Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Karen Barros da Fonseca (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Bacharel em cinema pela UFF, mestre e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade do Departamento de Letras e Artes da Cena da PUC-Rio. Seu projeto de tese é uma investigação da relação entre cinema, política e modernidade no contexto da Revolução Moçambicana, a partir de um projeto não-realizado do cineasta Jean-Luc Godard no país africano, em pesquisa financiada pela CAPES. É diretora, pesquisadora, montadora, roteirista. e curadora de cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre ensinar e desaprender o imperialismo: o arquivo audiovisual moçambicano em Essas São as Armas

Resumo

    Essas São as Armas (1978), de Murilo Salles, é o primeiro longa realizado em Moçambique. Compilação de imagens de arquivo, que vai do período colonial às cerimônias oficiais da FRELIMO, passando por imagens da guerrilha, é marcado por uma abordagem didática revolucionária anti-imperialista. Quase 50 anos depois, tais imagens situam-se entre a memória da revolução e um arquivo do poder instituído, e demandam novos olhares que proponham novas formas de luta contra a persistência da opressão.

Resumo expandido

    Essas São as Armas é o primeiro longa realizado no Moçambique independente, em 1978. Foi dirigido pelo brasileiro Murilo Salles, então colaborador do Instituto Nacional de Cinema (INC), e escrito por Luís Bernardo Honwana, o homem por trás dos discursos de Samora Machel. À época o país já era alvo de ataques da Rodésia, com ajuda do Reino Unido, que desestabilizavam a recém-conquistada independência. Salles conta que o filme fora-lhe encomendado pelo próprio Machel, como forma de ensinar ao povo – face à ameaça em curso -, o que era o imperialismo, e a necessidade de manter a unidade nacional. Salles teria sido apresentado a enorme quantidade de rolos de filmes armazenados no INC e decidido realizar o documentário a partir destes materiais, montando-o ele mesmo em uma moviola.
    Salles dispunha de imagens e sons diversos, como os cinejornais e filmes produzidos sob o poder colonial; documentários realizados anteriormente sobre a luta armada, e registros audiovisuais avulsos feitas pelos departamento de comunicação da FRELIMO das atividades de guerrilha, das zonas libertadas e cerimônias oficiais. Uma única imagem teria sido realizada para o filme: homens e mulheres, vestidos em trajes formais, fazem uma dança tradicional, a Makwayela, em frente a um prédio governamental.
    Gray (2020) nomeia-o como um filme de compilação, gênero historicamente associado à propaganda política. Stock (2016) ressalta que o filme, no reemprego de imagens de propaganda e agressões coloniais, utiliza ilustração e a evidência como estratégias narrativas, onde as vozes em off instruem didaticamente o espectador a fazer a desejada leitura anticolonial das imagens. Como efeito, o filme reproduziria o “roteiro da libertação” oficial da FRELIMO, que marginaliza as vozes comuns e as dificuldades na construção do “Homem Novo” (Coelho, 2019). Schefer (2020) destaca que a produção cinematográfica no período baseava-se em dois tipos: os filmes destinados à difusão em condição de visibilidade, numa abordagem propagandística dos ideais da FRELIMO; e o segundo destinado ao arquivamento, composto essencialmente por copiões não montados – que a autora nomeia “cinema invisível”’. A partir desta ideia, é possível também situar “Essas são as armas” nesta intersecção, uma obra de propaganda que traz visibilidade e finalidade política às imagens “invisíveis” através do seu desarquivamento.
    Murilo Salles entregou a encomenda e o filme cumpriu o seu papel – foi exibido diversas vezes no estádio público de Maputo e ganhou prêmio no Festival de Leipzig – numa manifestação de que também foi reconhecido por suas qualidades estéticas. Mas contemporaneamente as imagens de Essas são as armas produzidas pela FRELIMO – ainda no poder, depois de mais de 50 anos – já têm significados outros, como no curta-metragem Fim (2018), de Lara Souza, que revisita imagens de Machel discursando para uma multidão. Em off, ouvimos o cineasta e militante da FRELIMO Camilo de Souza, (pai da realizadora) dizer: “Eu sabia que já não estava a filmar revolução nenhuma. O que eu estava a filmar era a história daquilo que foi uma revolução.”. Passadas cinco décadas, as imagens do triunfo da FRELIMO são agora arquivos não mais do devir revolucionário, mas do poder instituído.
    Moçambique é até hoje marcado pelos efeitos de “dividir para reinar” da dominação colonial, onde o desafio de criar uma identidade nacional sem apagar a diversidade das identidades étnicas e regionais não se concretizou. Neste contexto, esta comunicação propõe voltar às imagens de Essas São as Armas agora não para ensinar, mas para desaprender o imperialismo (Azoulay, 2024), e repensar a modernidade moçambicana pensada em termos ocidentais de Estado-Nação e em “novos começos”, ressignificando as imagens do filme que não escapam às raias da visualidade ocidental (Tonda, 2022) e os contextos sociais e culturais invisibilizados que carregam. Novos olhares que podem indicar novas formas de luta contra a opressão que persiste.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.

    COELHO, João Paulo Borges. Política e história contemporânea em Moçambique: dez notas epistemológicas. Revista de História (São Paulo) 2019.

    GRAY, Ros. Cinemas of the Mozambican Revolution: Anti-Colonialism, Independence and Internationalism in Filmmaking, 1968-1991. Suffolk: James Currey, 2020.

    MIRZOEFF, Nicholas. O direito a olhar. ETD – Educação Temática Digital, v. 18, n. 4, 2016.

    SCHEFER, Raquel. Mal de Arquivo: Uma Aproximação ao Arquivo Anti-Colonial Moçambicano a Partir da Obra de Ruy Guerra. 2020.

    STOCK, Robert. Cinema e conflito no Moçambique pós-colonial: imagens de arquivo como ilustração e evidência. In: MONTEIRO, Lúcia Ramos (Org.). África(s): Cinema e Revolução. São Paulo: Caixa Cultural, 2016.

    TONDA, Joseph; ALMEIDA, Filipa Maia Duarte de. Descolonizar a Visualidade: Olhares, Consciências, Modos de Pensar e Agir. Revista de Comunicação e Linguagens, n. 57, 2