Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alexandre Rafael Garcia (Unespar)

Minicurrículo

    Alexandre Rafael Garcia é bacharel em Cinema (FAP-PR), mestre em Multimeios (Unicamp) e doutor em História (UFPR). Professor na Universidade Estadual do Paraná–Unespar (Bacharelado em Cinema e Audiovisual; PPG-CINEAV). Autor do livro “Contos morais e o cinema de Éric Rohmer” (A Quadro, 2021); coordenador editorial da Coleção Escrever o Cinema; criador da série Dicionário de Cinema. Integrante do grupo de pesquisa Cinecriare: Cinema – Criação e Reflexão (Unespar/CNPq).

Ficha do Trabalho

Título

    Teoria de cineastas divergentes: alguns exemplos

Seminário

    Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema

Resumo

    Enquanto o modelo tradicional de produção cinematográfica se organiza em torno de hierarquia, controle e fragmentação do trabalho, há cineastas que deliberadamente produzem em desajuste com esse modelo normativo, realizando projetos menores, mais flexíveis e colaborativos. A partir de relatos e declarações de cineastas como Éric Rohmer, Hong Sang-soo e Cristiane Ventura, propõe-se uma teoria de cineastas que se contrapõem ao modelo hegemônico de longas-metragens narrativos ficcionais.

Resumo expandido

    Os manuais de produção cinematográfica tendem a descrever o modelo tradicional de realização de longas-metragens ficcionais narrativos como um sistema estruturado em fases sequenciais, baseado em planejamento prévio rigoroso, divisão hierárquica de funções e controle integral dos processos. Esse modelo, amplamente difundido e normatizado, estabelece parâmetros de funcionamento que se consolidaram como hegemônicos na prática cinematográfica.
    No entanto, é possível identificar um conjunto de cineastas de longas-metragens ficcionais narrativos em desacordo com esse paradigma, não por limitação técnica ou orçamentária, mas por escolha deliberada. São modos de produção divergentes, que implicam outras relações com o tempo, com a equipe, com o planejamento e com o próprio ato de filmar. Esta comunicação propõe apresentar relatos e manifestações de três casos exemplares, cujas práticas evidenciam divergências frente a um modelo normativo, como posição consciente de teoria e prática.
    No caso de Éric Rohmer, em suas tentativas iniciais de inserção em um sistema de produção mais profissionalizado, com “O signo do leão” (1959/1962), relatos apontam para um desajuste no funcionamento do set típico: dificuldade de comunicação com a equipe, inadequação ao papel de liderança esperado do diretor e desconforto diante do grande número de pessoas na equipe, em uma estrutura rígida e hierarquizada. A partir dessa experiência, Rohmer desenvolveu um modo de produção diferente, baseado na redução progressiva das equipes, na cumplicidade e na eliminação de funções consideradas não essenciais.
    Situação semelhante pode ser observada na trajetória de Hong Sang-soo. Seus primeiros filmes, realizados a partir de 1996, seguiam padrões mais convencionais, com roteiros completos, financiamento prévio e grandes equipes subdivididas em departamentos. No entanto, ao longo dos anos 2000, o cineasta promove uma transformação radical no método de trabalho. A partir de “Conto de cinema” (2005), Hong passa a trabalhar com equipes cada vez menores, ausência de roteiro prévio e filmagens organizadas a partir de escrita diária durante a produção. Em declarações posteriores, ele afirmou: “Por nada no mundo eu gostaria de voltar às produções mais engessadas do início da minha carreira: com esse método leve, eu só tenho que me concentrar nas coisas que me interessam e trabalhar com as pessoas que amo.” (Hong, 2012).
    No Brasil, temos o exemplo da cineasta e pesquisadora Cristiane Ventura, cuja investigação sobre “filmes híbridos” articula reflexão teórica e prática cinematográfica. Em sua tese de doutorado, Ventura propõe modos de produção baseados em relações comunitárias, colaboração e abertura ao processo. Ao relatar a gênese de seu filme, “Cambaúba” (2023), destaca o compartilhamento inicial da proposta com amigas vizinhas, mesmo sem um projeto plenamente definido, e a construção coletiva da obra. Ela reconhece que seu projeto não segue os padrões do cinema profissional ou industrial, mas afirma o valor desse outro regime de produção, mais próximo da vida cotidiana e das experiências comuns. Neste processo de realização, não há “dedicação exclusiva” da equipe às filmagens. Dentre as entrevistas realizadas por Ventura para a tese, encontramos a afirmação de André Novais Oliveira, que reforça o desajuste ao regime de trabalho tradicional, marcado por seguidas diárias cheias e com muitas pessoas na equipe: “eu fico extremamente cansado no set de filmagem, fico com a cabeça muito zoada”.
    Esses relatos e declarações permitem pensar a existência de um campo de práticas cinematográficas que se afastam propositalmente do modelo hegemônico. A divergência, nesse caso, é uma posição programática. Ela implica a invenção de outras formas de fazer cinema, capazes de acomodar diferentes comportamentos, diferentes modos de trabalho e diferentes relações com o processo criativo.

Bibliografia

    DE BAECQUE, Antoine; HERPE, Noël. Éric Rohmer: biographie. Paris: Stock, 2014.

    HONG, Sang-soo. Entrevista a Vincent Malausa. In: MALAUSA, Vincent. Flâner avec Hong Sang-soo. Cahiers du Cinéma, Paris, n. 682, p. 8–12, out. 2012.

    IKEDA, Marcelo. Das garagens para o mundo. Porto Alegre: Sulina, 2024.

    GARCIA, Alexandre Rafael. Contos morais e o cinema de Éric Rohmer. 2. ed. Curitiba: A Quadro, 2021.

    MELLO, Jamer Guterres de; RODRIGUES, Carla Daniela Rabelo; CARVALHO, Marcelo; BASTOS, Thalita Cruz (Orgs.). Processos de criação e reflexões teóricas no cinema. São Paulo: Gênio Editorial, 2024.

    LIM, Dennis. Tale of Cinema. New York: Columbia University Press, 2016.

    VENTURA, Cristiane Moreira. A performance do ator-personagem na cinematografia de narrativa híbrida brasileira: processos criativos, ritualidades e transformações. 2023. Tese (Doutorado em Performances Culturais Interdisciplinar) – Faculdade de Ciências Sociais, Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2023.