Ficha do Proponente
Proponente
- Renata Cavalcante de Oliveira (UFC)
Minicurrículo
- Pesquisadora e realizadora audiovisual. Doutoranda em Comunicação Social, com foco em cinema e audiovisual, pela Universidade Federal do Ceará (PPGCOM/UFC), com período de doutorado sanduíche na Pontificia Universidad Javeriana, em Bogotá. Mestra em Poéticas da Criação e do Pensamento em Artes pela UFC.
Ficha do Trabalho
Título
- Território e Tempo nas Periferias: a materialidade do invisível diante do Street View e da IA
Resumo
- A pesquisa investiga os regimes de visibilidade das periferias no Google Street View, tensionando a noção de “imagem probabilística” com a persistência do invisível. Frente ao extrativismo de dados da IA, questiona-se o que escapa ao arquivamento técnico: o afeto, a memória e a espessura temporal do território. Propõe-se, assim, um desaprendizado do olhar algorítmico, buscando vestígios que resistem à síntese e reabrem a imaginação do mundo.
Resumo expandido
- O Google Street View é tomado como um dispositivo paradigmático de visão de máquina, responsável por produzir uma cartografia automatizada e aparentemente neutra dos territórios. Nas periferias brasileiras, essa tecnologia inscreve uma lógica de visibilidade que responde ao projeto moderno de ordenação do mundo: segmentar, mensurar e estabilizar o espaço em dados. Ao integrar essas paisagens a um sistema global de indexação, o Street View atua como uma ferramenta de racionalização que reduz a complexidade territorial a superfícies navegáveis, alinhando-se a uma epistemologia que separa sujeito e objeto, observador e mundo.
O invisível e a falha técnica
No entanto, essa operação nunca é total. A pesquisa se concentra precisamente no que escapa a essa captura: aquilo que a inteligência artificial não consegue arquivar. Enquanto os sistemas algorítmicos operam por médias, padrões e previsibilidade, os territórios periféricos se constituem por singularidades, desvios e improvisações. Nesse sentido, as falhas do Street View — borrões, descontinuidades, erros de costura, presenças espectrais — deixam de ser ruídos para se tornarem indícios. São marcas de uma vida que excede a lógica da computação. Assim como certas práticas experimentais buscaram uma relação direta com o real fora da mediação técnica tradicional, aqui o interesse recai sobre as fissuras do arquivo digital como zonas onde o visível se desorganiza e o mundo insiste em não se deixar traduzir integralmente.
Conflito de tempos
Essa tensão revela também um conflito entre regimes temporais. O tempo do algoritmo é o da atualização constante, da substituição e do descarte: imagens são capturadas, processadas e rapidamente tornadas obsoletas. Já o tempo das periferias é marcado pela sedimentação, pela memória incorporada nos espaços, pelos vínculos afetivos e pelas continuidades invisíveis. O Street View, ao atravessar esses territórios de maneira rápida e episódica, não apreende essa espessura temporal. O que se perde não é apenas informação, mas densidade histórica: narrativas, experiências e camadas de vida que não se deixam reduzir a instantes capturados.
Conclusão
Diante disso, a pesquisa propõe um gesto crítico: desaprender a ver através dessas imagens técnicas. Trata-se de recusar a transparência aparente do dado e reconhecer seus limites como forma de conhecimento. Ao deslocar o olhar para os vestígios, falhas e opacidades, abre-se a possibilidade de reinscrever o território como um campo vivo, atravessado por afetos e histórias que escapam à lógica extrativista. Ver além do arquivo algorítmico torna-se, então, uma prática de reinvenção: não apenas do modo como percebemos as periferias, mas dos próprios mundos que podemos imaginar a partir delas.
Bibliografia
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