Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcus Vinicius Diniz de Lima (UEG)

Minicurrículo

    Cineasta e artista visual, graduando em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás. Com presença no circuito nacional, destacam-se as exposições coletivas e festivais de cinema. Dirigiu os documentários BENDITO SEJA O BECK (2024), O que as formigas me contaram (2026) e finaliza Domingo à Noite é um Pesadelo.

Ficha do Trabalho

Título

    A reinscrição do arquivo em A Morte Branca do Feiticeiro Negro: da estética do fragmento à fabulação

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O presente trabalho investiga as articulações entre arquivo e fabulação crítica no filme-ensaio A morte branca do feiticeiro negro (Rodrigo Ribeiro-Andrade, 2020), sob a ótica da estética do fragmento. Partindo da premissa de que o arquivo da escravidão é marcado por lacunas e silenciamentos, analisa-se como a montagem intervalar permite a emergência de uma subjetividade negra interditada, transformando o vestígio da morte em uma imagem-pensamento que tensiona o presente.

Resumo expandido

    Através deste estudo, propõe-se uma reflexão crítica sobre as articulações entre arquivo e enunciação no filme-ensaio contemporâneo, tomando como objeto central o curta-metragem “A morte branca do feiticeiro negro” (2020), de Rodrigo Ribeiro-Andrade. A obra mobiliza o rastro de uma carta de suicídio escrita por um homem negro escravizado em 1870, utilizando este vestígio não como prova histórica plena, mas como um campo de forças para investigar a subjetividade negra interditada. Com o interesse de compreender o papel da montagem intervalar nesse contexto, investiga-se como o filme-ensaio reconstrói e potencializa o pensamento sobre o apagamento colonial, tensionando os limites entre o documento e a fabulação.
    A análise debruça-se sobre a construção formal de “A morte branca do feiticeiro negro”, na qual a carta de Tiago é apresentada por meio de lampejos, recusando uma leitura linear do documento em favor de uma fragmentação sobreposta a imagens de névoa e ruínas. Essa organização visual e técnica responde ao conceito de “mal de arquivo” (Derrida, 2001), partindo do pressuposto de que o acesso integral e transparente ao passado é impossível. A montagem por intervalos opera como o mecanismo central que viabiliza a fabulação crítica, utilizando o found footage e a justaposição de fotografias etnográficas do século XIX com paisagens contemporâneas vazias para praticar o “olhar opositor” (hooks, 2020). Assim, a forma ensaística e o uso de materiais de arquivo permitem que a escrita de Tiago emerja não como um objeto de estudo estático, mas como uma enunciação viva que, através da fragmentação e da montagem, recupera a sua humanidade e tensiona a história oficial.
    A reinscrição ética do arquivo colonial em “A morte branca do feiticeiro negro” torna-se possível na medida em que os fragmentos de imagem atuam, conforme propõe Rafael de Almeida (2024), como verdadeiros “fragmentos de pensamento”. A crítica colonial operada por Ribeiro-Andrade materializa-se, portanto, no uso radical do found footage: ao fragmentar o suporte histórico e remontá-lo sob a lógica ensaística, o filme subverte o poder institucional do arquivo e abre fendas para a fabulação crítica de Saidiya Hartman (2020). É nessa fricção constante entre materiais heterogêneos que a imagem deixa de ser uma evidência do “comando” oficial para converter-se em instrumento de insurgência, permitindo que a enunciação subjetiva ocupe as lacunas do silenciamento e pratique o “olhar opositor” de bell hooks.
    Pretende-se, por fim, compreender como “A morte branca do feiticeiro negro” se caracteriza e se beneficia de um pensamento ensaístico construído através da fricção entre o arquivo e a fabulação, diferenciando-se de abordagens documentais clássicas ao borrar os limites entre o registro e a imaginação. A análise revela que a reinscrição do arquivo, operada pela montagem de found footage, não busca uma cura impossível para o trauma histórico, mas sim a garantia do direito à opacidade e à subjetividade do indivíduo escravizado. Conclui-se que o gesto de fragmentar a carta de Tiago e dispersá-la por entre imagens de ruína e natureza constitui um imperativo ético: ao assumir que o arquivo é um lugar de falha, o filme permite que a enunciação negra emerja não como um dado do passado, mas como uma imagem-pensamento insurgente que reivindica autonomia no presente. Assim, a estética do fragmento consolida-se como um gesto de fabulação capaz de transformar o vestígio de uma morte interditada em uma prática de liberdade que ressoa para além das bordas do arquivo oficial.

Bibliografia

    ALMEIDA, Rafael. Filme-ensaio: por uma estética do fragmento ou quando as imagens pensam. Intexto, Porto Alegre, UFRGS, n. 56, e-136459, 2024.
    ​DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
    ​HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, p. 12-33, 2020.
    ​HOOKS, bell. Art on my mind: visual politics. New York: The New Press, 1995.
    ​RIBEIRO-ANDRADE, Rodrigo. A morte branca do feiticeiro negro. (Curta-metragem). Brasil, 2020. (10 min).