Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lune Pilipczuk (UFPE)

Minicurrículo

    Lune Pilipczuk é pessoa não binária, pesquisadora, escritora e roteirista, atuando na interseção entre narrativa audiovisual, regimes afetivos, crítica decolonial e educação. Graduada em Cinema (FAAP) e mestranda em Comunicação pela UFPE (PPGCOM). Desenvolveu pesquisa crítica ao monomito, publicada na Revista Tapuia (UERJ). Atuou como pesquisadora e roteirista na Totoy, nas séries “José Comilão” e “Sara” (Netflix), e em campanhas com UNICEF. É autora de literatura infantil e mentora de roteiro.

Ficha do Trabalho

Título

    Exclusividade Narrativa: Roteiro Clássico, Monogamia e os Fins de Mundos Possíveis

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Esta comunicação articula a crítica à hegemonia da narrativa clássica no roteiro ao conceito de exclusividade narrativa, como parte de um regime que estrutura a monogamia enquanto dispositivo colonial. Argumento que linearidade, conflito e protagonismo único operam como dispositivos de controle do imaginário, produzindo uma monocultura narrativa que restringe pluralidades e influencia modos de relação e existência. Proponho dissidências ao modelo, afirmando dramaturgias e afetividades múltiplas.

Resumo expandido

    Esta comunicação articula a crítica à hegemonia da narrativa clássica no roteiro cinematográfico ao conceito que nomeio de exclusividade narrativa, compreendido como dimensão de um regime mais amplo de exclusividades (sensorial, emocional, sexual, do cuidado, temporal, financeira, linguística, ideológica e territorial) que proponho para estruturar a monogamia enquanto tecnologia colonial multidimensional de controle de corpos. Tal regime, historicamente marcado por gênero e raça, restringe a experiência do mundo à lógica da fusão a dois. Partindo de uma perspectiva situada (Haraway, 1995), a pesquisa dialoga com autoras decoloniais e críticas da monogamia contemporâneas para sustentar que a dominância da forma narrativa clássica, fundada na linearidade, conflito e competição enquanto força motriz, protagonismo individual e teleologia de começo, meio e fim definidos (Aristóteles, 2015), não é um modelo neutro, mas um dispositivo de controle disciplinar (Foucault, 1987), que cerceia imaginários e modos de relação, constituindo parte do projeto colonial de fins de mundos.
    O roteiro audiovisual é aqui compreendido como semente imagético-sonora: uma matriz que antecipa e condiciona as imagens e sons que virão a compor o mundo sensível e, portanto, as formas de sonhar e fabular futuros possíveis. Em diálogo com Geni Núñez (2023), que comprende a monogamia como uma monocultura colonial que reduz a multiplicidade à forma exclusiva do par, argumento que o monomito e a estrutura clássica operam como uma monocultura narrativa que, ao se apresentar como esqueleto neutro e universal, deslegitimam formas plurais de fabulação de imagens, tempo, afeto e existência. Nesse sentido, a exclusividade narrativa se trata da imposição de uma única forma legítima de narrar, e, portanto, de estar em relação com o mundo.
    A hipótese central sustenta que há uma co-constituição e fortalecimento epistemológico mútuo entre a narrativa clássica e a forma monogâmica: ambas operam por meio da eliminação do múltiplo, da gestão do conflito como motor e da promessa de resolução final. Assim como o casal é narrado como uma unidade coesa que percorre uma trajetória linear rumo a um desfecho estabilizador e padronizado, a dramaturgia clássica estrutura-se pela exclusão de desvios, bifurcações e coexistências. Tudo aquilo que escapa à linearidade, multiplicidades, temporalidades e afetividades dissidentes, é visto como falha ou antagonismo. Em analogia, como propõe Ursula Le Guin (2019), o modelo narrativo hegemônico norteia uma narrativa e cosmovisão de dominação, competitividade e exclusão.
    Proponho compreender a exclusividade narrativa do cinema hegemônico como um regime que atravessa o corpo, regulando suas formas de sentir, imaginar, desejar e se relacionar. O corpo-casal e o corpo-personagem tornam-se, assim, territórios de controle narrativo, nos quais a estabilidade identitária, a transparência emocional e a continuidade temporal são exigidas como condições de legibilidade. Nesse processo, corpos dissidentes, especialmente de mulheres, pessoas dissidentes de gênero, pessoas negras, indígenas e pessoas com deficiência, são historicamente mais intensamente policiados, tendo suas possibilidades de existência e fabulação reduzidas.
    Em diálogo com Paul B. Preciado (2023), argumento que a persistência dessa monocultura narrativa está imbricada ao regime petrossexorracial que sustenta os atuais processos de exaustão e destruição da vida, tensionando a exclusividade narrativa como parte dos fins de mundos produzidos pelo projeto moderno-colonial. Se os extermínios contemporâneos dizem respeito ao fim da pluralidade e de éticas de resistência coletivas, a manutenção de uma única forma narrativa e relacional participam ativamente desse processo ao limitar o que pode ser visto, imaginado e vivido. É urgente o resgate e a reinvenção de mundos narrativos e relacionais, abrindo espaço para dramaturgias-afetividades não lineares, coletivas, fragmentadas e coexistentes.

Bibliografia

    ARISTÓTELES. Poética. São Paulo: Editora 34, 2015.
    FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.
    HARAWAY, Donna. Saberes situados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, Campinas, n. 5, p. 7–41, 1995.
    KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
    LE GUIN, Ursula K. A teoria da bolsa da ficção. In: LE GUIN, Ursula K. A teoria da bolsa da ficção. São Paulo: Editora Elefante, 2019.
    MCKEE, Robert. Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. Curitiba: Arte & Letra, 2006.
    NÚÑEZ, Geni. Descolonizando afetos: experimentações sobre outras formas de amar. São Paulo: Planeta, 2023.
    PRECIADO, Paul B. Dysphoria mundi. São Paulo: Ubu Editora, 2023.
    VASALLO, Brigitte. Pensamento monogâmico, terror poliamoroso. São Paulo: Elefante, 2021.
    VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. 3. ed. Tradução: Petê Rissa