Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Diana de Oliveira Souza Reis (UFBA)

Minicurrículo

    Diana Reis é mestranda no PósCom/UFBA, onde pesquisa a autorrepresentação de lésbicas em documentários brasileiros contemporâneos. É membro do Laboratório de Análise Fílmica (LAF), onde colabora com o Cineclube Nanook, dedicado à exibição de documentários. Coordena o Cineclube Violeta, voltado à divulgação de filmes brasileiros com temática sáfica, e é criadora, produtora e apresentadora do Lesbos Videocast, programa de entrevistas que busca compartilhar as experiências de lésbicas na Bahia.

Ficha do Trabalho

Título

    Autoarquivamento Sapatão: o pessoal e o político na autoetnografia fílmica lésbica brasileira

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Em diálogo com conceitos como inventário lésbico, arquivo de sentimentos e arquivologia, a comunicação propõe a noção de autoarquivamento como uma categoria útil à análise dos documentários autobiográficos lésbicos brasileiros contemporâneos. Analisa-se como dispositivos como narração epistolar e apropriação de arquivo pessoal elaboram uma perspectiva etnográfica e arquivística das narrativas lésbicas no cinema, reconhecendo as imbricações entre pessoal e político na prática do autoarquivamento.

Resumo expandido

    No cinema brasileiro contemporâneo realizado por pessoas auto identificadas lésbicas, o documentário autobiográfico tem atuado enquanto uma força de reelaboração de imaginários e de registro de vivências que por muitos anos foram marginalizadas e invisibilizadas no cinema e na sociedade. O trabalho investigativo acerca dessa filmografia revela uma produção de forte acento ensaístico, feita majoritariamente em curta-metragem e que lança mão da narração em tom epistolar e da apropriação de arquivos pessoais como formas de inscrição destes corpos na política da visibilidade no cinema. Um gesto de disputa e resistência que visa o reconhecimento da importância histórica e política das suas narrativas para a memória coletiva.
    A produção fílmica autobiográfica tem servido particularmente às disputas no âmbito da política da memória. Ao nos debruçarmos sobre a filmografia documental de autoria lésbica notamos a busca por um lugar de autoridade na produção de saber permeada pelo desejo de registrar e arquivar uma perspectiva da história que tem sido excluída do imaginário coletivo acerca deste grupo. As narrativas de si buscam, sobretudo, construir um lugar de alteridade, uma experiência de encontro com o outro a partir do reconhecimento do corpo lésbico como sujeito, na medida em que as próprias autoras compõem este outro a quem se precisa reconhecer como um sujeito dotado de história, direitos e subjetividade.
    Neste sentido, esta comunicação volta-se à análise dos curta-metragens O QUE VOCÊ É sai por todos os lados (2025), de Larissa Lacerda; Cartas pra mim (2022), de Marina Vergueiro, Tá fazendo sabão (2022), de Ianca Oliveira e Uma carta para o meu pai (2021), de Aline Belfort, Rebu: a egolombra de uma sapatão quase arrependida (2020), de Mayara Santana e à beira do planeta minha soprou a gente (2019), de Bruna Barros e Bruna Castro, visando refletir de que modo o uso dos dispositivos mencionados nestes filmes propõem uma autoetnografia (Russell, 1999) da lesbianidade no cinema.
    Parte-se da noção de que na narrativa de si, suas experiências estão imbricadas a acontecimentos políticos e sociais, compondo um arquivo específico que elabora uma crítica à forma como as histórias acerca das lesbianidades têm sido contadas (ou não foram contadas), disputando ainda a própria noção de arquivo. Para tanto, este trabalho parte da ideia de que, o uso de material de arquivo e da narração nestes filmes promovem a elaboração de um inventário lésbico (Souza; Brandão, 2020), um repertório de imagens, gestos, sons e experiências compartilhadas por esse grupo social, que se aproxima da noção de arquivo de sentimentos, elaborado pela pesquisadora Ann Cvetkovich (2003). O valor etnográfico desta produção é evidenciado à medida que as diretoras reconhecem que, ao falar de si, estão também falando sobre aspectos históricos, políticos e sociais que atravessam a sua experiência enquanto lésbicas.
    Defendemos que a produção documental autobiográfica analisada está inscrita em um movimento de autoarquivamento sapatão. Ou seja, uma produção de característica disruptiva que disputa a sua inscrição no imaginário social numa oposição às narrativas consolidadas por meio da interação entre arquivo pessoal e narração epistolar, visando um efeito arquivo (Baron, 2012). O reconhecimento destas narrativas enquanto significativas do ponto de vista histórico e social proporciona uma crítica à historiografia e à arquivística institucional, baseada na produção documental e de conhecimento sobre esse grupo. Sugerimos a nomeação desta prática de autoinscrição como autoarquivamento por compreender que esta produção reivindica um lugar de memória e do registro que se aproxima da noção de arquivologia (Russell, 2018) enquanto uma prática crítica cultural ancorada em vestígios de experiências passadas.

Bibliografia

    BARON, Jamie. O efeito arquivo: Imagens de Arquivo como uma Experiência de Recepção. Lumina 14 (2), 134-157, 2020. 3, 2020.
    CVETKOVICH, Anne. An archive of feelings: trauma, Sexuality, and Lesbian Public Cultures. Durham: Duke UP, 2003.
    RUSSELL, Catherine. Autoethnography: Journeys of the Self. In Experimental ethnography: the work of film in the age of video. Londres: Duke University Press, 1999
    RUSSELL, Catherine. Archiveology: Walter Benjamin and archival film practices. Durham: Duke University Press, 2018.
    SOUSA, R. L. de; BRANDÃO, A. S. Inventário de uma infância sapatão em um mundo de imagens. Revista Brasileira de Estudos da Homocultura, v. 02, n. 03, p. 121-137, 2020.