Ficha do Proponente
Proponente
- Ana Carolina Barbieri (UNESPAR)
Minicurrículo
- Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da
Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR/FAP), na linha “Teorias e Discursos no Cinema
e nas Artes do Vídeo”. Integra o grupo de pesquisa “Cinemas latino-americanos e caribenhos:
conversas pluridimensionais” (CLAC/UFSC/CNPq). Desenvolve pesquisa em cinema
brasileiro, com ênfase em estética e política, investigando a obra de Ana Carolina Teixeira
Soares. Atua também em projetos de criação audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Entre o engraçado e o desesperador: forma e crise no cinema de Ana Carolina
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- Este trabalho investiga o cinema de Ana Carolina, a partir da tensão entre o engraçado e o
desesperador como operadores formais e políticos. Parte-se da hipótese de que seus filmes
articulam humor e crise para tensionar relações de poder e gênero, desestabilizando formas
narrativas e evidenciando o colapso de estruturas sociais, ao mesmo tempo em que insinuam
possibilidades de resistência.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe uma aproximação ao cinema de Ana Carolina Teixeira Soares,
cineasta que ficou mais conhecida como Ana Carolina, a partir da tensão entre o engraçado e
o desesperador como operadores formais e políticos. Longe de constituírem pólos opostos,
essas dimensões aparecem, em seus filmes, profundamente imbricadas, configurando um
regime estético marcado pela instabilidade, pela dissonância e pela, talvez, recusa de soluções
conciliatórias.
Parte-se da hipótese de que a articulação entre humor e desespero não se dá apenas no
nível temático, mas estrutura a própria forma cinematográfica. Em Mar de Rosas e Das
Tripas Coração, procedimentos como a construção de personagens em permanente estado de
crise e o uso de diálogos que oscilam entre o cômico e o verborragicamente violentos
desorganizam expectativas de unidade, coerência e progressão, elementos centrais à lógica do
projeto moderno. Nesse sentido, o trabalho insere a obra da diretora no contexto mais amplo
do cinema brasileiro, considerando suas relações com processos históricos e políticos que
atravessam a formação social do país. Ao mobilizar o “pessoal como político”, seus filmes
tensionam estruturas de poder, especialmente no que se refere às relações de gênero e às
formas de autoridade, desestabilizando regimes tradicionais de representação.
A análise também se detém sobre a verborragia que atravessa os diálogos em filmes
como Mar de Rosas e Das Tripas Coração, compreendida não como excesso gratuito, mas
como procedimento formal central. Como afirma a própria Ana Carolina Teixeira Soares,
trata-se de uma “desconstrução da linguagem falada”, que a diverte justamente por expor “um
absurdo, uma pobreza e ao mesmo tempo uma exuberância de significado”. A profusão de
fala — marcada por repetições, interrupções, sobreposições e mudanças abruptas de tom —
produz um regime de saturação discursiva que desestabiliza a comunicação e esvazia a
transparência da linguagem. Em vez de organizar o sentido, a palavra passa a operar como
campo de conflito, expondo disputas de poder e evidenciando a impossibilidade de síntese ou
conciliação.
Nesse contexto, a verborragia se configura como um dos mecanismos pelos quais a
cineasta tenciona estruturas sociais e simbólicas, fazendo da própria linguagem um espaço de
crise. O humor, muitas vezes desconfortável, opera como um elemento de deslocamento e
tensão, desestabilizando expectativas do espectador, enquanto o desespero emerge não como
clímax dramático, mas como uma condição difusa que atravessa corpos, relações e estruturas
sociais.
Argumenta-se que o cinema de Ana Carolina Teixeira Soares elabora, em chave
estética, experiências de crise que não se apresentam como rupturas únicas e definitivas, mas
como processos contínuos de desagregação de estruturas sociais, simbólicas e afetivas. Nesse
movimento, seus filmes expõem a erosão de formas de organização e de sentido, ao mesmo
tempo em que deixam entrever, nas fissuras dessa desorganização, possibilidades de
resistência, ainda que precárias e instáveis.
Por fim, sustenta-se que, ao recusar tanto a ordem quanto o colapso absoluto como
horizonte, a obra da cineasta se inscreve em um campo de forças no qual a forma
cinematográfica se torna espaço de elaboração crítica e experimentação sensível. Entre o
engraçado e o desesperador, seus filmes não apenas representam a crise, mas a fazem operar
como princípio de criação, abrindo possibilidades para imaginar outros modos de relação
entre imagem, política e experiência.
Bibliografia
- Ana Carolina. Mar de Rosas. Brasil, 1977.
______. Das Tripas Coração. Brasil, 1982.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
MUSEU DA IMAGEM E DO SOM (MIS). Memória do Cinema | Ana Carolina. YouTube,
2012–2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KFRNypf6Hp4. Acesso em:
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PENAFRIA, Manuela; BAGGIO, Eduardo Tulio; GRAÇA, André Rui; ARAUJO, Denize
Correa (orgs.). Teoria dos cineastas: revisitar a teoria do cinema. v. 3. Covilhã:
LabCom.IFP, 2017.
XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São