Ficha do Proponente
Proponente
- PATRICIA MUNCONE (ECO-PÓS/UFRJ)
Minicurrículo
- Patrícia Munçone é mestranda do Programa de Pós-Graduação da Escola de Comunicação da UFRJ, vinculada à linha de pesquisa Mídias e Mediações Socioculturais e orientada pelo Prof. Dr. Leonardo de Marchi. Pesquisa as plataformas digitais de streaming e seu impacto sobre as dinâmicas de criação do audiovisual no Brasil. É graduada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e especializada em Dramaturgia pelo Instituto Dragão do Mar, em Fortaleza.
Ficha do Trabalho
Título
- ““Não crie, execute”: disputas criativas na plataformização do audiovisual no Brasil”
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- Esta apresentação busca compreender como hoje a economia de dados, que caracteriza os serviços de streaming, exerce pressão sobre a criatividade dos realizadores de audiovisual de ficção brasileiros. Para perceber como os processos de criação e seus limites se dão nas negociações com os players, realizamos entrevistas diretamente com os profissionais do ramo. Os resultados evidenciaram que embora a pressão exista, a necessidade de se manter produzindo, superou a mitigação do processo criativo.
Resumo expandido
- O cenário audiovisual brasileiro contemporâneo atravessa uma mudança estrutural impulsionada pela consolidação das plataformas de streaming como agentes centrais de produção, financiamento e distribuição de obras. Este processo, definido como plataformização dos bens culturais (NIEBORG e POELL, 2018; POELL et all, 2021), transcende a inovação tecnológica, o crescimento e intensificação do mercado audiovisual no Brasil, submetendo a prática criativa à lógica da economia de dados. Desta forma, a entrada, no Brasil, desses conglomerados globais livres de qualquer regulamentação, reconfigura de modo profundo as possibilidades de existência de autoria no audiovisual, um campo historicamente marcado por fragilidades materiais e dependência de políticas públicas.
O impasse central que orientou esta pesquisa emergiu da fricção entre dois movimentos. Por um lado, se a injeção de capital internacional ampliava as oportunidades de trabalho ao longo da cadeia produtiva do audiovisual e custeava projetos e produções, muitas vezes, desengavetando-os e aquecendo o setor; por outro, seu modus operandi, baseado no rastreamento de dados para condicionar o comportamento dos consumidores, poderia ter imposto parâmetros criativos para atender uma lógica algorítmica de lucro das plataformas de vídeo sob demanda (VoD). Nesse contexto, perguntamos: de alguma forma, essa reconfiguração no ecosistema tecnológico cultural afetou a soberania criativa de realizadores no Brasil? Se afetou, como os profissionais do setor, perceberam e se posicionaram diante dessa tensão?
Para apontar possíveis respostas a estas perguntas, propusemos neste artigo um pequeno recorte investigativo. Através de entrevistas compreensivas (KAUFFMANN, 2013) com perguntas semi-estruturadas, nos apoiamos em como três realizadoras, que transitam entre o cinema independente, a televisão e os ambientes sob demanda, percebem como esse regime incide sobre os processos de criação e seus limites.
Nossa hipótese é de que a plataformização da cultura, a economia de dados, poderia não eliminar a criação/autoria, mas a deslocaria para um campo de negociações mais agudas, onde as decisões do processo criativo do audiovisual, são atravessadas por exigências de otimização de engajamento com padrões internacionais de consumo.
Os resultados das entrevistas mostraram que: embora o streaming tenha ampliado orçamentos e alcance global, introduziu uma “homogeneização visual”, cujo o desafio é manter a singularidade dentro de diretrizes preestabelecidas; as métricas baseadas em algoritmos funcionam como ferramentas de escuta da audiência, permitem ajustes no roteiro e na montagem o que garante a performance nos primeiros minutos de exibição; há uma experiência de maior restrição nos formatos curtos, como as novelas verticais, o que exige a reprodução exata de fórmulas estéticas norte-americanas ou asiáticas de baixo custo. A criatividade é substituída pela eficiência em copiar com prazos exíguos e com orçamentos reduzidos, gerando uma “linguagem pasteurizada” e automatizada para o consumo rápido. Por fim, os dados indicam que, em formatos altamente padronizados, a figura do criador é frequentemente tensionada pela necessidade de um envelopamento criativo que responde diretamente às demandas do player.
A análise da autonomia do autor aqui é trazida na perspectiva de Ismail Xavier (2009, 2012, 2025), que compreende que o cinema de autor no Brasil ocupa uma posição crítica no campo audiovisual, intrinsecamente ligada às condições históricas de produção e às tensões com a indústria. Jean-Jacques Aumont (2004), ajuda a refletir sobre como o pensamento do criador, do fazer fílmico, é atravessado por dispositivos técnicos e institucionais. A autonomia não é praticada como liberdade plena e descontextualizada, mas vista como capacidade sempre parcial e negociada.
Conclui-se que a plataformização redefine a autonomia do audiovisual brasileiro como um espaço de disputa manifestado em estéticas híbridas.
Bibliografia
- AUMONT, Jean-Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas, SP: Papirus, 2004;
DE MARCHI, L.; LADEIRA, J. M. Originais Netflix: um panorama da produção audiovisual da Netflix no Brasil. Revista Famecos, 2019.
KAUFFMANN, Jean-Claude. A entrevista compreensiva: um guia para pesquisa de campo. Petrópolis, RJ: Vozes; Maceió, AL: Edufall, 2013;
NIEBORG, David B.; POELL, Thomas. The platformization of cultural production: theorizing the contingent cultural commodity. New Media & Society, v. 20, n. 11, p. 4275–4292, 2018;
POELL, Thomas; NIEBORG, David; DUFFY, Brooke Erin. Platforms and Cultural Production. Cambridge: Polity Press, 2021;
XAVIER, Ismail. O cinema brasileiro moderno. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001;
_____________. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência,14ª edição –
_____________ Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo, cinema marginal. São Paulo: Cosac Nayf, 2012.