Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Giulia Medeiros (UFMT)

Minicurrículo

    Nascida em 1991, em Cuiabá, é graduada em Produção Audiovisual pela Escola Internacional de Cinema y TV de Cuba, licenciada em Ciências Sociais e mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT, onde atualmente cursa o segundo ano do doutorado. Suas pesquisas concentram-se no cinema como campo de disputa de imaginários, com ênfase na produção audiovisual mato-grossense. Em 2024, fundou a LA Fuente – Rede Independente de Cinema, uma articulação latino-americana de produtores emergentes.

Ficha do Trabalho

Título

    Redes e territórios: o cinema latino-americano no meio do Brasil

Resumo

    O artigo analisa como redes colaborativas latino-americanas impulsionam a circulação e a internacionalização do cinema produzido em territórios periféricos, com foco em Mato Grosso. A partir de revisão bibliográfica e análise de dados sobre políticas públicas e mercado audiovisual, discute as assimetrias da globalização cultural, o legado do Novo Cinema Latino-Americano e o papel de coletivos, festivais e coproduções na ruptura do isolamento territorial e simbólico do chamado “Brasil profundo”.

Resumo expandido

    Este artigo investiga de que maneira as redes colaborativas de cinema na América Latina podem contribuir para a circulação, o reconhecimento e a internacionalização de produções audiovisuais oriundas de territórios isolados dos grandes centros econômicos, com ênfase no cinema mato-grossense. Parte-se da compreensão de que os processos de globalização e mundialização da cultura, conforme discutidos por Milton Santos, ampliaram as possibilidades técnicas de produção e circulação de bens simbólicos, mas mantiveram profundas assimetrias estruturais no acesso a recursos, mercados e legitimidade cultural.

    No campo audiovisual brasileiro, embora políticas públicas como a criação da Agência Nacional do Cinema, do Fundo Setorial do Audiovisual e, mais recentemente, das leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc tenham ampliado a produção em diferentes regiões do país, a concentração histórica de investimentos e oportunidades no eixo Rio–São Paulo ainda persiste. Em contrapartida, estados como Mato Grosso vêm consolidando ecossistemas locais de produção, impulsionados por políticas descentralizadas, formação universitária e organização coletiva. O reconhecimento de obras recentes, como o longa 5 Tipos de Medo, evidencia o amadurecimento técnico e estético do cinema local.

    Nesse contexto, o artigo analisa o papel das redes colaborativas como estratégia de enfrentamento ao isolamento territorial e simbólico do chamado “Brasil profundo”. Tais redes se manifestam em coletivos audiovisuais, mostras, festivais, laboratórios e iniciativas de coprodução que articulam pesquisa, formação, preservação, produção, distribuição e exibição. Em Mato Grosso, exemplos como o Aquilombamento Audiovisual Quariterê, o MT Queer, o Box de Curtas, a MAUAL e a LA Fuente demonstram como a auto-organização fortalece circuitos próprios de circulação e reconhecimento.

    A pesquisa também contextualiza historicamente o Novo Cinema Latino-Americano como uma experiência fundamental de articulação em rede. Mais do que um movimento estético homogêneo, tratou-se de um projeto político continental, protagonizado por cineastas como Fernando Birri, Alfredo Guevara e Glauber Rocha, comprometidos com a transformação social e com a criação de formas alternativas de produção, circulação e exibição cinematográfica. Esse legado permanece atual ao demonstrar que a internacionalização e o rompimento da fragmentação do cinema latino-americano dependem, em grande medida, de articulações coletivas e estratégias de solidariedade transnacional.

    Do ponto de vista metodológico, trata-se de uma pesquisa de revisão bibliográfica, articulada à análise de dados e documentos institucionais sobre o audiovisual brasileiro e latino-americano. O estudo mobiliza autores como Ismail Xavier, Philippe Dubois e Ignacio del Valle-Dávila para refletir sobre globalização, políticas culturais, cinema e audiovisual.

    Conclui-se que as redes colaborativas não operam apenas como soluções técnicas ou mercadológicas, mas como práticas políticas, culturais e institucionais capazes de reposicionar territórios historicamente marginalizados no cenário audiovisual global. Ao fortalecer alianças, ampliar o acesso a recursos e criar circuitos alternativos de legitimação e circulação, essas redes tornam-se centrais para a internacionalização do cinema mato-grossense e de outras cinematografias periféricas latino-americanas. O estudo busca, ainda, contribuir para o debate sobre políticas públicas mais sensíveis às especificidades regionais e para a formulação de estratégias permanentes de inserção internacional do audiovisual produzido fora dos centros hegemônicos.

Bibliografia

    BARBERO, J. M. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro: UFRJ, 1997; BESKOW, C. A. O documentário no Nuevo Cine Latinoamericano. Tese (Doutorado) – USP, 2016; CORSEUIL, A. R.; NÚÑES, F.; HOLANDA, K. Cinema e América Latina. 2016; DUBOIS, P. Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify, 2004; LIMA, D. B. O cinema mato-grossense dos anos 90. Dissertação (Mestrado) – UFMT, 2006; MARTELETO, R. M. Análise de redes sociais. 2001; OCA. Dados de Coprodução Internacional no Brasil; ROCHA, D. T. et al. Mapeando as relações de coprodução. 2018; SANTOS, M. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2000; VALLE-DÁVILA, I. Novo Cinema Latino-Americano. Campinas: Papirus, 2025; VENANZONI, T. S. Diversidade social e políticas culturais. 2021.