Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Mônica Mourão Pereira (UFRN)

Minicurrículo

    Mônica Mourão é doutora em Comunicação (2016) pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), onde coordena o Grupo de Investigações sobre Linguagem, Memória e Representação (GILMaR). É integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social

Ficha do Trabalho

Título

    “Mamando nas tetas do Estado”: discursos e práticas de produtores audiovisuais de direita

Resumo

    As políticas culturais e, mais especificamente, a regulação do setor audiovisual no Brasil são alvo de controvérsias públicas e objeto de campanha de desinformação operada por atores sociais de direita. Em busca de compreender a inserção de parte destes agentes nas disputas sobre o tema na esfera pública, analisamos os discursos e as práticas da produtora Brasil Paralelo e do Movimento Brasil Livre (MBL), acerca do PL 8889/2017 (PL do Streaming).

Resumo expandido

    Brasil Paralelo (BP) e MBL Filmes (antiga NCE Filmes) se definem como produtoras que não precisam de políticas de fomento para realizar seu trabalho. No documentário “1964: o Brasil entre armas e livros”, um dos fundadores da BP afirma: “Nunca esqueça: nós não recebemos dinheiro público. Você é quem financia esse projeto” (Filipe Valerim in Ferrugem, 2019). No fim das notícias publicadas em seu site, a Brasil Paralelo reitera: “Como um veículo independente, não aceitamos dinheiro público” (Redação, 2025).

    A NCE Filmes era descrita em postagem do atual deputado federal Kim Kataguiri (Missão-SP), em 2015, como uma prova de que “dá pra ser legal sem receber grana do governo”. Em 2019, a empresa produziu o longa-metragem Não vai ter golpe! O nascimento de uma nação livre, já com um novo nome: MBL Filmes (Mourão; Lepri, 2020). Atualmente, o MBL não usa uma marca específica para seu braço de produção audiovisual, mas esta atividade está no cerne de sua origem. O Movimento foi formado a partir da NCE Filmes, produtora dos irmãos Alexandre e Renan Santos, sendo este último o atual candidato à Presidência da República pelo recém-fundado partido Missão.

    Com relação ao financiamento, a Brasil Paralelo afirma custear suas atividades pela venda de assinaturas. Segundo notícia da produtora, a BP tinha, há dois anos, 377 mil assinantes (Brasil Paralelo, 2024). O plano mais barato custa R,90 por mês. Já o MBL oferece, em seu site, produtos para formação de quadros políticos: uma revista, livros, cursos, mas também camisetas e moletons. O grupo afirma que “no campo cultural, produzimos programas diários que dialogam ao vivo com dezenas de milhares de pessoas e alcançam mais de dois milhões de espectadores todos os meses” (MBL, 2026). Apesar de também afirmar que sua sustentabilidade financeira vem do público, o MBL foi criado como uma “marca” do Estudantes pela Liberdade “para participar das manifestações de rua sem comprometer as organizações americanas que são impedidas de doar recursos para ativistas políticos” (Amaral, 2015).

    A produção audiovisual dos dois grupos reforça o discurso neoliberal de que não deve haver políticas públicas de fomento à cultura, ao mesmo tempo em que eles afirmam não precisar delas. A Brasil Paralelo fez um filme intitulado “Aos amigos, a lei” (Medeiros, 2023), em que aponta supostas fraudes no fomento via Lei Rouanet. A regulação do streaming no Brasil é criticada pela Brasil Paralelo, que diz que a lei obrigará a exibição de conteúdo do governo, e também pelo MBL, com postagem do deputado Kim Kataguiri afirmando que o preço dos serviços aumentaria. Ele votou contra o projeto de lei.

    Tensões e conexões entre os projetos de diferentes agentes do setor audiovisual e o Estado são uma constante na história da cinematografia brasileira (Bahia, 2012). Atualmente, estão em destaque os agentes que disputam a regulação do serviço de streaming. Neste contexto, as plataformas criaram a Strima, associação que representa serviços de streaming de conteúdo audiovisual que atuam no Brasil, parte da mobilização contra o PL 8889/2017. Outras formas de incidência nesta agenda também são observadas, como a estratégia de coprodução com produtoras brasileiras independentes, a exemplo da parceria entre Netflix e Filmes de Plástico, estratégia para que a regulamentação pareça desnecessária para que haja presença de conteúdo brasileiro nas plataformas (Schvarzman; Cesario, 2025).

    Este trabalho tem como objetivo analisar os discursos da Brasil Paralelo e do MBL sobre o PL do Streaming em vídeos, postagens e notícias produzidas pelos dois grupos. A proposta é compreender como os discursos e as práticas de produção audiovisual destes atores sociais reforçam, na agenda pública, o discurso neoliberal sobre (des)regulação do audiovisual no Brasil.

Bibliografia

    AMARAL, Marina. A nova roupa da direita. 23 jun. 2015. Disponível em: https://apublica.org/2015/06/a-nova-roupa-da-direita/ Acesso em: 24 abr. 2026.

    BAHIA, Lia. Discursos, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. São Paulo: Itaú Cultural: Iluminuras, 2012.

    FERRUGEM, Lucas. 1964, o Brasil entre armas e livros. Brasil, 2019. 2h7min.

    MEDEIROS, Silvio. Aos amigos, a lei. Brasil, 2023. 84min.

    MOVIMENTO Brasil Livre. Disponível em: https://mbl.org.br/mbl Acesso em: 24. abr. 2026.

    MOURÃO, Mônica; LEPRI, Adil Giovanni. “A política narrativa do Movimento Brasil Livre no
    documentário Não vai ter golpe! O nascimento de uma nação livre (2019)”. Doc On-line, n. 28, setembro de 2020, www.doc.ubi.pt, pp. 117-139.

    SCHVARZMAN, Sheila; CESARIO, Lia Bahia. “(Des)conexões possíveis: o caso da parceria da Filmes de Plástico com a Netflix”. Rebeca (São Paulo, online), v. 14, n. 2, pp. 01-28, jul./dez., 2025