Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcelo Rodrigues Souza Ribeiro (UFBA)

Minicurrículo

    Marcelo R. S. Ribeiro é professor de História e Teorias do Cinema e do Audiovisual desde 2017, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, onde é também docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Coordena o GAS – grupo (an)arqueologias do sensível (gas.ufba.br) e o Laboratório Experimental (An)arqueologias do Sensível, mantém o incinerrante.com e pesquisa cinemas africanos, arquivo e descolonização, entre outros temas.

Ficha do Trabalho

Título

    IAG como especulação: dataficação, dataficção, datafricção

Mesa

    Cinema e tecnologias da imagem: ontologia, especulação, dataficação e Inteligência Artificial

Resumo

    As diferentes modalidades tecnológicas da chamada Inteligência Artificial Generativa (IAG) apresentam uma irredutível dimensão especulativa, seja porque seu desenvolvimento têm como fundamento investimentos de capital especulativo, ou porque suas operações instauram regimes imaginativos de especulação, baseados na geração probabilística de imagens. Se a especulação sobre e com a IAG depende da dataficação do mundo, os regimes imaginativos que instaura operam entre dataficção e datafricção.

Resumo expandido

    Seja em seu sentido financeiro, como uma aposta em relação ao futuro, seja em seu sentido ficcional, como uma prática imaginativa, a noção de especulação tem sido objeto de renovado interesse nos debates contemporâneos, em geral, e se revela crucial para o campo dos estudos de cinema e audiovisual, em particular, especialmente quando se considera o advento da chamada Inteligência Artificial Generativa (IAG). Considerando a complexidade da “história cultural” da especulação (Rogers, 2021) e sua relação com os horizontes utópicos e realidades distópicas da modernidade e suas ruínas pós-modernas no capitalismo tardio (Jameson, 2021), esta comunicação discute a IAG como especulação, interrogando seus fundamentos contingentes, suas dinâmicas de operação e suas derivas de sentido.

    Para interrogar os fundamentos contingentes da IAG como especulação, retomo o conceito de dataficação (Lemos, 2021; Mejias, Couldry, 2025), procurando identificar e caracterizar as condições de possibilidade da transformação do mundo em dados quantificáveis e da criação de valores a partir dessa quantificação e de sua captura em redes de mensuração e predição probabilística de ações, comportamentos e conhecimentos. Entre essas condições de possibilidade, que são atravessadas pelos movimentos especulativos do capital financeiro, destacam-se reconfigurações das formas de exploração do trabalho humano na construção e processamento de datasets, assim como no “treinamento” dos modelos hegemônicos de aprendizagem de máquina que subjazem às plataformas mais difundidas de IAG (Steyerl, 2023). Também são fundamentais, para a dataficação do mundo, diversas modalidades de “impacto ambiental” da IA, relacionado ao consumo de energia necessário para a operação (e o resfriamento) dos datacenters acionados por cada prompt e à intensificação da extração como regime de relação com o mundo.

    Para interrogar as dinâmicas de operação da IAG como especulação, situo a IAG em uma “linha geral” de “máquinas de imagens” (Dubois, 2004) e parto de uma caracterização inicial de sua “estética” (Manovich, Arielli, 2023) como conectada a gêneros, métodos e movimentos artísticos anteriores em seu mecanismo generativo. Questionando parcialmente essa caracterização, discuto os regimes imaginativos da IAG, baseados na dataficação e na geração probabilística de imagens, por meio da proposição do conceito de dataficção. Reconhecível de modo mais imediato na miríade de formas de “alucinação” de que se tem notícia, a dataficção constitui o regime imaginativo da IAG como máquina anarquívica especulativa, na qual arquivos convertidos em datasets (isto é, mundo dataficado) são reconfigurados a cada vez, a cada prompt, em resultados variáveis que reintroduzem, no mundo inicialmente dataficado para a operação da IAG, a especulação da dataficção, conduzindo, assim, ao reconhecimento de que a alucinação e o delírio não constituem a exceção, mas a regra das dinâmicas de operação da IAG.

    Para interrogar as derivas de sentido da IAG, discuto a ambivalência de sua operação como máquina anarquívica, considerando alguns usos artísticos especulativos da IAG em obras de artistas contemporâneos como Mayara Ferrão, Felipe Rivas San Martín, Rafael de Almeida, entre outros exemplos possíveis. Se a IAG decorre da dataficação do mundo e opera com base na dataficção como regime imaginativo, alguns de seus usos artísticos aspiram a uma perspectiva crítica em relação ao funcionamento dessas tecnologias. Argumento que, nesse desejo de crítica e questionamento, está em jogo a possibilidade (a alucinação instigante, o sonho delirante, em um sentido diferente dessas noções que ainda será preciso elaborar) da datafricção, isto é, do tensionamento da dataficação e da dataficção.

Bibliografia

    BAHNG, Aimee. Migrant Futures: Decolonizing Speculation in Financial Times. Durham: Duke University Press, 2018.

    DUBOIS, Philippe. Máquinas de imagens: uma questão de linha geral. In: DUBOIS, Philippe. Cinema, vídeo, Godard. Tradução: Mateus Araújo Silva. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 31-67.

    JAMESON, Fredric. Arqueologias do futuro: o desejo chamado utopia e outras ficções científicas. Tradução: Carlos Pissardo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2021.

    LEMOS, André. Dataficação da vida. Civitas: revista de Ciências Sociais, v. 21, n. 2, p. 193-202, 2021.

    MANOVICH, Lev; ARIELLI, Emanuele. Imagens IA e mídias generativas: notas sobre a revolução em curso. Revista Eco-Pós, v. 26, n. 2, p. 16-39, 2023.

    MEJIAS, Ulisses Ali; COULDRY, Nick. Dataficação. E-Compós, v. 28, 2025.

    ROGERS, Gayle. Speculation: a cultural history from Aristotle to AI. New York: Columbia University Press, 2021.

    STEYERL, Hito. Mean Images. New Left Review, n. 140/141, p. 82-97, 2023.