Ficha do Proponente
Proponente
- Maria Leite Chiaretti (USP)
Minicurrículo
- Maria Chiaretti é pesquisadora e curadora de cinema/audiovisual. É mestre em Teoria e História do Cinema pela Université Paris 8 Vincennes/Saint-Denis e doutora pela ECA-USP, onde desenvolveu pesquisa sobre cineastas improvisadores dos anos 1960-70 sob orientação de Ismail Xavier. Entre 2009-2010, programou o Cine Humberto Mauro (Belo Horizonte). Curou e produziu diversas mostras para espaços como o CCBB, Caixa Cultural e CineSesc, tais como de Kiarostami, Garrel e irmãos Lumière.
Ficha do Trabalho
Título
- Contraficção e reencenação em Mato seco em chamas e A transformação de Canuto
Seminário
- Estudos Comparados de Cinema
Resumo
- A comunicação analisa comparativamente Mato seco em chamas (2023) e A transformação de Canuto (2023) a partir das noções de reencenação e contraficção. Sustento que ambos os filmes tensionam as fronteiras entre real e ficcional, sob uma perspectiva decolonial. E, com base nas pesquisas sobre reencarnação e limites da ficção, argumento que a performance dos atores/atrizes (que articula corpo e persona) aliada à forma desconcertante das filmagens, parecem renovar o cinema brasileiro contemporâneo.
Resumo expandido
- Nesta comunicação, proponho uma análise comparativa a partir das noções de contraficção e reencenação nos filmes Mato seco em chamas (2023), de Adirley Queirós e Joana Pimenta, e A transformação de Canuto (2023), de Ariel Kuaray Ortega e Ernesto de Carvalho. Ambos os filmes que apostam na reencenação como motor narrativo, de uma lado temos a história das Gasolineiras de Kebrada na comunidade do Sol Nascente, na Ceilândia, e de outro, a história de Canuto, o homem-onça que viveu em uma comunidade do povo Mbyá-Guarani. Como escreve André Brasil sobre Canuto, “mais do que representar, recontar ou reconstituir a história de Canuto, trata-se de tornar a ficção e o filme no lugar onde ela será novamente, de algum modo, experienciada, presentificada.” A dimensão da experiência na reencenação, que aposta em uma transformação da ficção que passa pelo protagonismo dos atores e atrizes, será uma importante baliza para a análise.
Creio que os filmes podem ser interpretados como exemplos de rompimento com formas de ficção forjadas pelo pensamento e uma prática cinematográfica ocidental, advogando pela libertação dos corpos em cena como forma ou a partir de uma estética decolonial. E inspirada pela noção contracolonial forjada por Nêgo Bispo, proponho pensarmos os filmes a partir da contraficção. Ou seja, pensar como nos dois casos a ficção é usada justamente para tensionar o real. Ao mesmo tempo, a realidade se oferece como matéria para a ficção. Esse jogo cria um espaço de indiscernibilidade, no qual tais forças atuam nos limites, e estabelece-se uma ruptura com as bases da narrativa “clássica”, já esgarçadas pelo cinema moderno.
É tomando essa mirada decolonial como inspiração que pretendo desenvolver as análises compreendendo o ator como forma fílmica, isto é, como elemento constitutivo da linguagem cinematográfica. Como argumenta Guimarães em O ator como forma fílmica, meu objetivo nas análises é o de compreender o trabalho do ator a partir de dois eixos complementares: o corpo e a persona. O corpo abrange os gestos, posturas, voz e presença física em cena, isto é, o jogo concreto do ator; já a persona diz respeito à dimensão simbólica e pública de sua imagem — o modo como é percebido socialmente, tanto dentro quanto fora da ficção. Assim, a performance é vista não apenas como resultado da aplicação de técnica de interpretação, mas como lugar de tensão entre o indivíduo e o papel, entre a materialidade do corpo e as convenções do discurso fílmico. Em se tratando de filmes que, em sua maioria, colocam em relação atores que já tinham uma carreira pregressa com outras pessoas que estão atuando pela primeira vez, o lugar dessa tensão fica patente.
Partimos dos estudos de Ivone Margulies, reunidos em In Person: Reenactment in Postwar and Contemporary Cinema, em que ela analisa o papel da reencenação/reenactment no cinema do pós-guerra e contemporâneo, e propõe que essa prática constitui não apenas uma técnica narrativa, mas também um dispositivo ético, estético e político. Margulies define a reencenação “em pessoa” como a situação em que alguém reencena o próprio passado diante da câmera. Diferente das reconstituições históricas ou ficcionais, essa forma parte da experiência pessoal e envolve uma dimensão de autoperformance. Esta reencenação pessoal não serve apenas para representar a realidade, mas para transformá-la. O reenactment carrega um “ímpeto ativista”, pois busca não só retratar “realidades sociais contestadas”, mas também produzir mudança social. Assim, o cinema de reencenação revela a dimensão ética da performance, na medida em que o sujeito, ao revisitar seu passado, produz uma narrativa coletiva de reparação, memória e testemunho.
Pesquisadores que se debruçaram sobre o cinema brasileiro contemporâneo já frisaram uma marca desta produção que borra as fronteiras do real e do ficcional. Nesse sentido, acredito que as análises comparadas dos filmes escolhidos permitirão uma nova visada para repensar o cinema brasileiro recente.
Bibliografia
- AUMONT, Jacques. 2014. Limites de la fiction. Paris: Bayard.
BALDACCI, Cristina; FRANCO, Susanne (org.). 2022. On Reenactment: Concepts, Methodologies, Tools. Torino: Accademia University Press.
BISPO DOS SANTOS, Antônio. 2023. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA.
BRASIL, André. 2025. Mirada do invisível: limiares dos cinemas indígenas. Belo Horizonte: Editora UFMG.
DA COSTA JÚNIOR, Edson; ZAN, Vitor. 2025. “Mundo histórico e liberdade especulativa em Mato seco em chamas”. Matrizes, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 313-335.
GUIMARÃES, Pedro. 2019. “O ator como forma fílmica: metodologia dos estudos atorais”. Aniki, vol.6, n.º 2 (2019): 81-92.
MARGULIES, Ivone. 2019. In person: Reenactment in postwar and contemporary cinema. New York: Oxfort University Press.
XAVIER, Ismail. 1982. “Cinema e descolonização”. Filme Cultura, n. 40, ano XV, ago/out, p. 23-28.