Ficha do Proponente
Proponente
- Thais Ponzoni (USP)
Minicurrículo
- Thais Ponzoni é mestre com a dissertação “A descoberta do cinema como linguagem em três filmes de Yvonne Rainer: Hand Movie, Volleyball e Trio Film” (2023-2025) na Universidade de São Paulo – USP, sob orientação do Prof. Dr. Cristian Borges. É licenciada em Educação Artística pela Unesp e especialista na Técnica Klauss Vianna pela PUC/SP. Integrou o corpo editorial da revista Aspas da ECA/USP e a comissão organizadora do seminário de pesquisa do Programa de pós-graduação em Artes Cênicas na ECA.
Ficha do Trabalho
Título
- A série fotográfica Body Configurations nos filmes Syntagma e Opositores invisíveis
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este trabalho investiga uma visão expansiva do corpo a partir da série fotográfica “Body configurations” (1976) de Valie Export. Incluindo câmera, fotografia e filme nas suas performances, a cineasta ressignifica a presença do tempo nas imagens dos filmes Opositores invisíveis (1976) e Syntagma (1983) no intuito de configurar a imagem do corpo em movimento e o papel da mulher na sociedade vienense.
Resumo expandido
- Como cineasta, Valie Export trouxe uma série de fotografias exibidas inicialmente como fotos-performances para seus filmes para investigar as configurações do corpo. A série de fotos-performances “Body configurations” (1976) — inicialmente pensada para a performance do próprio corpo na cidade de Vienna na década de 1970 — é trazida de maneira marcante para seus filmes Opositores invisíveis (1976) e Syntagma (1983).
Em Opositores invisíveis em 16mm, 100 minutos e Syntagma em 16mm, 17 minutos, os acontecimentos são bem descolados de uma narrativa linear e convencional tendo nas fotografias de Body configurations o ponto crucial para explorar o que chamamos de reconfiguração do corpo. A série pode ser vista pela perspectiva do tempo e da montagem, imagens combinadas com estrutura de colagem, fragmentação do corpo feminino, imagens da arquitetura e formas geométricas, de modo que é pela perspectiva da captação do tempo e do movimento cinematográfico que este acúmulo pode ampliar as reflexões sobre configurações do corpo. Por si só, tais imagens poderiam ser independentes aos filmes, mas o fato delas aparecerem neste contexto — como forma e assunto de um fragmento da narrativa — não só projetam algumas reflexões e procedimentos que nos chamam atenção, por exemplo, no próprio corpo duplicado da performer Anna em Opositores invisíveis, que se transforma numa imagem fotográfica recortada e contracena com ela mesma —, como também na própria transgressão da mídia fotográfica.
Roswitha Mueller comenta que a performance que acontece em Body configurations é uma excelente demonstração de um processo de marginalização da subjetividade da mulher, relegada às margens da sociedade e através dos filmes é possível compreender mecanismos de sua marginalização “à medida que Anna se curva ao redor dos meios-fios, encaixando seu corpo em nichos e cantos de edifícios, fica claro quão pouco espaço lhe é destinado” (MUELLER, 1994, p. 139). Valie Export deixa explícito seu interesse pelo corpo na vanguarda feminista ao afirmar que utiliza a fixação fotográfica não porque o movimento deva articular o significado do corpo, mas sim porque quer enfatizar o código do corpo “à emergir da história congelada da cultura, que é uma história de silêncio”. (EXPORT apud MUELLER, 1994, p. 114). Nesse sentido, as formas geométricas transpostas das performances para as fotografias e das fotografias para o filme, têm como ponto de partida diferentes apresentações do corpo, mas todas elas “se revelam como tendo sua origem no corpo” (MUELLER, 1994, p. 97). Sendo assim, a percepção do corpo, distinta entre os meios, é comentada por Vivian Sobchack, que afirma que o olhar cinematográfico se situa e se inscreve em objetos “abarcando uma multiplicidade de situações em articulações visíveis como a dupla exposição, a sobreimpressão, a montagem e a montagem paralela” (SOBCHACK, 1994, p. 107), configurando corpos. Tais apontamentos contribuem para refletirmos como Valie Export não apenas articula a experiência de um corpo feminino vivido em suas performances, ela também — nos filmes Opositores invisíveis e Syntagma — expõe o conflito entre a mesma performance e fotografia, mas reunidos num só tempo e espaço como constitutivo da imagem no cinema.
Dito isso, a análise destas relações aponta na direção da consciência crítica que o cinema pode operar e ressignificar a imagem da mulher, sobretudo ao friccionar acúmulos de campos distintos de conhecimentos, como a fotografia e perfomance. A estrutura de Body configurations recupera a imagem do corpo vivido sem operar como veículo de interioridade psicológica e a configuração do corpo na montagem é constituída como elemento posicional, inscrito em relações espaciais e perceptivas mediadas pela duração e pelo espaço.
Bibliografia
- EXPORT, Valie. Women’s Art: A Manifesto. https://monoskop.org/images/3/3d/Valie_Export_1973_2012_Womens_Art_A_Manifesto.pdf
SOBCHACK, Vivian. A cena da tela: concebendo a “presença” fotográfica, cinematográfica e eletrônica. Ed. Shane Denson and Julia Leyda. Post-Cinema: Theorizing 21st-Century Film. 2016.
MUELLER, Roswitha. Valie Export: Fragments of the Imagination. Indiana University Press. EUA, 1994.