Ficha do Proponente
Proponente
- Pascoal Farinaccio (UFF)
Minicurrículo
- Pascoal Farinaccio é doutor em Teoria e História Literária pela Unicamp, com pós-doutorado pela Università di Bologna. Professor de literatura brasileira na Universidade Federal Fluminense (UFF), publicou diversos artigos e os livros Serafim Ponte Grande e as dificuldades da crítica literária (Ateliê Editorial, 2001), Oswald Glauber: arte, povo, revolução (EdUFF, 2012) e A casa, a nostalgia e o pó: a significação dos ambientes e das coisas nas imagens da literatura e do cinema (Relicário, 2019).
Ficha do Trabalho
Título
- Revisitando a Expedição Langsdorff 170 anos depois: cinema documentário, textos e ilustrações
Resumo
- Pretendemos discutir o documentário No caminho da Expedição Langsdorff (2000), dirigido por Maurício Dias. O filme registra a expedição realizada por Adriana Florence, que refez em 1999 a viagem fluvial que Hercule Florence realizou no início do século XIX, de São Paulo à Amazônia, quando participava da Expedição Langsdorff. Tendo como referência a expedição original objetivamos destacar as modificações que ocorreram na natureza, a violência social e a função crítica do cinema ambiental.
Resumo expandido
- Entre os anos de 1824 e 1879 o barão Georg Heirich von Langsdorff (1744-1852), alemão que ocupou o cargo de cônsul geral da Rússia no Rio de Janeiro, liderou uma grande expedição cientifica aos interiores do Brasil: viajando por Minas Gerais e São Paulo e depois, seguindo sempre por vias fluviais e passando pelo Mato Grosso, atingiu o Amazonas pelo rio Tapajós. Inserida no contexto das viagens dos naturalistas europeus do início do século XIX no Brasil, a denominada Expedição Langsdorff, muito bem equipada do ponto de vista técnico, e contando com cientistas de alta competência (Ludwig Riedel, botânico alemão; Nester Rubtsov, geógrafo e astrônomo russo) e pintores de excepcional qualidade designados para registrar em ilustrações as paisagens, a fauna e flora, a população em geral e grupos indígenas (o alemão Moritz Rugendas, que participou apenas da primeira parte da expedição; e os franceses Aimé-Adrien Taunay e Hercule Florence) concluiu-se todavia de forma trágica. Boa parte da equipe faleceu durante o percurso (incluindo o jovem pintor Adrien Taunay, que morreu afogado em um rio no Mato Grosso) ou adoeceu terrivelmente de malária, em particular o líder Langsdorff, que perdeu a memória por conta da doença, jamais vindo a restabelecê-la novamente. É um exemplo notável das adversidades que a natureza tropical pode impor a quem ousa afrontá-la sem o cuidado necessário. Como observa Barbara Freitag-Rouanet, tratava-se de “uma das expedições mais bem equipadas e financiadas [pelo governo russo] do século XIX e que parecia ter sido amaldiçoada pelos deuses, pelos homens e talvez pela própria natureza” (FREITAG-ROUANET, 2013, p. 103). Com relação ao percurso e acontecimentos que marcaram a expedição, contamos com depoimentos notáveis de dois participantes: os diários de Langsdorff, em especial o seu volume III (LANGSDORF, 1997), dedicado ao percurso entre o pantanal mato-grossense e a Amazônia e o célebre relato Viagem fluvial do Tietê à Amazônia pelas províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão Pará (FLORENCE, 2022), no qual Hercule Florence (figura notável de escritor, pintor e inventor) narra o percurso fluvial da Expedição por diversos rios e as inúmeras dificuldades enfrentadas.
Passados cento e setenta anos do fim da trágica Expedição Langsdorff, a tataraneta do pintor-viajante Hercule Florence, a artista plástica Adriana Florence, acompanhada de um pequeno grupo de cinegrafistas, decide refazer o percurso fluvial dos expedicionários do século XIX, partindo, como o fizera a expedição original, do rio Tietê na cidade de Porto Feliz, em São Paulo, para alcançar a cidade de Santarém, no Pará, deslocando-se em três botes infláveis. O percurso dos novos expedicionários durou um mês e resultou em duas obras significativas: o livro No caminho da Expedição Langsdorff: memória das águas (FLORENCE, 2000) e o filme documentário de mesmo título dirigido por Maurício Dias (DIAS, 2000). São obras irmãs de um projeto solidário: o livro apresenta aquarelas e textos de Adriana e o filme de Dias registra em imagens impactantes o dia a dia da expedição fluvial. Trata-se de materiais de grande interesse para se comparar o Brasil do início do século XIX com o do final do século XX: a fauna, a flora, os indígenas remanescentes desde a expedição de Langsdorff, e também o aumento da poluição nos rios, o garimpo predatório que segue violento e ameaçador.
O objetivo da comunicação é refletir sobre o impacto destrutivo da presença humana no meio ambiente, sobretudo no pantanal mato-grossense, abordando também a violência continuada contra os povos indígenas, a partir da análise do documentário No caminho da Expedição Langsdorff, de Maurício Dias. Tendo como referência comparativa a Grande Expedição do século XIX, com a qual o filme e o livro de Adriana Florence dialogam intensamente em imagens e textos, também se pretende destacar a importância e a função crítica do cinema ambiental no debate contemporâneo sobre a crise climática.
Bibliografia
- BENTE, Richard Hugh. Meio ambiente e cinema. São Paulo, Senac SP, 2008.
DIAS, Maurício (direção). No caminho da expedição Langsdorff: documentário com Adriana Florence, Boris Komissarov e outros. São Paulo, 2000. 48 minutos. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dKXLLPqHXFo Acesso em: 22/04/2026.
FLORENCE, Adriana. No caminho da expedição Langsdorff: memória das águas. São Paulo, Companhia Melhoramentos, Grifa, 2000.
FLORENCE, Hercule. Viagem fluvial do Tietê à Amazônia pelas províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão Pará. Tradução de Giulia Manera. São Paulo, Publicações BBM, 2022.
FREITAG-ROUANET, Barbara. Viajando com Langsdorff. Brasília, Senado Federal, Conselho Editorial, 2013.
LANGSDORFF, Georg Heirinch von. Os diários de Langsdorff. Organização Drauzio Gil Bernardino da Silva; tradução Márcia Lyra Nascimento Egg e outros. Campinas-SP, Associação Internacional de Estudos Langsdorff; Rio de Janeiro, Fiocruz, 1997 (volume III: Mato Grosso e Amazônia).