Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Vívian Gabrielly Santos da Cunha (UFMT)

Minicurrículo

    Graduanda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Mato Grosso, atualmente no 5º período. Desenvolvo pesquisas sobre o cinema brasileiro, com foco em animação. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/8908998903265192

Ficha do Trabalho

Título

    Ritos de passagem em mundos isolados na animação brasileira contemporânea

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O presente trabalho, ao colocar sob análise as representações de identidade e cultura na animação brasileira contemporânea, a partir dos filmes Até que a Sbórnia nos separe e Ritos de passagem, investiga de que maneira a cultura regional atua simultaneamente com o confronto entre regionalismo e universalidade. Sobretudo, ao produzir crises identitárias nas quais os sujeitos se veem tensionados entre a permanência na tradição e a possibilidade de transformação.

Resumo expandido

    À luz das contribuições de Stuart Hall (2006), pode-se compreender que a identidade, quando atravessada por sistemas culturais relativamente fechados, deixa de constituir apenas um campo de pertencimento e passa a operar como um dispositivo de delimitação do sujeito. É a partir dessa tensão que se desenvolve uma reflexão acerca da constituição identitária na animação brasileira contemporânea, tomando como eixo de análise os filmes Até que a sbórnia nos separe (2013), de Otto Guerra, e Ritos de passagem (2013), de Chico Liberato. Parte-se da premissa de que a cultura regional, usualmente associada a formas de reconhecimento coletivo, também pode atuar como um sistema de contenção, condicionando as possibilidades de percepção e existência dos sujeitos. Desse modo, examina-se como práticas culturais – manifestadas na estética, na música e nos valores sociais – operam simultaneamente como suporte identitário e como limite estrutural, instaurando uma tensão contínua entre permanência e deslocamento.
    Como base interpretativa, recorre-se à alegoria da caverna de Platão, compreendida aqui como uma metáfora para os sistemas culturais que organizam a experiência sensível ao mesmo tempo em que restringem o acesso a outras formas de realidade. Em diálogo com essa perspectiva, acionam-se as contribuições de Stuart Hall, sobretudo no que se refere à compreensão da identidade como processo histórico e discursivo, atravessado por deslocamentos e rearticulações constantes. Soma-se a isso a teoria dos ritos de passagem, de Arnold Van Gennep (2012), cuja formulação estrutural é tensionada pelas leituras de Carlos Rodrigues Brandão (2017) sobre as práticas culturais e os sistemas folclóricos no contexto brasileiro. Ao compreender os rituais não apenas como sequências formais, mas sim como experiências vividas e socialmente compartilhadas. Brandão permite deslocar a análise para uma dimensão em que cultura, religiosidade e cotidiano se entrelaçam, porque torna os momentos de transição em espaços de instabilidade, nos quais os referenciais identitários se fragilizam e se reconfiguram.
    A observação evidencia que, em Até que a sbórnia nos separe, a identidade se organiza a partir de uma lógica de exaltação cultural e isolamento deliberado, na qual a tradição assume um caráter performativo e autocentrado. O contato com o exterior, nesse cenário, não apenas desestabiliza essa construção, mas revela sua dependência em um circuito fechado, sem contato com o que pode vir de fora. Em Ritos de passagem, por outro lado, o sertão é configurado como um espaço atravessado por dimensões mais densas, em que religiosidade, violência e temporalidade se entrelaçam na composição de um universo marcado pela repetição e pelo desejo de pertencer e permanecer. Diferentemente da Sbórnia, onde o conflito decorre do encontro com o outro, aqui a crise se manifesta como um percurso interno, no qual a própria estrutura cultural impõe limites à transformação pessoal e externa.
    A partir dessas considerações, sustenta-se que a relação entre regionalismo e identidade, nas obras analisadas, não pode ser reduzida a uma oposição simplificada entre tradição e modernidade, mas deve ser compreendida como um campo de tensões no qual a cultura exerce uma função ambígua. Ao mesmo tempo em que fornece referências de pertencimento, estabelece limites que dificultam a emergência de outras formas de existência. Assim, o rito de passagem configura-se como um processo atravessado por negociações e permanências, no qual o indivíduo se desloca sem romper completamente com as estruturas que o constituíram.

Bibliografia

    Brandão, Carlos Rodrigues. O que é folclore?. 1. ed. ebook. São Paulo: Editora Brasiliense, 2017.

    Platão. O mito da caverna. 1. ed. ebook. Tradução de: Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2019.

    Gennep, Arnold Van. Os ritos de passagem. 4. ed. ebook. Tradução de: Mariano Ferreira. Petropólis: Editora vozes, 2012.

    Hall, Stuart. Identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Tradução de: Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP&A Editora, 2006.

    Ritos de passagem. Chico Liberato. Brasil: Liberato produções culturais, 2013. 98 minutos.

    Até que a sbórnia nos separe. Otto Guerra, Ennio Torresan. Brasil: Otto desenhos animados, 2013. 93 minutos.