Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Paulo Souza dos Santos Junior (UFF)

Minicurrículo

    Paulo Souza coordena a área de exposições do CCBB Rio de Janeiro e é pós-doutorando em Cinema e Audiovisual na UFF. Doutor e mestre em Comunicação pela UFPE e especialista em Fotografia e Audiovisual pela UNICAP. Suas pesquisas abordam cinematografia, inteligênciaartificial, fotografia e os efeitos do real no cinema. É pesquisador, fotógrafo documental e realizador audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Desesquecer pela imagem: fotografia, reimaginação histórica e os limites do indicial

Mesa

    Imagens da memória: fotografia, cinematografia e os regimes do íntimo no audiovisual brasileiro

Resumo

    A comunicação discute o Álbum de desesquecimentos (2024), de Mayara Ferrão, à luz da teoria da fotografia, examinando como a obra tensiona a tradição que pensou a imagem fotográfica pelo traço indicial. Produzidas por inteligência artificial generativa, as fotografias reimaginam afetos entre mulheres negras apagados pelos arquivos coloniais, deslocando o regime fotográfico do registro para a reparação simbólica e propondo a IA como prática artística, criativa e discursiva.

Resumo expandido

    O “Álbum de desesquecimentos” (2024), da artista visual soteropolitana Mayara Ferrão, reúne uma série de fotografias geradas por inteligência artificial que reimaginam cenas de afeto entre mulheres negras e originárias. O projeto parte da pesquisa em arquivos coloniais brasileiros e da constatação de que esses arquivos sistematicamente registram corpos negros sob o signo da violência e da subalternidade, mas raramente sob o signo do amor, da intimidade ou da fruição cotidiana. Diante desse silêncio documental, Ferrão recorre à IA generativa não para restituir o que foi, mas para construir imagens daquilo que poderia ter sido, daquilo que existiu, embora tenha escapado ao registro fotográfico. A presente comunicação propõe ler esse gesto a partir da teoria da fotografia, examinando como a obra tensiona categorias clássicas do pensamento fotográfico.

    A teoria da fotografia constituiu-se historicamente em torno do problema da indexicalidade. De André Bazin a Roland Barthes, de Philippe Dubois a Rosalind Krauss, a fotografia foi pensada como traço, marca, impressão luminosa do real, signo cuja particularidade ontológica reside na conexão física entre imagem e referente. Bazin formulou essa singularidade pela ausência do homem na gênese da imagem; Barthes, pelo isso foi que constitui o noema da fotografia; Dubois sistematizou a leitura peirceana da fotografia como índice. A imagem fotográfica seria, segundo essa tradição, ontologicamente distinta da pintura porque incorpora em sua matéria visual a presença passada do que esteve diante da objetiva.

    O álbum de Ferrão se constrói precisamente sobre a ausência desse referente capturado. As cenas que mostra não foram fotografadas porque não puderam ser fotografadas, dado o aparato colonial de visibilidade que selecionava o que merecia registro e o que devia permanecer invisível. As imagens não têm referente real no passado, ainda que o referente histórico, isto é, a possibilidade desses afetos, seja indiscutível. Esse paradoxo coloca a teoria da fotografia diante de uma exigência: ou o trabalho de Ferrão deixa de ser fotografia, ou as categorias clássicas precisam ser ampliadas para acolher imagens que mantêm o estatuto fotográfico sem operar pelo regime indicial.

    A comunicação argumenta pela segunda alternativa. Mary Ann Doane e Lev Manovich já apontaram para a insuficiência da indexicalidade como critério único da fotografia na cultura visual contemporânea. As imagens digitais, mesmo as captadas, são processadas e reconstruídas por algoritmos antes de chegarem ao espectador. A fotografia algorítmica de Ferrão radicaliza essa condição: não é manipulação de captura, é geração sem captura. Mas a obra preserva os códigos visuais, compositivos e enunciativos da fotografia, e é nesse pertencimento ao regime fotográfico que sua força crítica se constitui. As imagens funcionam como fotografias porque convocam o espectador a olhá-las nesse regime, e é desse encontro que emerge o efeito de reparação.

    Daí o duplo deslocamento que a obra opera. Por um lado, desloca a fotografia do regime indicial para o regime da reparação simbólica, exigindo categorias capazes de pensar a fotografia além do traço. A obra dialoga, nesse ponto, com a tese benjaminiana da rememoração contra o esquecimento e com a crítica do arquivo colonial formulada por Achille Mbembe, mas o problema central permanece fotográfico: o que é uma fotografia quando o referente é histórico e não capturado? Por outro lado, desloca a inteligência artificial do regime instrumental para o regime artístico, criativo e discursivo, fazendo da tecnologia ferramenta crítica de reimaginação. Pensar a obra de Ferrão exige que a teoria da fotografia se reformule para acolher imagens que ampliam, sem dissolver, o que entendemos por fotográfico.

Bibliografia

    BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Tradução Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
    BAZIN, André. O que é o cinema? Tradução Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
    BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução Sergio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense, 1985.
    DUBOIS, Philippe. O ato fotográfico e outros ensaios. Tradução Marina Appenzeller. Campinas: Papirus, 1993.
    FERRÃO, Mayara; SOUSA, Fernanda Silva e. Álbum de desesquecimentos. Revista ZUM, São Paulo, n. 27, jan. 2025.
    MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.