Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Geovana Alves (UEG)

Minicurrículo

    Geovana Alves é graduanda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual de Goiás, com atuação nas áreas de direção de arte e pesquisa acadêmica. Entre as produções audiovisuais, destaca o documentário “Rua do Lazer” (2023) selecionado para 11° edição do Favera Festival e o ensaio “Acaso se arrependa” (2025), selecionado para a 15° edição da Mostra Audiovisual UEG. Atualmente integra o laboratório Experimental de Cinema e Arte “Entre-Imagens” como monitora, e bolsista de iniciação científica

Ficha do Trabalho

Título

    Por uma reconstrução da memória: a ressignificação de arquivos domésticos no filme-ensaio.

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O estudo em questão, sob à luz de “Trópico de Capricórnio” (2020), busca investigar como o filme-ensaio, a partir de técnicas como o comentário verbal e a montagem, são capazes de ressignificar arquivos domésticos. Partimos da hipótese de que a realizadora, através do uso da enunciação e da montagem dialética, maneja arquivos de quando era criança para refletir a existência de sexualidades dissidentes na infância, ao passo que insere a discussão dessa problemática na esfera pública.

Resumo expandido

    O presente projeto de pesquisa pretende abordar a representação da infância de uma criança LGBTQIAPN+ no filme-ensaio, a partir da reativação de imagens de arquivos domésticos da realizadora. Nesse sentido, sob à luz de “Trópico de Capricórnio” (Juliana Antunes, 2020) nos interessa investigar, do ponto de vista estilístico-temático, como o filme é capaz de analisar criticamente a infância a partir de uma perspectiva não-heteronormativa. Na medida em que a obra se utiliza de técnicas predominantes no filme-ensaio para mobilizar imagens privadas de Juliana Antunes, bem como propõe uma reconstrução de suas memórias de infância, “Trópico de Capricórnio” ressignifica os arquivos familiares para refletir sobre a lesbianidade enquanto algo que sempre esteve presente em suas vivências e nas de tantas outras meninas.
    Segundo Weinrichter, “para o ensaísta cinematográfico, cada tema exige uma reconstrução da realidade”. (WEINRICHTER, 2007, p. 27, tradução nossa). Nesse contexto, ao longo de todo o curta-metragem, a realizadora se propõe a revisitar imagens de arquivo de si mesma ainda na infância, concentradas em diferentes suportes, para tratar da lesbianidade enquanto algo que sempre habitou seu corpo, ainda que fosse nova demais para identificar. Assim, os arquivos que datam diferentes períodos da infância de Juliana, banais como as de qualquer outra criança no ínicio dos anos 90, são acompanhados por uma voz pessoal e reflexiva que busca questionar sua existência enquanto uma mulher lésbica.
    As fotografias fixas, bem como os arquivos em VHS, não parecem ser reutilizados dentro do universo fílmico para decifrar o que estes registros originalmente pretendiam captar, isto é, fragmentos da infância de Juliana pela perspectiva familiar, mas para servir como representação de algo que talvez tenha passado despercebido pelas lentes de sua família: os desafios de ter crescido lésbica não só no Brasil, mas na periferia de Itaúna, cidade localizada no interior de Minas Gerais.
    Assim, nosso problema de pesquisa dedica-se a questionar como o filme-ensaio, a partir de técnicas como o comentário verbal e a montagem dialética, é capaz de ressignificar as imagens de arquivo domésticos presentes no filme, a fim de não só de estabelecer uma reflexão crítica, mas sobretudo de reconstruir uma memória acerca da infância de Juliana que permita dar a ver a existência de sexualidades dissidentes na infância.
    Partimos da hipótese de que a realizadora, através do uso voz over e da montagem, na medida em que adiciona comentários verbais através da enunciação, ou mesmo justapõe imagens que originalmente não estabelecem nenhuma relação entre entre si, preenche as lacunas do passado ao fabular por entre os vazios que permeiam sua experiência em ter crescido lésbica na periferia de Itaúna. A existência lésbica, como bem pontua Rich, “tem sido vivida (diferentemente, digamos, da existência judaica e católica) sem acesso a qualquer conhecimento de tradição, continuidade e esteio social”. (RICH, 2010, p. 36). Ou seja, nesse contexto, o filme-ensaio ao mobilizar as imagens de arquivo, oferece não somente a possibilidade de uma reescrita de si, mas também de reafirmar a existência lésbica enquanto continuidade histórica.
    Portanto, para a análise da obra, realizaremos um estudo estilístico-temático com o objetivo de investigar tanto os procedimentos técnicos utilizados pelo filme, a fim de gerar ressignificação, quanto para compreender o filme-ensaio enquanto espaço possível para a representação e legitimação da existência lésbica na infância. Nesse sentido, em um primeiro momento, nos dedicaremos a compreender como os mecanismos de montagem contribuem para a ressignificação das imagens de arquivo, com ênfase para os procedimentos operados pela voz-over, para, logo em seguida, tratarmos do gesto de repetição enquanto procedimento de montagem, e do cinema doméstico enquanto caminho possível para a reconstrução da memória acerca da infância.

Bibliografia

    RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas – estudos gays: gênero e sexualidades, v4 n.05 p. 18 – 44, 2010.

    WEINRICHTER, Antonio. Un concepto fugitivo. Notas sobre el film-ensayo. In: WEINRICHTER, Antonio (org.). La forma que piensa. Tentativas entorno al cine-ensayo. Gobierno de Navarra: Punto de vista, 2007. p. 12 – 49.