Ficha do Proponente
Proponente
- sofia hellmeister de paiva (FAAP)
Minicurrículo
- Sofia Hellmeister de Paiva é graduada em artes cênicas pela Escola Célia Helena (ESCH). Graduanda em cinema pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) desde de 2024. Estagiou por um ano na companhia de teatro Ueinzz regida por Peter Pál Pelbart. Fez assistência na peça “Como surgiu a noite” da companhia Uma Sombras, regida por Urga Maira e Silvana Marcondes e faz parte do grupo de estudos regido pela Marina Caron “Corpo Transborda”.
Ficha do Trabalho
Título
- Performances corporais e o registro das culturas afrodiaspóricas no cinema
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- A partir dos cruzamentos entre o filme de Ana Pi, “Noir Blue” (2018) e o livro de Leda Maria Martins “Performances do tempo espiralar- poéticas do corpo-tela” (2021), busco compreender as performances corporais dos povos afrodiásporicos como forma de resgate, registro e criação cultural. Tendo como hipótese: a investigação da funcionalidade do filme de Ana Pi tal qual a do corpo performático, um corpo-filme que resgata, registra, cria e anarquiva (SELIGMAN,2014;p.35) culturas afrodiásporicas.
Resumo expandido
- A presente comunicação pretende analisar os cruzamentos entre o filme de Ana Pi “Noir Blue” (2018) e o livro de Leda Maria Martins “Performances do tempo espiralar- poéticas do corpo-tela” (2021). Busco assim compreender as performances corporais como um instrumento de resgate, registro, criação e sobrevivência cultural dos povos afrodiaspóricos. A partir desse diálogo, almejo destacar os principais pontos de interseção entre a obra fílmica e a reflexão teórica, tensionando a seguinte hipótese: em que medida “Noir Blue” pode ser pensado como um “corpo-filme”? Ou ainda, como o filme atualiza, em sua materialidade estética e performativa, a noção de “corpo-tela” (MARIA MARTINS,2021;p.77) formulada por Leda Maria Martins, na qual as performances corporais se constituem como operadoras de memória, temporalidade e inscrição histórica para os povos afrodiaspóricos?
Segundo Leda Maria Martins a palavra falada é uma potência privilegiada de registro e memória cultural para grande parte dos povos africanos. A partir desse entendimento, compreende-se seu conceito “oralitura” (MARIA MARTINS,2021;p.92) como uma fala viva, poética, porosa e mutável, capaz transfigurar imaginários históricos projetando o por vir. Busco investigar de que forma a narração de “Noir Blue” se configura como “oralitura” e, considerando as diferenças estruturais entre o cenário ritualístico coletivo dos exemplos de “oralitura” usados por Leda Maria Martins, em oposição a narradora aparentemente solitária do filme de Ana Pi, compreender tais diferenças e quais são as suas consequências na realização do filme. Lançado o desafio, as questões tornam-se incontornáveis: Seria então, o silêncio, que ocupa grande parte do campo sonoro, uma disritmia temporal? A individualização da narração é uma abdicação do coletivo ou outra forma de coletivizar o enunciado a partir da desestabilização da noção eurocêntrica de sujeito? Trataria-se portanto de um atestado do desencontro cultural, agora encontrado ou o atestado do desencontro em movimento, incitando o por vir, tal qual a oralitura?
Ana Pi descreve a câmera como um “corpo eletrônico” (PI;2026), no qual é possível se ver, entender melhor o que foi feito e refazer. Leda Maria Martins descreve o corpo como “corpo-tela”, corpo que, pela repetição de movimentos compartilhados, significantes para a cultura de povos afrodiaspóricos, é um corpo imagem, “uma memória de memórias” (SAIMAN, 2012; p.26). Partindo do pressuposto de que o corpo performático da Ana Pi é um corpo-tela pretendo investigar de que maneira o conceito de “corpo-tela” interligar-se com o entendimento da câmera “corpo eletrônico”, sugerindo a possibilidade de uma câmera que, igual ao “corpo-tela”, se dá como um registro e, ao mesmo tempo, uma memória viva em construção.
Por fim, identifico que a montagem de “Noir Blue” deve se estruturar como os temas recorrentes das filosofias de grande parte dos povos afrodiaspóricos: o tempo espiralar. Observo, no filme de Ana Pi, o uso da câmera lenta, justaposição de imagens e efeito reverso como possíveis técnicas utilizadas para exemplificar de forma experienciada o tempo espiralar. Tempo em constante convívio com os ancestrais (presentes em tudo que existe e é vivo), a partir de movimentos de contração e descontração, retornos e futuros, vai e volta. Nestes termos, investigar se o filme de Ana Pi funcionaria como um “corpo-eletrônico” de sua experiência performática que simultaneamente é e experiência junto dela o tempo, o som e tudo que a abarca, sendo assim, um possível “corpo-filme” que resgata, registra, cria e ”anarquiva”(SELIGMAN,2014;p.35) memórias das filosofias afrodiaspóricas.
Bibliografia
- MARIA MARTINS, Leda. Performances do tempo espiralar- poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
SELIGMAN- SILVA, Martim. Sobre o anarquivamento – um encadeamento a partir de Walter Benjamin. São Paulo: Iluminuras/FAPESP, 1999.
SAMAIN, Etienne. Como pensam as imagens. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.
NOIR Blue. Direção de Ana Pi. Paris, França: Independente, 2018. You Tube.