Ficha do Proponente
Proponente
- Adil Giovanni Lepri (UFBA)
Minicurrículo
- É professor adjunto da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e possui doutorado pelo PPGCine/UFF. É co-líder do grupo de pesquisa (an)arqueologias do sensível (UFBA), onde coordena a linha de pesquisa “Audiovisuais Emergentes” e membro do Laboratório Experiamental (an)arqueologias do sensível (LabEAS). Desenvolve pesquisas na área do audiovisual nas plataformas de redes sociais, com ênfase no uso de métodos digitais e análise computacional do audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Dataficação do cinema e do audiovisual, aprendizagem de máquina e oportunidades analíticas
Mesa
- Cinema e tecnologias da imagem: ontologia, especulação, dataficação e Inteligência Artificial
Resumo
- No contexto da dataficação das imagens, esta comunicação propõe uma experimentação metodológica com a análise computacional do cinema a partir de um “visionamento distanciado”, noção inserida no âmbito das humanidades digitais. Como corpus analítico será tomado um conjunto de filmes da primeira fase do Cinema Novo, dos quais uma amostra de quadros será submetida a um modelo de visão computacional para visualização visando reconhecimento de padrões e aspectos estéticos marcantes em larga escala.
Resumo expandido
- O processo de dataficação consiste na transformação de todo comportamento social em dados quantificáveis, resultando em um fenômeno amplo que alcança praticamente toda a experiência da vida humana (Lemos, 2021). A exemplo de outros suportes midiáticos, o cinema e o audiovisual foram dataficados a partir de sua passagem para a mídia digital que segundo Manovich (2002) constitui uma espécie de “metamídia”, pois contém todas as outras formas midiáticas que já existiram. Essas formas aparecem não apenas como representação numérica de filmes, quadros, fotografias e texto, mas também têm seus modos de produção incorporados na mídia digital. Essa transição resulta na transformação da imagem em movimento em um conjunto de elementos quantificáveis a partir da característica de representação numérica da mídia digital (Manovich, 2002).
Embora a dataficação do cinema seja um processo de décadas, desenvolvimentos recentes no campo da aprendizagem de máquina abrem uma série de oportunidades analíticas de trabalho com grandes *corpora* de imagens. As redes neurais convolucionais e outras aplicações do chamado *deep learning* passam a possibilitar a existência de modelos de visão computacional avançados, que funcionam em múltiplas camadas de aprendizagem e tem a capacidade de extrair características e categorizar imagens a partir do contato direto com os dados (Joo; Steinert-Threlkeld, 2022). Esse desenvolvimento convida uma retomada da análise computacional e estatística do cinema, que teve abordagens pioneiras de Lev Manovich e Barry Salt em diálogo com o campo das humanidades digitais.
Esta comunicação apresenta um trabalho em andamento que investiga uma abordagem analítica experimental voltada para um *corpus* fílmico em larga escala, engajando com a noção de “visão distanciada” (*distant viewing*), uma abordagem que mobiliza arquiteturas de visão computacional para fazer a extração de características visuais, as agregar e permitir visualização de um grande conjunto de dados em um processo interpretativo que conjuga máquina e analista (Arnold; Tilton, 2019). Processo este que toma os resultados da análise computacional como uma meta-imagem, um ponto de partida metodológico que combina análise e arranjo, enquadrando coleções de imagens para permitir um tipo de pensamento crítico que entrelaça a ideia das imagens como rastros digitais e como objetos culturais a serem interpretados (Rogers, 2021).
Tomando inspiração no campo do cinema comparado (Souto, 2020), se propõe uma análise em grande escala dos filmes da primeira fase do Cinema Novo, entre eles *Deus e o diabo na terra do sol* (Glauber Rocha, 1964), *Os fuzis* (Ruy Guerra, 1964) e *Vidas secas* (Nelson Pereira dos Santos, 1963). A proposta metodológica se baseia no uso do pacote Pixplot (Duhaime; Leonard, 2020) para analisar uma amostra dos quadros dos filmes escolhidos, que inclui mas não está limitada aos três já citados. O Pixplot extrai características, cria uma visualização distribuída com aproximações por similaridade em formato de mapa e agrupa imagens por meio de algoritmos de clusterização. A partir desta meta-imagem resultante e dos conjuntos sugeridos pelo algoritmo de clusterização, pretende-se buscar padrões imagéticos, repetições e características visuais marcantes dos filmes do movimento deste período. Esta análise no entanto não pode prescindir de um engajamento crítico, considerando as camadas de vieses incorporadas no processo de dataficação da imagem que subsidia a capacidade de reconhecimento de características da maioria dos modelos de visão computacional disponíveis.
Embora o Cinema Novo tenha sido objeto de farta análise no campo de estudos do cinema e audiovisual ao longo do tempo, esta comunicação pretende abrir novas oportunidades analíticas por meio do emprego da análise computacional do cinema, permitindo uma compreensão mais ampla e adensada da estética do movimento.
Bibliografia
- ARNOLD, Taylor; TILTON, Lauren. Distant viewing: analyzing large visual corpora. Digital Scholarship in the Humanities, v. 34, n. Supplement_1, p. i3–i16, 2019.
DUHAIME, Douglas; LEONARD, Peter. Pixplot. Versão 0.0.1. 2020.
HERAS, Daniel Chávez. Cinema and Machine Vision: Artificial Intelligence, Aesthetics and Spectatorship. Edimburgo: Edinburgh University Press, 2024.
JOO, Jungseock; STEINERT-THRELKELD, Zachary C. Image as Data: Automated Content Analysis for Visual Presentations of Political Actors and Events. Computational Communication Research, v. 4, n. 1, 1 fev. 2022.
LEMOS, André. Dataficação da vida. Civitas-Revista de Ciências Sociais, v. 21, p. 193–202, 2021.
MANOVICH, Lev. The language of new media. Boston: MIT press, 2002.
ROGERS, Richard. Visual media analysis for Instagram and other online platforms. Big Data & Society, v. 8, n. 1, 1 jan. 2021.
SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia (São Paulo), 2020.