Ficha do Proponente
Proponente
- Monica Poli Palazzo (PPGAV/ECA/USP)
Minicurrículo
- Artista marcial, yogini e apaixonada por bicicleta, Monica Palazzo atua como diretora de arte, diretora, artista-pesquisadora, e professora. É Mestra e Doutora em Poéticas Visuais (PPGAV/ECA/USP). Seu trabalho relaciona as operações poéticas da direção de arte com outras áreas de criação, pesquisa e ensino, fazendo transcriações a partir do “sentir-fazer-pensar-saber” da direção de arte. Em 24 anos de carreira, fez a direção de arte de longas, curtas e séries, ficção, animação e documentário.
Ficha do Trabalho
Título
- Abraçar o Dilema — criação no espaço fílmico esférico
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- O trabalho aprofunda as noções de imersão, agenciamento e presença, uma tríade que, juntamente à constituição do espaço cênico, compõe o “pensamento nativo” específico da realidade virtual. O pensamento nativo é uma estratégia poético-conceitual que balizou a criação de Dilema (2025) filme de curta-metragem em VR 360, cujo estatuto é proposto como a sensação de abraço — alegoria criada com a direção de arte, e que a realidade virtual também pode proporcionar.
Resumo expandido
- “A todos(as) que se deixam afetar pelo abraço do mundo e, inspirados(as) e/ou indignados(as), o abraçam de volta.”
Este trabalho aprofunda as noções de imersão, agenciamento e presença, a tríade que, juntamente à constituição do espaço cênico e os graus de liberdade do corpo, compõe o pensamento nativo específico da realidade virtual (VR). “Pensamento nativo” é entendido como a forma de criar conteúdo levando em consideração as capacidades exclusivas do meio, em vez de tentar adaptá-lo aos formatos tradicionais.
O pensamento nativo da VR se inicia, coincidentemente, com uma das premissas do processo criativo em direção de arte: a concepção dos ambientes, espaço material que conforma o entorno das personagens — o abraço do mundo ficcional (além da caracterização visual delas, concebida aqui como proposta alinhada entre figurino e maquiagem). O ambiente cenográfico é a base para a criação do espaço cênico, sendo composto por elementos que o tornam repleto de detalhes sensoriais, capazes de expor ideias e comportamentos com potencial narrativo, além de fazer com que o(a) espectador(a) imagine suas próprias histórias a partir desse encontro com o ambiente criado.
Ainda no contexto da direção de arte, a elaboração do espaço visual está vinculada às figuras estéticas que, citando Pier Paolo Pasolini (1992), compõem “os significados ao qual o roteiro alude”, ou seja, eu inicio o processo criativo com a primeira leitura do roteiro, a qual chamo de “leitura da sensação”, uma leitura com atenção plena, em que me coloco totalmente disponível para ser atingida pelas sensações/forças que são emanadas por ele.
Essa primeira leitura faz gerar no meu imaginário algumas imagens da sensação e sensações cromáticas, que são como traduções visuais geradas a partir das sensações que as palavras do roteiro provocaram em mim. Essas imagens da sensação orientam minha pesquisa em direção de arte, por meio da qual dirijo o trabalho da equipe envolvida.
No caso do curta-metragem imersivo Dilema (dir. Monica Palazzo, 19′, 2025), o roteiro (escrito por Elzemann Neves) alude à criação de dois espaços cênicos simultâneos, duplicidade esta que resolvi visualmente nos termos de um espelhamento narrativo no qual os papéis de Antônia e Jonas são invertidos. Tal inversão delimita o espaço cênico — o gabinete da prefeita espelhando o gabinete do prefeito, e vice-versa —, além de apresentar a personalidade das personagens, explicitada por suas respectivas caracterizações, falas e ações, e, também, sugerida de maneira implícita pela escolha dos objetos presentes em cada gabinete.
Na concepção e produção de um filme imersivo, após a etapa da criação do espaço cênico, devem ser considerados outros parâmetros que fazem parte do pensamento nativo acerca de filmes imersivos: imersão, agenciamento, e presença.
Assim sendo, os trabalhos em VR possuem diferentes “níveis de imersão”: diversas maneiras de alguém se relacionar ou se sentir cercado(a) pela imagem do mundo virtual, o que depende das características da tecnologia e dos dispositivos utilizados; “modos de agenciamento”, relacionados à percepção que o(a) espectador(a) tem quando uma ação significante é resultado de sua decisão ou escolha, e podem ser percebidos como agenciamento interativo, espacial, direcional, emocional e intelectual. E “sensação de presença”, podendo ser abordada como consequência das características anteriores, o que provoca a impressão no(a) espectador(a) de um deslocamento espacial, como se estivesse fisicamente em um outro lugar que não o lugar original anterior ao início da experiência.
Em Dilema, o pensamento nativo foi usado para construir a relação entre dois mundos possíveis, o mundo de Antônia-prefeita e o mundo de Jonas-prefeito. Temos aí o centro do dilema: dois mundos possíveis coexistentes, fundados a partir de duas premissas incompatíveis, mutuamente excludentes, que culminam em uma incompossibilidade de mundos e na falta do abraço entre as personagens.
Bibliografia
- BUENO, Winnie. Imagens de Controle: um Conceito do Pensamento de Patricia Hill Collins. Porto Alegre: Zouk Editora, 2020
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