Ficha do Proponente
Proponente
- ANA PAULA VERAS CAMURÇA VIEIRA (UFC/Unifor)
Minicurrículo
- Doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará, é mestre em Artes pela mesma instituição e professora do Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade de Fortaleza (Unifor). Desenvolve projetos que articulam cinema, território e formação, como o Cinema no Brejo e a Mostra Olhos d’Água de Cinema do Maciço.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens que brotam da mata: cineclubismo, território e recepção no Cine Brejo
Seminário
- Festivais e Mostras de Cinema e Audiovisual
Resumo
- O trabalho analisa o Cine Brejo – Imagens que brotam da mata, mostra cineclubista realizada na zona rural de Baturité (CE). A partir de sessões ao ar livre que articulam filmes, território e vivências, investiga como o deslocamento da exibição para contextos específicos reconfigura a recepção e os modos de produção de sentido. Propõe o cineclubismo como metodologia situada, compreendendo o cinema como acontecimento relacional e coletivo.
Resumo expandido
- Quando Isael Maxakali afirma que “sem terra não tem cinema”, ele fala sobre como o fazer imagens está indissociavelmente ligado ao território, aos rituais e aos modos de vida que constituem aquela comunidade. É nesse horizonte que se inscreve a experiência do coletivo Cinema no Brejo, criado em 2018. O coletivo articula oficinas formativas, cineclubes e mostras, desenvolvendo processos de criação e difusão audiovisual voltados ao público infantojuvenil, em diálogo com escolas, comunidades e diferentes iniciativas da zona rural de Baturité (CE). Entre 2019 e 2025, realizou o Laboratório Rural de Formação e Experimentação Audiovisual, um curso de documentário no Quilombo Serra do Evaristo; a Mostra Virtual Cine Brejo: Cultivando Olhares; 19 sessões de cinema ao ar livre em 11 espaços da região; e o processo formativo “Cinema no Brejo: Sons e imagens entre a casa, a escola e o museu”, em parceria com o Ecomuseu de Pacoti.
Desse percurso surge a mostra cineclubista Cine Brejo – Imagens que brotam da mata, que se constitui como continuidade dessas práticas, articulando curadoria, mediação e formação de público. A mostra, inserida em circuitos não hegemônicos de exibição, traz uma programação composta por filmes brasileiros contemporâneos realizados em contextos indígenas, quilombolas, rurais e periféricos, organizados em eixos temáticos (O Gosto da Terra, Os Segredos da Mata, A Vida Encantada da Floresta, Semear Futuros e O Mundo em Festa) que dialogam com o calendário agrícola e com os modos de habitar, nomear e narrar a paisagem compartilhados pelas comunidades da região. Esses eixos aproximam os filmes de questões como agroecologia, oralidade, espiritualidade, memória e direito ao território, operando como pontos de passagem entre diferentes experiências. Em cada sessão, exibição e mediação se combinam a vivências práticas como escuta da mata, criação de trilhas sonoras com materiais naturais, conversas com agricultores e meliponicultores, de modo que a curadoria se organiza em um percurso que os filmes e o lugar se interpelam mutuamente.
Pensar o cinema, em diálogo com André Brasil e Bernard Belisário (2016), implica considerar as condições que o tornam possível e que, ao mesmo tempo, o atravessam e o transformam. No Cine Brejo, esse princípio se manifesta de forma concreta na experiência da recepção quando o vento, os insetos e os pássaros atravessam as imagens nas sessões ao ar livre, quando os saberes dos agricultores e as temporalidades do calendário agrícola redefinem o que se vê e o que se escuta e quando as conversas após as exibições prolongam e deslocam os sentidos produzidos. O contexto é parte ativa do que o cinema se torna em cada sessão. É nesse sentido que a afirmação de Isael Maxakali, originalmente sobre as condições de produção do cinema indígena, pode ser relida a partir da experiência do Cine Brejo: se sem terra não há imagens possíveis, talvez também não haja recepção possível sem os saberes e as temporalidades que uma comunidade traz consigo ao sentar diante de uma tela.
É a partir dessa experiência, propomos analisar o cineclubismo como metodologia situada (Haraway, 1995), comprometida com os contextos específicos em que se inscreve. Três questões centrais orientam esse caminho: o que acontece com o cinema quando se desloca dos espaços convencionais de exibição e passa a se realizar em relação com um lugar específico? E de que maneira essa experiência convoca outros modos de compreender o que significa ver, escutar e produzir sentido? Que formas de conhecimento emergem quando a exibição se torna também prática de convivência e aprendizagem coletiva? O cineclubismo, nessa perspectiva, para além de um modelo de exibição, é uma prática capaz de tensionar modos de produção e recepção e de revelar o cinema como acontecimento, sempre singular, sempre situado.
Bibliografia
- BRASIL, André. Bicicletas de Nhanderu: lascas do extracampo. Devires – Cinema e Humanidades, v. 9, n. 1, p. 98-117, 2016. BRASIL, André;
BELISÁRIO, Bernard. Desmanchar o cinema: variações do fora-de-campo em filmes indígenas. Sociologia & Antropologia, v. 6, n. 3, p. 601-634, 2016.
CÉSAR, Amaranta et al. (org.). Desaguar em cinema: documentário, memória e ação com o CachoeiraDoc. Salvador: EDUFBA, 2020.
DE VALCK, Marijke. Film festivals: from European geopolitics to global cinephilia. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2007.
HARAWAY, Donna. Saberes localizados: a questão da ciência para o feminismo e o privilégio da perspectiva parcial. Cadernos Pagu, 1995.
MIRANDA, Joseval dos Reis et al. Cineclube das crianças quilombolas: espaço de participação e diálogo. Revista Contexto & Educação, 2024.
SILVA, Dafne Reis Pedroso da. Exibições itinerantes de cinema: uma análise do contexto situacional de recepção das mostras organizadas pelo Cineclube Lanterninha Aurélio. 2010.