Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marco Antonio Pereira do Vale (ECA / USP)

Minicurrículo

    Marco Vale atualmente desenvolve seu pós-doutorado “Cavalcanti: o Enigma do Cineasta Brasileiro mais Internacional” na ECA/USP, mesma instituição onde fez sua graduação, mestrado e doutorado. Como realizador audiovisual, prof. Vale dirigiu para a TV “Vem Comigo” e, para o cinema, “Memória sem Visão”, documentário de inspiração cavalcantiana. Por mais de 20 anos, trabalhou na Faculdade Cásper Líbero, onde atuou, entre outras funções, como professor, coordenador de curso e diretor da instituição.

Ficha do Trabalho

Título

    “They Made Me a Fugitive”: ousadias e experiências de um cineasta brasileiro no Noir Britânico

Resumo

    Este estudo visa resgatar, através de uma análise estética e técnica, um filme inglês dirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti: “They Made Me Fugitive” (1947). O filme apresenta tanto um realismo brutal como uma estetização audiovisual desconcertantes para a sua época. A posterior e frustrada experiência de Cavalcanti com os estúdios da Vera Cruz ajudou a levar ao esquecimento, no Brasil, esta obra-prima do Noir Britânico, que é celebrada por críticos e cineasta internacionais até hoje.

Resumo expandido

    Este estudo visa resgatar, através de uma análise estética e técnica, um importante filme inglês muito pouco conhecido no Brasil e que foi dirigido pelo cineasta brasileiro Alberto Cavalcanti: “Nas Garras da Fatalidade” / “They Made Me Fugitive” (1947). Esta obra-prima do filme noir britânico apresenta tanto um realismo brutal como uma estetização audiovisual desconcertantes para a sua época de lançamento. Como Elizabeth Sussex aponta, o surrealismo é parte importante na visão de mundo de Cavalcanti como autor cinematográfico, mas é um surrealismo que se desenvolve a partir de ambientações realistas, tornando-o surpreendente e provocativo. Após revolucionar a linguagem cinematográfica nos pioneiros documentários britânicos da GPO Film Unit, Cavalcanti foi convidado pelo produtor Sir Michael Balcon para redefinir os caminhos artísticos da tradicional empresa inglesa Ealing Studios. Para Balcon, o cineasta brasileiro dirigiu obras-primas como o filme de guerra “48 Horas” / “Went the Day Well?” (1942) e o célebre episódio do ventríloquo no filme de antologia de terror “No Silêncio da Noite” / “Dead of Night” (1945). O importante produtor inglês tinha dificuldades em aceitar a forma não convencional na direção de elenco de Cavalcanti, que questionava, constantemente, o tradicionalismo dramático britânico. “They Made Me a Fugitive” foi o primeiro filme após o trabalho de Cavalcanti nos estúdios Ealing e representou a oportunidade para o cineasta expressar mais livremente seu ousado e provocativo talento, resultando em um dos filmes mais pessoais na sua tão complexa, longeva e internacional carreira. O célebre ator Trevor Howard apresenta uma atuação sempre contida e impecavelmente realista como o protagonista (George Clement Morgan), o que contrasta com as atuações estranhas e perturbadoras de outros integrantes do elenco. Griffith Jones, como Narcy, quebra constantemente a invisibilidade da câmera, provocando os espectadores com a fria psicopatia do personagem, enquanto a atriz Sally Gray, como Sally Connor, primeiro se apresenta ao protagonista de forma inconvincente como se fosse uma femme fatale, para depois subverter esse clichê do cinema noir norte-americano ao revelar-se vítima da violência abusiva de Narcy e a única a compadecer do trágico destino de George. Ou até mesmo a breve, embora marcante, aparição da atriz Vida Hope como Mrs Fenshaw: uma sorumbática burguesa que tenta convencer o protagonista a matar seu marido. Para o cineasta francês Bertrand Tavernier, a influência de Bertolt Brecht no filme de Cavalcanti é palpável em seu tom áspero e grotesco, deixando as convenções realistas da época de lado, o que o diferencia do neorrealismo italiano, tão em voga naquele momento. Cavalcanti apresenta também, em “They Made Me a Fugitive”, um pleno domínio técnico e estético da narrativa cinematográfica. Tanto a câmera como o elenco estão em constantes movimentos, sendo que os planos são fragmentados por uma montagem precisa e frenética, constituindo uma densa e moderna mise-en-scène. O filme também representa o amadurecimento dos experimentalismos sonoros de Cavalcanti. Constantemente, os ruídos contidos nas cenas deslocam da descrição puramente realista de suas paisagens sonoras para se transformarem em expressivos conteúdos sonoros dramáticos. “They Made Me a Fugitive” foi lançado, aproximadamente, dois anos antes de Alberto Cavalcanti retornar ao seu país natal, com a missão de montar, artisticamente e tecnicamente, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz na cidade de São Bernardo do Campo, em passagem polêmica e, muitas vezes, incompreendida de sua carreira. A aura de fracasso dessa experiência ajudou a levar ao esquecimento, no Brasil, filmes britânicos de Cavalcanti como “They Made Me a Fugitive”, celebrados por cineastas e críticos internacionais até hoje. O resgate desse filme é fundamental para a reflexão sobre a obra de nosso cineasta, até hoje, mais internacional.

Bibliografia

    AITKEN, Ian. Alberto Cavalcanti – Realism, Surrealism and National Cinemas. Wiltshire-UK: Flicks Books, 2000.
    CAVALCANTI, Alberto. Filme e Realidade. São Cristóvão-RJ: Artenova/Embrafilme, 1977.
    DRAZIN, Charles. The Finest Years – British Cinema of the 1940s. Londres: I. B. Tauris & Co Ltd, 2007.
    DUGUID, Mark; FREEMAN, Lee; JOHNSTON, Keith e WILLIAMS, Melanie. Ealing Revisited. Londres: Palgrave Macmillan e British Film Institute (BFI), 2012.
    JAMES, Nick. Britain’s Secret Brazilian – Revista Sight & Sound – Número 8, Volume 20 (Agosto de 2010).
    PELLIZZARI, Lorenzo e VALENTINETTI, Cláudio. Alberto Cavalcanti. São Paulo: Instituto Lina Bo e PM Bardi, 1995.
    SUSSEX, Elizabeth. Cavalcanti in England – Revista Sight & Sound – Número 4, Volume 44 (Outono de 1975).
    TAVERNIER, Bertrand. Éloge d’Alberto Cavalcanti – Revista Positif – Número 478 (Dezembro de 2000).