Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cássio Mauro Oliveira Tavernard (UFPA)

Minicurrículo

    Professor dos cursos de Cinema e Audiovisual e de Produção Multimídia da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestre em Artes pelo Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGARTES/UFPA), desenvolve pesquisas e projetos nas áreas de cinema de animação, processos criativos e relações entre audiovisual e literatura. Atua como realizador e pesquisador, com interesse em poéticas da animação, memória, cultura amazônica e práticas intersemióticas.

Ficha do Trabalho

Título

    O Processo de criação do curta Quandú: diálogos entre literatura e cinema de animação

Resumo

    O trabalho investiga o memorial Quandú – Possíveis diálogos entre literatura e o cinema de animação e o curta Quandú, articulando os conceitos de adaptação (Stam) e transcriação (Haroldo de Campos). Ao dialogar com a noção deleuziana de criação como encontro entre ideias, no qual o cinema de animação não traduz a literatura, mas produz uma nova organização sensível, a partir de atravessamentos de memória afetiva e paisagem amazônica

Resumo expandido

    O presente trabalho investiga o projeto Quandú – Possíveis diálogos entre literatura e o cinema de animação, partindo da adaptação do conto De que morreu o “Manduca Lambão”, de Antônio Tavernard. A pesquisa se insere no campo das relações entre literatura e cinema, com ênfase nos processos de criação da animação Quandú, que produzi e dirigi, como resultado da minha pesquisa de mestrado, propondo uma abordagem que desloca o debate da fidelidade para uma perspectiva de recriação poética.
    Procuro dialogar com conceitos de autores e teóricos como Robert Stam, Haroldo de Campos e Deleuze.
    Essa pesquisa (memorial e o curta metragem) possui elementos importantes na minha trajetória como artista e pesquisador em artes, além de dirigir e produzir, o autor de quem parto para análise e adaptação é meu tio-avô, escritor e poeta de relevância na literatura paraense, e pelo laço familiar, trago elementos de reflexões determinantes sobre memória e afetos, que direciam todo o ato e criador.
    Tradicionalmente, a adaptação cinematográfica foi marcada por um vocabulário crítico pautado pela ideia de perda. Como observa Robert Stam (2006), termos como “infidelidade”, “traição” e “deformação” revelam uma abordagem moralizante que subordina o cinema à literatura. Nesse sentido, propõe-se articular a teoria da adaptação com a noção de transcriação, formulada por Haroldo de Campos, como forma de compreender a passagem entre linguagens como um processo inventivo.
    A noção de transcriação, desenvolvida por Haroldo de Campos, amplia a compreensão da tradução ao enfatizar seu caráter criativo. Para o autor, “não se pode exigir que a obra traduzida repita fielmente todas as intenções do original” (CAMPOS, 2011, p. 134). Campos (2011) propõe que o tradutor atue como coautor, assumindo a dimensão inventiva do processo. Como afirma o autor, o texto transcriado estabelece uma relação “assintótica” com o original, aproximando-se sem jamais coincidir (CAMPOS, 2011).
    A reflexão de Gilles Deleuze sobre o ato criador oferece um fundamento importante para compreender a adaptação como processo inventivo. Para o filósofo, a criação não decorre de uma escolha arbitrária, mas de uma necessidade: “um criador só faz aquilo de que tem absoluta necessidade” (DELEUZE, 1999, p. 3). Um dos aspectos centrais do projeto Quandú é a proposição de dois eixos de aproximação da obra literária: a memória afetiva e a paisagem amazônica.
    A memória, entendida como experiência vivida e compartilhada, desloca a adaptação de uma leitura exclusivamente textual para um campo sensível. Como demonstrado no memorial da pesquisa, os relatos familiares e os objetos de memória operam como dispositivos de criação, ativando camadas de significado que extrapolam a obra literária.
    Metodologicamente, a pesquisa articula análise conceitual e prática artística, tomando o memorial como espaço de reflexão sobre as etapas do processo criativo — roteiro, decupagem, direção de arte, construção sonora e animação — entendidas como instâncias de tradução intersemiótica. E por fim, o que resulta no curta metragem.
    Ao problematizar a adaptação a partir desses atravessamentos, o trabalho evidencia que o cinema de animação, longe de reproduzir a literatura, institui uma nova poética, capaz de reorganizar o imaginário da obra fonte em outro regime sensível. Conclui-se, assim, que a transcriação, ao operar como prática de recriação intersemiótica, permite compreender a adaptação como um processo de invenção, no qual a obra resultante não se mede pela fidelidade ao original, mas pela potência de instaurar novas formas de significação.

Bibliografia

    CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2011.
    DELEUZE, Gilles. O ato de criação. 1999. Disponível em: https://www2.unifap.br. Acesso em: 21 abr. 2026.
    LOUREIRO, João de Jesus Paes. Códigos do imaginário amazônico. Belém: EDUFPA, 2015.
    STAM, Robert. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: CORSEUIL, Anelise Reich;
    TAVERNARD, Antônio. Fêmea. Belém: [s.n.], 1930.