Ficha do Proponente
Proponente
- andrea de arruda ferraz (UFPE)
Minicurrículo
- Dea Ferraz é uma pesquisadora, artista visual e cineasta brasileira. Com seis longas-metragens exibidos e premiados em importantes festivais latino-americanos, sua recente pesquisa de doutorado questiona a hiperexposição das imagens e a perda de seu poder poético. Em seus trabalhos atuais, Segunda Pele e Atlas Tentacular, Dea articula teoria e prática, explorando noções de gesto, corpo e imagem, em interseção com as ideias de simbiose, corpo tentacular, paisagem e lacunaridade.
Ficha do Trabalho
Título
- Atlas Tentacular: pensar a gestopia da imagem, a partir de uma viagem tentacular e utópica
Mesa
- Cinema, Arte, Política – entre deslocamentos e invenções I
Resumo
- O Atlas Tentacular (2026), videoinstalação de minha autoria, investiga a imagem como experiência sensorial, relacional e viva. A partir desse trabalho, numa pesquisa situada e difratada, articulo corpo, gesto e imagem para propor a “gestopia” como conceito sensorial a ser pensado em compartilhamento, numa sessão de troca e encontro. Em diálogo com Didi-Huberman, Agamben, Spinoza, Donna Haraway, Anna Tsing e Le Guin, penso a imagem como elemento vivo, em relação simbiótica com o mundo.
Resumo expandido
- A partir da exibição da videoinstalação Atlas Tentacular (2026), de minha autoria, vou compartilhar – na mesa em formato livre – meu processo de criação e pesquisa acerca da ideia de gestopia, conceito que nasce em minha tese de doutoramento. Assumindo um formato de encontro e troca, a mesa, em simbiose com o trabalho, vai atravessar questões conceituais centrais da pesquisa que me move, como as noções de corpo, gesto e imagem, em direção à invenção utópica de uma imagem viva.
Dentro do formato de entrevista e encontro, abordarei, a partir das provocações de Nina Velasco, questões sobre as escolhas por uma ciência situada, difratada, bolseira e emaranhada, conforme propõe Donna Haraway e Ursula Le Guin, e como meus trabalhos interferem na construção de meu pensamento. É atravessando quatro dos meus filmes — Câmara de Espelhos (2016), Agora (2020), Segunda Pele (2026) e Atlas Tentacular (2025) — que busco entender e construir outras formas de relação com a imagem.
Com Câmara de Espelhos, resgato uma ontologia da imagem para pensá-la como corpo vivo, a partir de contribuições de Didi-Huberman, Marie-José Mondzain, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, entre outros. Com o AGORA penso o gesto como afecção, em interlocução com Giorgio Agamben, Didi-Huberman e Baruch Spinoza. Com Segunda Pele, o corpo é concebido como tentacular e simbiótico, em diálogo direto com Antonin Artaud, Donna Haraway, Anna Tsing, Jota Mombaça, entre outres. E por fim, a partir dessas articulações, chego ao conceito de Gestopia, uma noção sensorial e corpórea da relação com as imagens e de seu potencial de afecção e contaminação.
O Atlas Tentacular é o trabalho em que minha busca pela gestopia se estabelece de forma mais consciente e compartilhar seu processo coletivo de criação, bem como as questões que o norteiam, é também associar-me à ficção especulativa, à fabulação e ao sonho como metodologias de experimentação da Gestopia enquanto prática criativa. Frente à hiper-exposição às imagens e ao consequente esvaziamento de sua potência poética no cotidiano, a Gestopia é apresentada como uma rota de fuga para outros modos de estar-com as imagens.
A exibição do Atlas Tentacular, seguida de uma conversa, é a possibilidade de abrir o trabalho em diversas camadas, para pensarmos não só a potência sensorial e poética das imagens, como também nossa relação com o mundo por acabar. Uma conversa onde a utopia é pensada não como caminho romântico da harmonia, mas como rota para a quebra, a brecha, a fuga, o estilhaço do mundo que vivemos. Uma conversa sobre arte, criação, produção e pensamento, em ressonância com o mundo por vir e os ecos do mundo por acabar, tendo a imagem como elemento de tensão nessa disputa.
Bibliografia
- AGAMBEN, Giorgio. Notas sobre o gesto. Artefilosofia, n.4, Ouro Preto, jan. 2008, p. 9-16.
_______________. Por uma ontologia e uma política do gesto. In: www.chaodafeira.com Caderno de Leituras n.76, 2018.
ARTAUD, Antonin. Para acabar com o juízo de Deus e outros escritos. Belo Horizonte: Moinhos, 2020.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens, apesar de tudo. KKYM: Lisboa. 2012.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Povo em lágrimas, povo em armas. São Paulo: n-1 edições, 2022.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção! Que emoção! Editora 34: São Paulo, 2016
HARAWAY, Donna. Seguir com o problema de Donna Haraway. São Paulo: N-1 Edições, 2021
LE GUIN, Ursula K. A teoria da bolsa de ficção. São Paulo: n-1 Edições, 2021
MONDZAIN, José-Marie. A imagem pode matar? Nova Vega Editora: Lisboa. 2edição. 2017
SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
TSING, Anna Lowenhaupt. Viver nas ruínas: paisagens mulliespécies no antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019