Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ellen Alves Lima (PPGCOM UERJ)

Minicurrículo

    Doutoranda e Mestre pelo PPGCOM UERJ. Bolsista CAPES. Participante do grupo de pesquisa POPMID coordenado pelo prof. Dr. Yuri Garcia. Integrante dos laboratórios LABIM coordenado pelo prof. Dr. Erick Felinto e LUNAR coordenado pelo prof. Dr. Andriolli Costa. Graduada no curso de Cinema da UNESA. Foi bolsista do Programa Nota 10 – Mestrado – FAPERJ no segundo ano de mestrado. Realiza pesquisas sobre representatividade e diversidade em filmes, séries e jogos da Marvel Comics e DC Comics.

Ficha do Trabalho

Título

    Agora eu era heroína: Do herói de western à heroína negra nos cinemas de Hollywood.

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O presente trabalho busca acompanhar o processo histórico de transformação do imaginário da figura do herói no período de 1939 até 2022. Para isso, destacamos os marcadores sociais da diferença como mudança principal entre o perfil de Ringo Kid em No tempo das diligências (1939) e de Shuri em Pantera Negra Wakanda Para Sempre (2022). Utilizamos a metodologia de Motta (2013) para analisar cada obra, discutindo elementos relacionados à identidade desses personagens a partir de Hall (2014).

Resumo expandido

    O imaginário da figura de um herói é marcadamente relacionado a um homem branco, cis hétero, e parte da origem dessa concepção pode ser endereçada ao sucesso hollywoodiano do gênero cinematográfico Western. Entre momentos de sucesso e de esgotamento, esse estilo persiste até os dias atuais. Para manter a relevância na indústria, o Western sofreu diversas modificações, como um protagonismo feminino mais progressista e o envelhecimento do protagonista masculino, dentre outras características relatadas por Vugman (2006).
    Embora o gênero tenha se modificado ao longo das décadas, para acompanhar o contexto sociotécnico das cidades e do público, focamos o nosso estudo de caso, analítico-descritivo, na comparação da obra No Tempo das Diligências (1939) com a obra Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022). Enquanto o nosso exemplo de Western apresenta o protagonismo de Ringo Kid como o cowboy solitário, branco, másculo e exímio atirador que representa a força para civilizar o Oeste, o nosso exemplo de super-heroína apresenta Shuri que defende o seu país africano fictício de um grupo de descendentes maias subaquáticos.
    A partir do nosso recorte cinematográfico, notamos que o herói ainda é aquele personagem que protege o seu território daquele que é considerado como o diferente. Entretanto, percebemos que algo essencial mudou, como as características físicas da pessoa que vai salvar o dia.
    Conhecemos a história do cinema, majoritariamente, a partir de diretores, produtores, protagonistas, dentre outros profissionais masculinos. Além de conter diretores marcadamente masculinos, de acordo com Vugman (2007), o Western também repercutiu diversos discursos hegemônicos opressores em suas obras. Apesar desse ponto que precisamos questionar, outros movimentos cinematográficos destacaram o protagonismo contra-hegemônico.
    Ao pensarmos nesse protagonismo performado pelo indivíduo que representa a diferença, notamos que um dos pontos de virada são os blockbusters dirigidos por Steven Spielberg em que o protagonista não é o herói forte e protetor, mas sim, um menino indefeso e um E.T. (1982) mais vulnerável ainda. Assim, percebemos que, na história do cinema, o deslocamento do personagem heroico hegemônico para o outro ocorreu de maneira gradual e principalmente movido pela busca por lucro, uma vez que, Vugman (2006) afirma que, conforme as cidades são organizadas de uma forma mais egoísta e capitalista, o público também muda de interesse. Enfatizamos que nada é fixo e tudo está em rasura (Hall, 2014, p.104), desde a vida no coletivo, até a cultura e as identidades.
    De acordo com Lima (2025), a partir dos anos 2000, acompanhamos o boom dos filmes de super-heróis e, inicialmente, eles apresentam majoritariamente super-heróis hegemônicos. Após os movimentos #OscarsSoWhite (2015), o sucesso do filme Mulher Maravilha (2017) e a #MeToo (2017), o mercado cinematográfico de super-heróis passou a investir em obras cinematográficas com protagonistas contra-hegemônicos, até que conhecemos a primeira super-heroína negra da Marvel protagonizando seu próprio filme: Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022).
    Logo, a partir da metodologia de Motta (2013), o presente trabalho busca comparar as duas obras cinematográficas, percebendo elementos como: planos de câmera, trilha sonora, arco narrativo, figurino e perfil de personagem. Após essa coleta, analisamos esses elementos, a partir de uma perspectiva contra-hegemônica que trabalha conceitos como marcadores sociais da diferença, a complexidade e fluxo contínuo das identidades com autores como: Stuart Hall (2014), Nancy Fraser (2006) e Grada Kilomba (2019). Dessa forma, observamos como o imaginário de heroísmo foi sendo povoado por novas figuras e realizamos o exercício de pensamento crítico para compreender as semelhanças e diferenças entre os protagonistas.

Bibliografia

    FRASER, Nancy. Da redistribuição ao reconhecimento? Dilemas da justiça em uma era pós-socialista. Cadernos de Campo, São Paulo, n. 14/15, p. 231-239, 2006.

    HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

    KILOMBA, Grada. Memórias da Plantação. São Paulo: Cobogó, 2019.

    LIMA, Ellen Alves. E eu não sou uma super-heroína? Uma análise de super-heróis contra-hegemônicos, ao longo de 27 anos, em transposições cinematográficas de quadrinhos. 2025. 158 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação) — Faculdade de Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.

    MOTTA, Luiz Gonzaga. Análise Crítica da Narrativa. Brasília: Editora Universidade de Brasilía, 2013.

    VUGMAN, Fernando Simão. Western. In: MASCARELLO, Fernando (org.). História do cinema mundial. Campinas, SP: Papirus, 2006. p. 159-176.