Ficha do Proponente
Proponente
- Gustavo de Souza Araujo (PPGCINE-UFF)
Minicurrículo
- Doutorando no Programa de Pós-graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense. Estuda temporalidades na escrita do roteiro audiovisual, por meio da percepção de ritmo e andamento prévios e de como esses elementos impactam a relação roteiro-filme.
Ficha do Trabalho
Título
- Tempo inscrito, escrita e duração em Cinco da tarde, de Eduardo Nunes
Resumo
- A presente comunicação investiga de que modo a escrita do roteiro pode carregar uma ideia de tempo lento. Partindo de uma análise que trata essa escrita como trajetória estilística (Maras, 2023), tomamos como objeto o roteiro e o filme Cinco da tarde (2023), de Eduardo Nunes, em cotejo com análises anteriores de sua filmografia, na busca por recursos textuais que inscrevem uma duração desde no roteiro.
Resumo expandido
- O roteiro ocupa uma posição inicial no processo de criação audiovisual, situado entre a palavra escrita e a imagem e o som em movimento. Assim, ele opera simultaneamente como projeto, texto narrativo e dispositivo de imaginação do filme por vir. Embora seja central para a produção cinematográfica, o tema foi, por um tempo, negligenciado pela academia, sendo muitas vezes tratado apenas como um documento técnico (Carriere, 2015; Gonçalo, 2024). Coral Cruz (2014) compara a escrita do roteiro a dar vida às imagens que habitam a mente, por meio da memória e da imaginação, como se fossem um sonho. Nesse sentido, a escrita e a leitura de uma cena envolvem uma criação mental antecipadora do filme (Igelström, 2014), num processo contínuo de invenção em que a cena passa do pensamento à palavra.
Quando consideramos a escrita das cenas, algumas palavras ou a disposição das frases na página podem criar expectativas temporais. No entanto, a temporalidade no cinema foi tradicionalmente investigada no filme finalizado, seja pela mise-en-scène, pela montagem ou pela experiência do espectador (Franco, 2010; Monteiro, 2017). Nesse percurso, a escrita do roteiro tende a ser tratada como etapa anterior, cuja função se esgota em ordenar ações e diálogos. Essa compreensão deixa em segundo plano o papel que a própria escrita exerce na imaginação do ritmo e da duração; e é desse ponto que parte esta comunicação.
A lentidão raramente é declarada no roteiro, considerando que a maior parte dos manuais que tratam da escrita roteirística busca, de alguma maneira, validar a objetividade e o foco no que pode ser captado pelos dispositivos cinematográficos. Isso nem sempre contribui para a mobilização de elementos textuais que insinuam tempos mais longos, como o detalhamento de uma rubrica. (Cruz, 2014), a extensão das ações, o silêncio. Além disso, se a construção do espaço e da mise-en-scène se dá desde o roteiro (Levy, 2021), a descrição de um ambiente age diretamente sobre a percepção do tempo na escrita, ao antecipar o que no filme se manifesta como suspensão ou contemplação. Essa relação interessa especialmente quando o objeto é uma cinematografia de ritmo lento (De Luca, 2017; Monteiro, 2017), em que planos longos e silêncios são escolhas estéticas deliberadas. A questão central desta etapa de pesquisa é investigar de que modo essas escolhas já estão inscritas no texto audiovisual, por meio de uma análise que trata essa escrita como uma “trajetória estilística” (Maras, 2023).
Esse processo não é neutro, pois a escrita da pessoa roteirista coloca a cena num campo de indeterminação que só encontra estabilidade no encontro com a encenação (Cruz, 2014). Dessa forma, o filme pode ser compreendido como uma versão imaginada do roteiro e a relação entre os objetos pode variar entre a fidelidade e a transformação significativa. É nessa variação que se revelam as esconlhas autorais de incorporar ou não, já na escrita, uma ideia de duração para a cena.
Para investigar essas questões, tomamos como objeto o roteiro e o filme Cinco da tarde (2023), de Eduardo Nunes. Identificamos, em análises anteriores de outros filmes de Nunes, elementos na escrita, como advérbios de modo indicando cadência, que apontam para uma possível tradição de estilo. Em Cinco da tarde, por ser um roteiro de autoria própria de Nunes, sem texto-fonte, as escolhas de escrita recaem inteiramente sobre o autor-cineasta. Assim, buscamos desenvolver a questão de como a autoria desse cineasta permite (ou não) a identificação dessas escolhas.
Compreendido como obra com autonomia (Nanicelli, 2021), o roteiro será analisado em cotejo com o filme finalizado, na busca por recursos textuais que carregam uma ideia de ritmo e projetam uma duração; indícios de como o tempo lento se inscreve antes do movimento.
Bibliografia
- CRUZ, Coral. Imágenes narradas. Cómo hacer visible lo invisible en un guión de cine. Barcelona: Laertes, 2014.
DE LUCA, Tiago. “On Length: A Short History of Long Cinema”. Aniki, v. 4, p. 335-352, 2017.
GONÇALO, Pablo. Arqueologia especulativa: metodologia e tipologia de roteiros não filmados. Revista FAMECOS, [S. l.], v. 31, n. 1, p. e44723, 2024.
IGELSTRÖM, Ann. Narration in the screenplay text. Tese apresentada no College of Arts and Humanities da Bangor University em Londres, 2014.
MARAS, Steven. Algumas posturas e trajetórias da pesquisa em roteiro. In: Roteiro Audiovisual: estudos contemporâneos. Editora PUC-Rio; São Paulo: Edições Loyola Jesuitas, 2023. p. 55-70.
MONTEIRO, Lúcia Ramos. “O cinema existe e resiste. Longa duração, análise fílmica e espectatorialidade nos filmes de Lav Diaz”. Aniki:, v. 4, p. 434-455, 2017.
NANNICELLI, T. (2021). Seria o roteiro uma obra de arte?. Esferas, 1(21), 28-46, 2021.