Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ana Carolina Barbieri (UNESPAR)

Minicurrículo

    Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da
    Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR/FAP), na linha “Teorias e Discursos no Cinema
    e nas Artes do Vídeo”. Integra o grupo de pesquisa “Cinemas latino-americanos e caribenhos:
    conversas pluridimensionais” (CLAC/UFSC/CNPq). Desenvolve pesquisa em cinema
    brasileiro, com ênfase em estética e política, investigando a obra de Ana Carolina Teixeira
    Soares. Atua também em projetos de criação audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre o engraçado e o desesperador: forma e crise no cinema de Ana Carolina

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Este trabalho investiga o cinema de Ana Carolina, a partir da tensão entre o engraçado e o
    desesperador como operadores formais e políticos. Parte-se da hipótese de que seus filmes
    articulam humor e crise para tensionar relações de poder e gênero, desestabilizando formas
    narrativas e evidenciando o colapso de estruturas sociais, ao mesmo tempo em que insinuam
    possibilidades de resistência.

Resumo expandido

    Este trabalho propõe uma aproximação ao cinema de Ana Carolina Teixeira Soares,
    cineasta que ficou mais conhecida como Ana Carolina, a partir da tensão entre o engraçado e
    o desesperador como operadores formais e políticos. Longe de constituírem pólos opostos,
    essas dimensões aparecem, em seus filmes, profundamente imbricadas, configurando um
    regime estético marcado pela instabilidade, pela dissonância e pela, talvez, recusa de soluções
    conciliatórias.
    Parte-se da hipótese de que a articulação entre humor e desespero não se dá apenas no
    nível temático, mas estrutura a própria forma cinematográfica. Em Mar de Rosas e Das
    Tripas Coração, procedimentos como a construção de personagens em permanente estado de
    crise e o uso de diálogos que oscilam entre o cômico e o verborragicamente violentos
    desorganizam expectativas de unidade, coerência e progressão, elementos centrais à lógica do
    projeto moderno. Nesse sentido, o trabalho insere a obra da diretora no contexto mais amplo
    do cinema brasileiro, considerando suas relações com processos históricos e políticos que
    atravessam a formação social do país. Ao mobilizar o “pessoal como político”, seus filmes
    tensionam estruturas de poder, especialmente no que se refere às relações de gênero e às
    formas de autoridade, desestabilizando regimes tradicionais de representação.
    A análise também se detém sobre a verborragia que atravessa os diálogos em filmes
    como Mar de Rosas e Das Tripas Coração, compreendida não como excesso gratuito, mas
    como procedimento formal central. Como afirma a própria Ana Carolina Teixeira Soares,
    trata-se de uma “desconstrução da linguagem falada”, que a diverte justamente por expor “um
    absurdo, uma pobreza e ao mesmo tempo uma exuberância de significado”. A profusão de
    fala — marcada por repetições, interrupções, sobreposições e mudanças abruptas de tom —
    produz um regime de saturação discursiva que desestabiliza a comunicação e esvazia a
    transparência da linguagem. Em vez de organizar o sentido, a palavra passa a operar como
    campo de conflito, expondo disputas de poder e evidenciando a impossibilidade de síntese ou
    conciliação.
    Nesse contexto, a verborragia se configura como um dos mecanismos pelos quais a
    cineasta tenciona estruturas sociais e simbólicas, fazendo da própria linguagem um espaço de
    crise. O humor, muitas vezes desconfortável, opera como um elemento de deslocamento e
    tensão, desestabilizando expectativas do espectador, enquanto o desespero emerge não como
    clímax dramático, mas como uma condição difusa que atravessa corpos, relações e estruturas
    sociais.
    Argumenta-se que o cinema de Ana Carolina Teixeira Soares elabora, em chave
    estética, experiências de crise que não se apresentam como rupturas únicas e definitivas, mas
    como processos contínuos de desagregação de estruturas sociais, simbólicas e afetivas. Nesse
    movimento, seus filmes expõem a erosão de formas de organização e de sentido, ao mesmo
    tempo em que deixam entrever, nas fissuras dessa desorganização, possibilidades de
    resistência, ainda que precárias e instáveis.
    Por fim, sustenta-se que, ao recusar tanto a ordem quanto o colapso absoluto como
    horizonte, a obra da cineasta se inscreve em um campo de forças no qual a forma
    cinematográfica se torna espaço de elaboração crítica e experimentação sensível. Entre o
    engraçado e o desesperador, seus filmes não apenas representam a crise, mas a fazem operar
    como princípio de criação, abrindo possibilidades para imaginar outros modos de relação
    entre imagem, política e experiência.

Bibliografia

    Ana Carolina. Mar de Rosas. Brasil, 1977.
    ______. Das Tripas Coração. Brasil, 1982.
    FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996.
    MUSEU DA IMAGEM E DO SOM (MIS). Memória do Cinema | Ana Carolina. YouTube,
    2012–2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KFRNypf6Hp4. Acesso em:
    25 abr. 2026.
    PENAFRIA, Manuela; BAGGIO, Eduardo Tulio; GRAÇA, André Rui; ARAUJO, Denize
    Correa (orgs.). Teoria dos cineastas: revisitar a teoria do cinema. v. 3. Covilhã:
    LabCom.IFP, 2017.
    XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São