonora; (2) sonoridades vindas de novas estruturas sociotécnicas e urbanas, junto a novas tecnologias mediadoras, diante das intempéries e desastres antropocênicos; (3) sonoridades relacionadas a perspectivas apocalípticas do Antropoceno, na exploração de ecossistemas e objetos não humanóides; (4) novas dimensões que o realismo sonoro adquiriu no mundo contemporâneo, no qual as noções espaço-temporais se remodelaram.
    Uma das constatações é de que existe nessas produções/eixos uma descentralização do ser humano. Em outras palavras, toma frente nessas realizações uma agência do não humano, que desafia o entendimento de que o ser humano é peça-chave do universo, ou que é superior ou se separa categoricamente da noção de natureza. E isso tem ocorrido de duas principais maneiras: uma explícita, em que somos informados semanticamente dessa perspectiva, ou seja, como tema fílmico; e outra em que a imanência das coisas aflora no suporte fílmico, ou seja, como o aparato maquínico opera na materialidade mundana deslocando a sensorialidade e intencionalidade/transcendência teleológica do ser humano.
    É sobre essa segunda forma que temos dedicado esforço atualmente.
    Um dos textos-chave dessa empreitada é “Walter Benjamin e a flor azul da a-encenação documentária”, de Fernão Ramos (2024), a partir do qual resgatamos a noção benjaminiana de “inconsciente óptico” — a capacidade da câmera de revelar aspectos da matéria física invisíveis a olho nu. Transpondo essa ideia para o sonoro, propomos um “inconsciente acústico”, no qual os aparatos de captação tornam audíveis o inaudível consciente. Essa perspectiva ontológica revelada pelo aparato ocorre pelo que definimos, por empréstimo, como “a-encenação sonora”, na esteira daquilo que Ramos define como “a-encenação documentária”, que se dá, no nível da captação, no instante em que o controle intencional da equipe realizadora (a intencionalidade burguesa, como talvez colocaria Benjamin) é suspenso e o maquinismo adere à imanência do mundo — o plano direto no qual a própria vida transcorre. Neste estado de suspensão, a agência é deslocada para o que Ramos denomina “cosmos ampliado”, uma dimensão virtual na qual a vida flui de modo autônomo, desvinculada de um devir teleológico humano.
    Para além de Ramos, recorremos a alguns conceitos-chave de Holly Rogers, especialmente para entender, para além da tomada, algumas dimensões em que a pós-produção e a espectatorialidade podem operar nesse universo investigativo. O primeiro é a “elongação sônica”, uma transmutação criativa em que os sons fílmicos se distanciam de um referente visual estrito e se expandem para texturas e composições musicais. O segundo é a “aporia sônica”, uma dissonância asfixiante gerada por uma sincronicidade audiovisual tão brutal que esmaga as premissas lógicas da representação. A elongação e a aporia exigem do espectador uma “escuta criativa” — o uso ativo da interpretação para religar os sentidos fraturados —, que por fim culmina em uma “escuta disruptiva”. Esta postura, acreditamos, desestabiliza o consumo e a fruição tradicional e lança o espectador a um estado de vulnerabilidade sensorial, ferramenta estética e ética essencial para decifrar a agência não humana daquilo que temos chamado de “sonoridades antropocênicas” do documentário contemporâneo.
    Usaremos os seguintes exemplos para ilustrar o raciocínio: All that breathes (Sen, 2022), Matter out of place (Geyrhalter, 2022), Geographies of solitude (Mills, 2022) e De humani corporis fabrica (Paravel; Castaing-Taylor, 2022).

Bibliografia

    CHAVES, Renan Paiva. A formação do som do documentário: do cinema mudo ao afloramento do eu-realizador. Tese (Doutorado) – UNICAMP, 2022.
    HARAWAY, Donna. Anthropocene, Capitalocene, Plantationocene, Chthulucene: Making Kin. Environmental Humanities, v. 6, n. 1, 2015.
    RAMOS, Fernão. Walter Benjamin e a Flor Azul da A-Encenação Documentária. DOC On-line, n. 36, p. 75-147, 2024.
    ROGERS, Holly. Sonic Elongation: Creative Audition in Documentary Film. Journal of Cinema and Media Studies, v. 59, n. 2, 2020.
    ROGERS, Holly. Sonic Elongation and Sonic Aporia: Two Modes of Disrupted Listening in Film. In: CENCIARELLI, Carlo (ed.). The Oxford Handbook of Cinematic Listening. Oxford: Oxford University Press, 2021.